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Estado de Minas

Início de um novo capítulo

Livrarias de rua de BH reabriram ontem adotando as medidas restritivas de contato social para evitar a contaminação pelo novo coronavírus. Empresários contam como mantiveram negócio funcionando de portas fechadas


postado em 26/05/2020 04:00 / atualizado em 25/05/2020 22:14

Bernardo Ferreira, da Ouvidor, deve reincorporar os funcionários ao trabalho nesta semana. Na quarentena, ele atendeu sozinho pedidos remotos(foto: Fotos EDÉSIO FERREIRA/EM/D.APRESS )
Bernardo Ferreira, da Ouvidor, deve reincorporar os funcionários ao trabalho nesta semana. Na quarentena, ele atendeu sozinho pedidos remotos (foto: Fotos EDÉSIO FERREIRA/EM/D.APRESS )
Às 11h de ontem, horário em que as livrarias de rua estavam autorizadas a reabrir de acordo com decreto da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Cláudia Mazini e Alencar Perdigão, da livraria Quixote, Bernardo Ferreira (da terceira geração de proprietários da Ouvidor, livraria já com meio século de vida), e Welbert Belfort, da Scriptum (que chegou aos 23 anos neste mês) abriram suas portas pela primeira vez em mais de 60 dias.

Para o público, diga-se de passagem. Ao longo desse período, as três livrarias da Rua Fernandes Tourinho continuaram atendendo, sempre remotamente, os seus clientes. A venda não fez nem sombra ao movimento que eles tinham antes da pandemia, todos admitem, mas, mesmo com uma queda enorme, os livreiros estão com seus negócios de pé. E ainda que os funcionários estejam afastados, não houve demissões.

Agora, com as portas reabertas, adaptações serão feitas para o “novo normal”. São novos horários (das 11h às 19h), limite de clientes e exigência de máscaras. As mesinhas da Quixote, também uma cafeteria que se destaca pelos lançamentos literários semanais, estão devidamente recolhidas.

Na Ouvidor, tampouco há sombra das cadeiras que chamam o público frequentador da Savassi. A própria Fernandes Tourinho continua vazia – os demais estabelecimentos comerciais fechados, restaurantes e lanchonetes com as entradas só permitidas para funcionários.

É cedo para dizer o que as próximas semanas e meses reservam. “Não me sinto ainda completamente segura”, admite Cláudia, que neste primeiro momento dividirá o atendimento apenas com Alencar, sem funcionários. Belfort também encara os novos tempos à frente de seu negócio. Comenta que foram o comércio on-line e as parcerias que fez com editoras – Autêntica, Companhia das Letras e Boitempo – que lhe permitiram ter um volume de venda. “Minha venda caiu 60%. Mas, se não fosse o site, não venderia nada.”
Cláudia Mazini, da Quixote, conta que pela primeira vez em 17 anos não recebeu pessoalmente os clientes, mas deu até sugestões de presente por telefone
Cláudia Mazini, da Quixote, conta que pela primeira vez em 17 anos não recebeu pessoalmente os clientes, mas deu até sugestões de presente por telefone

PROMOÇÕES 
As promoções, que ele vai manter com a Scriptum agora reaberta foram um chamariz. Títulos da Editora Scriptum, livros em espanhol e em francês estão com 30% de desconto; livros da Autêntica, 20% mais baratos. Belfort, no entanto, não pretende manter sua livraria em funcionamento até as 19h, o limite permitido pelo decreto, já que o movimento “do público da redondeza, que trabalha na região, não vai existir” por ora.

Desde março passado ele enfatizou sua presença nas redes sociais, sempre associando algum conteúdo extra ao título que anunciava. Com essa estratégia, chamou a atenção do público que está fora de Belo Horizonte. “Na verdade, vendi mais para fora do que para dentro de BH”, diz, destacando uma venda maior de títulos de psicanálise.

Para Belfort, faltou empatia ao cliente belo-horizontino. “Se os amantes de livros continuarem comprando em grandes redes comerciais, nas quais a palavra livraria não faz parte da razão social da loja, a tendência é que as pequenas livrarias locais não tenham condições de subsistir. Será que não está faltando empatia e ação da nossa sociedade, que tem um pouco de apreço pela cultura municipal e mineira?”, questionou ele, em texto publicado nas redes sociais da Scriptum no início de maio.

Bernardo Ferreira trabalhou sozinho na Ouvidor, de portas fechadas, durante o primeiro mês da quarentena. Já no segundo, passou a contar com a ajuda de um funcionário e, a partir desta semana, os demais voltarão para a livraria. “Continuamos atendendo realmente para não parar, pois a venda foi 15% do que costumamos vender”, ele afirma.
Welbert Belfort, da Scriptum, diz que por enquanto não manterá a loja aberta até as 19h, já que a circulação na Savassi está muito reduzida
Welbert Belfort, da Scriptum, diz que por enquanto não manterá a loja aberta até as 19h, já que a circulação na Savassi está muito reduzida

ESTOQUE
 Ontem, durante a visita que a reportagem fez à Ouvidor, as mesas centrais da livraria estavam com poucos exemplares. Entre eles se destacava Minha história (2018), da ex-primeira-dama dos Estados Unidos Michelle Obama, um best-seller desde seu lançamento, que ganhou nova vida no início deste mês, quando o documentário homônimo foi lançado pela Netflix.

Como houve poucos lançamentos literários no período e as livrarias estavam de portas fechadas, não houve reposição de estoque. Os novos títulos, lançados a partir de março, só começarão a chegar agora que a reabertura foi autorizada.

Mas com as distribuidoras de livros já em funcionamento, os pedidos, quando o título não está disponível, são feitos n a hora. A entrega prometida é, no máximo, para o dia seguinte. No período em que o Estado de Minas esteve na Ouvidor, já havia vendas em curso pelo telefone e presencialmente.

Na Quixote, em meio à limpeza geral depois de 60 dias de fechamento, alguns títulos recém-lançados se destacavam nas prateleiras. Entre eles está um dos primeiros livros escritos sobre a pandemia. No contágio, ensaio do escritor italiano Paolo Giordano, publicado na Itália, em março. No Brasil, chegou em meados de abril em formato de e-book pela editora ítalo-brasileira Âyiné. Agora, o livro, em papel, já está disponível. A vida segue em frente, apesar de tudo.

A vida pela frente (1974), sucesso da literatura francesa de Romain Gary (que publicou a obra com o pseudônimo de Émile Ajar), só chegou ao Brasil no fim de 2019, pela Editora Todavia. Os 45 anos de atraso não interferiram na recepção do livro, que acompanha um menino árabe que vive na Paris dos anos 1970 sob os cuidados de uma judia com a idade avançada. Após sobreviver a Auschwitz, ela se tornou prostituta. 

Ora irônico, ora dramático, o romance trata de compaixão, desestimula o preconceito, prega o amor. A vida pela frente foi um dos títulos mais vendidos nos últimos dois meses pela Quixote, quando Cláudia e Alencar, mesmo de portas fechadas, continuaram atendendo os seus clientes. 

Pelo telefone ou WhatsApp, novos e antigos clientes pediram livros. As entregas foram feitas pelos Correios ou via motoboy. Pela primeira vez em 17 anos de livraria, Cláudia conta, ela não realizou as vendas pessoalmente. “Falei com muita gente nova, gente que acabou virando cliente. Muitos pediram sugestões de presentes.” 

Para além de títulos que dialogam diretamente com a pandemia – A peste (1947), de Marcel Camus, best-seller mundial deste período,  Ensaio sobre a cegueira (1995), de José Saramago, e Ideias para adiar o fim do mundo (2019), de Ailton Krenak –, Cláudia sempre sugeria o pequeno livro de Romain Gary/Émile Ajar. “Foi um momento de delicadeza e de troca de afeto que se deu através dos livros.”


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