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Estado de Minas A CARA DA CIDADE

Livro de fotos registra a cara de Santa Tereza, Lagoinha e Savassi

Volume que acaba de ser lançado é versão impressa do projeto %u2018Quanto dura um bairro%u2019, cujo site cataloga as modificações na paisagem de BH


postado em 14/07/2020 04:00 / atualizado em 13/07/2020 22:32

(foto: Fotos: Mirela Persichini/Divulgação)
(foto: Fotos: Mirela Persichini/Divulgação)

"A Lagoinha é um pouco mais antigo do que Santa Tereza, com o eixo para fora da Avenida do Contorno. Ou seja, não está na parte planejada da cidade. E, ao contrário de Santa Tereza, teve como destino a destruição"

Philippe Albuquerque,  coautor de Quanto dura um bairro

Morador do bairro de Santa Tereza, o designer Philippe Albuquerque recebeu, em 2014, um comunicado da Prefeitura de Belo Horizonte avisando de que a casa em que morava havia sido indicada para processo de tombamento pelo Patrimônio Histórico da capital. Junto à sua residência, a de número 1.145 na Rua Salinas, outros 287 imóveis e quatro praças tinham sido listados para conformar o tombamento do conjunto urbano do bairro da Zona Leste da capital mineira.

Já envolvido em projetos sobre estética e arquitetura da cidade, Albuquerque convidou uma amiga, a fotógrafa Mirela Persichini, para, junto com ele, registrar as fachadas das casas de Santa Tereza. Este foi o ponto de partida de Quanto tempo dura um bairro, projeto que documenta o conjunto urbano dos bairros Lagoinha, Santa Tereza e Savassi. Já no ar com um site (www.quantodura.com.br), o projeto, viabilizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, agora ganha a forma do livro homônimo.

Cerca de 700 imóveis (construídos entre os anos 1910 e 1960), além de algumas praças dos três bairros, tiveram suas fachadas retratadas para o livro. O conjunto apresentado traz imóveis tombados, em processo de tombamento e muitos sem proteção alguma. O site contém um mapa interativo que indica todas as edificações retratadas, com sua situação perante o patrimônio. O livro reúne todos os endereços dos imóveis percorridos.

"Santa Tereza é um bairro voltado para dentro e que, com as questões políticas de proteção, deu conta de ser preservado"

Philippe Albuquerque, coautor de Quanto dura um bairro 


ARTIGO 
Além das imagens, o projeto inclui o artigo A vida na escala da rua, sobre as políticas de patrimônio, escrito pela fotógrafa e arquiteta urbanista Priscila Musa e pelo produtor cultural Rafael Barros. Há também um texto de apresentação da jornalista Júlia Moysés. Acompanhando as fotos, nos três capítulos há depoimentos de antigos moradores das regiões retratadas. 

“Quem vem aqui fala que, depois que entra pela porta, parece que tá passando por um portal”, comenta Maria das Graças Moraes Xavier, moradora há 40 anos de uma casa na Lagoinha datada de 1919. “Com os novos tempos, Santa Tereza está ganhando uma nova cara, que não é tão bonita de se ver. Só olhando mais ao fundo, penetrando no bairro, é que se vê que ele se mantém como um bom lugar para se viver”, afirma Gláucia Cristiane Martins, moradora do Quilombo Souza, vila que existe há várias décadas dentro de Santa Tereza.

"Na Savassi, como polo do comércio e também local de passagem, os imóveis têm que ser preservados. Mas, às vezes, é só a fachada"

Mirela Persichini, coautora de Quanto dura um bairro


DOSSIÊ 
O primeiro passo da dupla de autores foi entrar em contato com a Diretoria de Patrimônio da PBH para ter acesso ao dossiê sobre Santa Tereza. “Quando já circulávamos por uns quatro meses no bairro, sentamos para dar um rumo com mais consistência ao projeto. Foi aí que começamos a entender a necessidade de pegar outras referências da cidade para fazer com que Santa Tereza se completasse com outras realidades. Escolhemos bairros estruturalmente diferentes”, comenta Albuquerque.

Para o designer, Santa Tereza, cercada de um lado pelo metrô e do outro por grandes avenidas, é “um bairro voltado para dentro e que com as questões políticas de proteção, deu conta de ser preservado”. Já a Lagoinha, na região Noroeste, tem uma situação diferente. “É um pouco mais antigo do que Santa Tereza, com o eixo para fora da Avenida do Contorno. Ou seja, não está na parte planejada da cidade. E, ao contrário de Santa Tereza, teve como destino a destruição.”

Já a Savassi cresceu pela verticalização. “Então uma leva grande de imóveis históricos foi embora. Depois, houve a época em que construtoras compravam uma casa, reformavam e construíram um prédio atrás. A casa virou salão de festas ou entrada do prédio. Ou seja, diferentemente de Santa Tereza, as casas na Savassi não são usadas para se morar. Às vezes, estão absolutamente descaracterizadas. E por ser um bairro dentro da Avenida do Contorno, na área planejada da cidade, suas construções são mais imponentes.”

Os dois responsáveis pelo projeto são moradores dos bairros retratados. Albuquerque se mudou da casa que deu o pontapé do Quanto tempo dura um bairro, mas continua em Santa Tereza. E Mirela é moradora da Lagoinha. “Mas eu sou de Contagem, e ele é do Barreiro. Então, crescemos com um olhar meio estrangeiro para Belo Horizonte. No final das contas, o livro tenta falar das diferenças e dos contrastes”, diz a fotógrafa.

Para ela, as diferenças entre os bairros são gritantes. “Na Lagoinha, de fato somente sete imóveis são tombados, enquanto na Savassi a grande maioria é. Na Savassi, como polo do comércio e também local de passagem, os imóveis têm que ser preservados. Mas, às vezes, é só a fachada. A Lagoinha, por sua vez, não é um bairro, é quase que um caminho”, comenta ela, lembrando-se que o bairro não conta com nenhuma agência bancária e que os dois primeiros supermercados de rede só foram inaugurados em 2019. 

“Ali, os donos deixaram o imóvel cair. Ou então reformam para fazer estacionamento. Mas isto é também uma forma com que as pessoas enxergam a Lagoinha, dizendo para tomar cuidado, que é um lugar perigoso. Mas, durante o projeto, as pessoas foram muito gentis. Já na Savassi, quando estávamos realizando o projeto, ninguém nem olhava para a gente.”

Mirela comenta que, em seus 122 anos, a capital mineira já teve o tecido urbano trocado quatro vezes. Ou seja, a cada 25 anos, ocorre uma renovação arquitetônica. “Desta maneira, nossa história não é preservada”, ela diz. 


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