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Estado de Minas VOLTA POR CIMA

O que fazer quando todo artista tem que ir onde o povo está (em casa)?

Artistas do Palácio das Artes respondem arregaçando as mangas na quarentena e produzindo vídeos com obras musicais e de dança. Cine Humberto Mauro libera filmes on-line


postado em 28/06/2020 04:00

Frederico Gandra*
(foto: Fotos: Fundação Clóvis Salgado/Divulgação)
(foto: Fotos: Fundação Clóvis Salgado/Divulgação)

"A imagem mais forte para mim é a cena em que a cortina se abre e mostra o teatro vazio. Arrepio só de falar"

Daiana Melo, cantora lírica


oi uma sensação difícil de lidar. Não é comum você cantar uma obra de referência no palco do Grande Teatro e, ao final da música, haver silêncio.” A soprano Daiana Melo não ouviu aplausos nem nenhum outro som quando terminou de interpretar uma ária da ópera A flauta mágica, de Mozart, porque cantou para uma plateia vazia.

A cena com a solista cantando no palco enquanto os instrumentistas da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e o maestro Silvio Viegas executam a música em suas respectivas casas está num vídeo da série #Palácio em Sua Companhia, divulgado pela Fundação Clóvis Salgado (FCS) em suas redes sociais (@fcs.palaciodasartes) no final do mês passado.

“A imagem mais forte para mim é a cena em que a cortina se abre e mostra o teatro vazio. Arrepio só de falar”, comenta Daiana, que integra o coral, um dos corpos artísticos estáveis da FCS, desde 2010. A primeira performance do coral e da orquestra gravada remotamente foi uma homenagem ao Dia das Mães com trechos de  óperas reunidos e batizados com o nome de Medley corálico.

A soprano Daiana Melo interpreta área de A flauta mágica no Grande Teatro do Palácio das Artes, sem público. Músicos da orquestra e cantores do coral gravaram sua participação à distância para o vídeo
A soprano Daiana Melo interpreta área de A flauta mágica no Grande Teatro do Palácio das Artes, sem público. Músicos da orquestra e cantores do coral gravaram sua participação à distância para o vídeo

"Todo mundo comprou a ideia (dos concertos virtuais). Isso trouxe uma união enorme. Eu me sinto agora mais próximo de pessoas com quem convivia todos os dias"

Silvio Viegas, regente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais

DINÂMICA 

“Foi importante manter essa dinâmica de concerto dos dois grupos juntos”, afirma a regente do coral, Lara Tanaka. “Fiquei emocionada de ver que é possível levar nosso trabalho a distância.” O ânimo de seguir em frente com sua atividade, mesmo sem poder encontrar o público, no entanto, esbarra em uma série de dificuldades. Algumas inusitadas. “Há cantores que não conseguem participar porque moram num apartamento muito apertado e os vizinhos reclamam”, conta Lara.

O maestro Silvio Viegas, regente da orquestra, também tem tido que contornar uma série de empecilhos para produzir os vídeos em que a orquestra toca sem se encontrar.  Unificar o som, segundo ele, é o maior desafio. “Cada um tem um tipo de celular. A captação de som e imagem é diferente.”

Para que o resultado seja homogêneo, o maestro precisa ser detalhista, o que inclui instruções sobre posição da câmera, distância do celular, traje e como os músicos devem se portar na gravação, além “das especificações da articulação, interpretação e gravação, para que eles estejam bastante seguros na hora de executar.”

"Há cantores que não conseguem participar porque moram num apartamento muito apertado e os vizinhos reclamam"

Lara Tanaka, regente do Coral Lírico de Minas Gerais


Embora o esforço exigido para a adaptação a esse novo formato seja grande, o maestro comenta que a possibilidade de ressaltar o papel fundamental da arte nesse período de isolamento social motivou os músicos e acabou unindo-os ainda mais. “Todo mundo comprou a ideia. Isso trouxe uma união enorme. Eu me sinto agora mais próximo de pessoas com quem convivia todos os dias.”

As atividades presenciais na Fundação Clóvis Salgado foram suspensas no dia 17 de março, quando Belo Horizonte começou a adotar a quarentena para prevenir a disseminação do novo coronavírus. No dia 3 de abril, foi disponibilizado o primeiro vídeo com integrantes da Orquestra Sinfônica interpretando uma das músicas mais famosas de Mozart, Eine kleine Nachtmusik - K 525. A experiência serviu de teste para as futuras produções. “Vimos que era possível e passamos a investir em obras mais complexas”, revelou Silvio Viegas.

A Companhia de Dança decidiu incorporar os sentimentos despertados durante o isolamento social ao seu trabalho. “Uma das características da dança contemporânea é dialogar com a realidade presente”, afirma Cristiano Reis, diretor da companhia. Ele coordena a produção da Trilogia do afeto, produção coletiva dos 20 bailarinos dentro da temática.

"Todo mundo estava precisando de um abraço, querendo abraçar e não podia. Por conta disso, teve uma repercussão muito grande"

Cristiano Reis, diretor da Companhia de Dança de Minas Gerais (sobre o vídeo Abraço)


No primeiro vídeo da série, Abraço, os bailarinos fizeram uma performance pensando na falta que a energia de um abraço faz durante a pandemia. “Todo mundo estava precisando de um abraço, querendo abraçar e não podia. Por conta disso, teve uma repercussão muito grande”, diz Cristiano. O vídeo chegou a ser veiculado nas redes socais do metrô de São Paulo.

O segundo vídeo da trilogia foi, chamado A saudade, foi divulgado no dia 27 de maio. E ontem (27), a Companhia de Dança lançou Presente, que encerra essa série. A iniciativa também contempla pílulas com performances individuais dos bailarinos.

Beatriz Kuguimiya, de 48 anos, utilizou a janela de casa como palco em seu solo. “Você começa a olhar para a sua casa, tentando descobrir a melhor forma de passar aquilo que está sentido. O que representaria aquele sentimento? Então me veio essa questão da janela com as grades”, contou a bailarina.

Na coreografia que criou, Beatriz procurou mostrar a “barreira imaginária”, representada pela grade, que significa o fato de as pessoas terem que se manter confinadas em suas casas nesse período de crise sanitária. Ela contou com a colaboração do marido para gravar a performance. “Filmamos 1 milhão de vezes. No final, já estava com luvas para não machucar minha mão.”

ESTUDO  

Sérgio Rebelo, músico da Orquestra Sinfônica, também se dedica às performances individuais. Ele gravou oito faixas de violoncelo para interpretar Bachianas brasileiras nº 1, de Villa-Lobos. O vídeo foi publicado no último dia 19.  Sérgio concebeu o arranjo e editou o vídeo. Ele diz que a experiência foi um grande aprendizado. “É o melhor estudo que existe”, afirma.

O diretor da Companhia de Dança avalia que é um alívio poder continuar atuando durante o isolamento social. “Não é o ideal, mas a companhia está conseguindo contornar e se adaptar ao contexto.” Lara Tanaka pede interação dos internautas nas redes sociais. “É importante o feedback do público para sentirmos que estamos sendo vistos.” Ela conta que escolheu esse ofício por amar o contato com o público.

No princípio, os artistas tiveram dificuldades em lidar com a tecnologia. Alguns investiram em equipamentos para melhorar a qualidade dos vídeos, como tripé, iluminação e suporte para celular. “Estamos nos instrumentalizando cada dia mais com equipamentos simples”, diz Cristiano Reis.

O Cine Humberto Mauro também participa da reformulação do modus operandi do Palácio das Artes, tendo passado a disponibilizar a programação no site da FCS. A presidente da Fundação, Eliane Parreiras, diz que as produções coletivas foram as que alcançaram maior repercussão, como a interpretação de Ave Maria, Querelas do Brasil, Flauta mágica e a série do Afeto.

“Elas tiveram um impacto muito grande porque são mais complexas do ponto de vista de produção”, afirma. A maior surpresa foram as mostras de cinema on-line do Cine Humberto Mauro. “É, sem dúvida nenhuma, o maior sucesso”, diz Eliane. Contando com exibição de filmes on-line e debates realizados no formato de lives, os 10 filmes da mostra Clássicos do cinema japonês somaram 28 mil visualizações. “Foi surpreendente”, diz a presidente da FCS.

Segundo ela, a Fundação registrou desde março um aumento de 20% dos seguidores e 30% de engajamento nas mídias sociais. “Isso revela um desejo do público para também atuarmos nesse meio digital.” Por isso Eliane considera a atuação no universo digital “um caminho sem volta”. “A produção digital vai ter um papel importante para democratizar o acesso, difundir a produção e atrair novos públicos.”

*Estagiário sob a supervisão da editora Silvana Arantes

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