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Estado de Minas ARTES CÊNICAS

O mineiro Alexandre Cioletti vai à luta, apesar do coronavírus

Em cartaz na série 'Coisa mais linda', ator faz parte do elenco do filme 'Órfãs da rainha' e das peças 'Love, love, love' e 'Entre', com temporadas interrompidas. 'Sinto muita falta do trabalho', afirma


postado em 30/06/2020 04:00

Em Coisa mais linda, Alexandre Cioletti faz o papel de Nelson, homem dividido entre o machismo e a revolução comportamental dos anos 1960(foto: Aline Arruda/divulgação)
Em Coisa mais linda, Alexandre Cioletti faz o papel de Nelson, homem dividido entre o machismo e a revolução comportamental dos anos 1960 (foto: Aline Arruda/divulgação)

Atuar é tudo para Alexandre Cioletti. “O teatro, o cinema e a televisão são a minha vida”, diz o ator mineiro, de 42 anos, orgulhoso do ofício. Nos palcos e sets de filmagem, ele conheceu as mulheres que lhe deram quatro filhos. Laís, de 21, é fruto do casamento com Marcelle Azzi. Ana, de 11, e Cecília, de 10, da união com Luísa Rosa. O caçula Rakim, que acaba de completar 1 ano, é filho dele e da atriz Pathy Dejesus.

Há seis anos, o belo-horizontino Cioletti mora em São Paulo. Acaba de estrear a segunda temporada da série Coisa mais linda (Netflix), na qual ele faz o papel de Nelson, que forma com Thereza (Mel Lisboa) um casal moderno para os conservadores anos 1950/1960.

“Nelson é complexo: ao mesmo tempo, liberal, patriarcal e machista. É um personagem muito bom”, diz Cioletti. Coisa mais linda aborda temas muito discutidos atualmente, como violência doméstica, machismo e racismo. Maria Casadevall interpreta a protagonista Luiza Carone, que vai à luta depois de ser abandonada pelo marido, Pedro Furtado (Kiko Bertholini). Ela comanda um bar de música que se transforma em um grande sucesso.

“A série não se propõe à discussão profunda desses temas, mas a aproximar o público deles. Coisa mais linda é entretenimento”, afirma Cioletti. O ator lembra que houve avanços dos anos 1960 para cá, “mas a violência contra a mulher aumentou”.

''A política do setor cultural precisa ser mudada. Estamos vivendo um retrocesso depois do outro''

Alexandre Cioletti, ator



Alexandre Cioletti com Eloisa Elena e Cláudio Queiroz na peça Entre(foto: Murilo Alvesso/divulgação)
Alexandre Cioletti com Eloisa Elena e Cláudio Queiroz na peça Entre (foto: Murilo Alvesso/divulgação)

PANDEMIA

A alegria de ver o resultado de seu trabalho na telinha é um orgulho, contraponto à inquietação que ele sente com o avanço da pandemia do novo coronavírus. Coisa mais linda já estava pronta para ir ao ar quando o isolamento social começou. Alexandre havia também concluído seu trabalho no longa As órfãs da rainha, de Elza Cataldo. No entanto, foram suspensas as temporadas das peças Love, love, love, sob direção de Eric Lenate, que lhe rendeu a indicação de melhor ator no Prêmio APCA, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte, e Entre, dirigida por Yara de Novaes e Carlos Gradim.

“Sinto muita falta do trabalho”, diz Cioletti. “Descobri que o grande barato da profissão não foi o fato de minha mãe ter me matriculado no curso de teatro para vencer a timidez, mas a possibilidade de conhecer pessoas, a troca de afeto que ele oferece. Desde o isolamento, tenho sentido uma angústia muito grande. Não sabemos como e quando sairemos dessa situação.”

No início dos anos 2000, quando dona Lisete matriculou o filho no curso de teatro, as artes cênicas não eram prioridade para o jovem Alexandre. Ele se preparou para o vestibular para medicina na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mas não passou – por meio ponto. Então, dedicou-se aos palcos. Formou-se no Núcleo de Estudos Teatrais (NET), em BH, fez parte da boa safra de atores mineiros, que contava com Daniel Oliveira – grande amigo dele, padrinho de uma de suas filhas –, Romulo Braga, Tom Guimarães e Jefferson da Fonseca.

''Podemos viver em uma sociedade melhor, mas há um longo caminho para isso. A pandemia vai nos mostrar uma lição''

Alexandre Cioletti, ator



Alexandre Cioletti com Eloisa Elena e Cláudio Queiroz na peça Entre(foto: Murilo Alvesso/divulgação)
Alexandre Cioletti com Eloisa Elena e Cláudio Queiroz na peça Entre (foto: Murilo Alvesso/divulgação)

COMÉDIAS

Cioletti já saiu do NET com seu primeiro grupo de teatro, Os Máscaras, em ação. Estreou na montagem infantil O Sítio do Picapau Amarelo. A partir dali, vieram convites para peças encenadas em BH, sobretudo comédias.

O ator fez parte do elenco de A comédia do sexo e de Adorável pecado, ambas produções da Cangaral. “Ílvio (Amaral, um dos sócios da produtora) foi importante para a minha carreira. Por meio dele, tive o primeiro contato com o teatro profissional. Até então, trabalhava com uma turma que queria atuar. Com Ílvio, comecei a ter a visão ampla da profissão, com remuneração salarial, estrutura de ensaios séria, etc.”.

As portas foram se abrindo, com novos convites, entre eles duas peças de Nelson Rodrigues. Cioletti trabalhou com Carlos Gradim em A falecida  e fez A serpente, com Yara de Novaes. Atuou também em #140 ou Vão, da Cia. Afeta, e Um pequeno lapso da razão, da Capote Companhia, entre outros espetáculos.

Dos palcos, o mineiro seguiu para a televisão. Na telinha, estreou como o nerd Valvênio em Tempos modernos (2010), atração da Globo. Com o fim da novela, voltou para BH, mas logo se mudou para São Paulo. “Me adaptei muito bem, ao contrário do Rio de Janeiro. Aqui é minha segunda terra”, revela, por telefone, de sua casa, na capital paulista.

Cioletti diz que enfrentou São Paulo com cara, coragem e sorte. Sem dinheiro para pagar o primeiro aluguel, precisava urgentemente trabalhar. Foi aprovado no primeiro teste para publicidade que fez. “Não conhecia o mercado publicitário. Era novidade para mim, assim como eu era uma cara nova para eles, que devem ter curtido”, relembra.

Vieram um filme (Guigo Offline, de Renê Guerra, 2017) e a série Toda forma de amor (Canal Brasil, 2019), com direção de Bruno Barreto. A estreia nos palcos paulistanos se deu com a mineira Cia. Afeta em Do lado direito do hemisfério.

O ator fez teste para o elenco de Coisa mais linda. Foi aprovado, e as surpresas foram muitas. Primeiro, a rapidez da resposta. “Geralmente, são várias etapas até você receber o OK. No caso, eles estavam prestes a filmar”, diz Cioletti. Depois veio a alegria de descobrir um amigo, Gustavo Vaz, também tentando uma vaga no seriado. “Foi uma situação divertida. No caminho de volta para casa, descemos no mesmo ponto de ônibus, numa esquina na Vila Mariana. Ao nos despedirmos, prometemos que se ganhássemos os papéis faríamos um brinde naquela esquina.”

Gustavo e Alexandre não só conquistaram os papéis de Augusto e Nelson, como os personagens são irmãos. No set, outra surpresa: o mineiro conheceu Pathy Dejesus, sua mulher.

Seguindo rigorosamente o protocolo de isolamento social, o ator ainda está tentando absorver o baque representado pela pandemia. “Vamos sair dessa, apesar das enormes perdas”, diz ele, preocupado com o futuro dos trabalhadores da cultura, impedidos de trabalhar com o fechamento de salas de teatro, cinemas e espaços de arte.

“A política do setor cultural precisa ser mudada. Estamos vivendo um retrocesso depois do outro”, lamenta. Por enquanto, Cioletti prefere não julgar o novo secretário especial de Cultura, Mário Frias. “Vamos entrar numa fria. Quer dizer, numa fria a gente já está. Vamos entrar em uma gelada”, comenta.

Cioletti reclama do “descaso generalizado” do governo em relação aos artistas e também aos quilombolas e indígenas. “A Lei Aldir Blanc foi aprovada no Congresso e está até hoje na mesa desse cara para ser assinada”, queixa-se. Caso o presidente Jair Bolsonaro a sancione, trabalhadores da cultura terão direito ao auxílio de R$ 600. Deputados e senadores aprovaram também a destinação de R$ 3 bilhões para o setor.

Com Ludmilla Ramalho na peça #140 Vão, da Cia. Afeta(foto: Samuel Mendes/Divulgação)
Com Ludmilla Ramalho na peça #140 Vão, da Cia. Afeta (foto: Samuel Mendes/Divulgação)

SAÚDE

Alexandre Cioletti se preocupa com o Brasil, diz que ele vem se tornando vergonha mundial. “Governo sem política social, sem ministro da Saúde em meio a uma pandemia”, critica. “Começamos lá de cima, com um governo despreparado, que não é funcional, irresponsável. Não só o presidente, mas o conjunto das pessoas desse governo.”

O mineiro refuta a tese de que todos sairão melhores da crise provocada pela COVID-19. “As mazelas geradas por ela estão aí, as pessoas estão morrendo. Li o texto de um jornalista que diz que a pandemia é apenas catalisador para o genocídio do povo negro, a higienização da marginalização”, comenta.

Na opinião de Cioletti, a crise mundial “está tirando muito fascista do lixo”. E adverte: a pandemia “não vai abrir um portal onde todos estaremos juntos e ninguém soltará a mão de ninguém”.

Na opinião dele, só há sociedade se existir solidariedade. “Quando percebemos que isso é impossível, você vai viver sozinho.” Dizendo-se socialista, acredita que o socialismo não se resume à doutrina política. “É uma filosofia de vida”, afirma, baseada em solidariedade e empatia.

Apesar de tudo, o ator mineiro mantém a esperança. “Podemos viver em uma sociedade melhor, mas há um longo caminho para isso. A pandemia vai nos mostrar uma lição”, conclui.

Como Valvênio, o nerd da novela Tempos modernos(foto: Globo/reprodução)
Como Valvênio, o nerd da novela Tempos modernos (foto: Globo/reprodução)


COISA MAIS LINDA
• Série
• Duas temporadas
• 13 episódios
• Disponível na Netflix

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