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Estado de Minas LUTO

Artigo: Aprendendo com Sérgio Sant'Anna

Alexandre Marino, ex-aluno do escritor, relembra os tempos de professor na recém-criada Faculdade de Comunicação Social da PUC Minas


postado em 10/05/2020 20:23 / atualizado em 10/05/2020 20:33

(foto: Quinho)
(foto: Quinho)

Sérgio Sant´Anna ainda não tinha 35 anos quando foi convidado para compor a equipe de professores da recém-criada Faculdade de Comunicação Social da Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas. Seu primeiro diretor, o jornalista Lélio Fabiano dos Santos, apresentou a Sérgio uma faculdade de proposta inovadora, fundada na liberdade de pensamento e debate naqueles difíceis tempos da ditadura militar.

Quando me matriculei no curso de Comunicação na PUC, em 1975, o prédio da faculdade era recém-construído, e as salas ainda não haviam sido pintadas. O curso ainda não havia sido reconhecido pelo Ministério da Educação, por não ter formado sua primeira turma. Mas o nome de Sérgio Sant´Anna na lista de meus futuros professores era uma motivação a mais para seguir em frente e me formar em jornalismo, sem me desgarrar da literatura. Eu conhecia alguns dos contos que ele havia publicado em jornais e revistas, especialmente o Suplemento Literário de Minas Gerais, criado por Murilo Rubião, e sabia que ele era um escritor em ascensão.

Seu primeiro livro, “O sobrevivente”, de contos, editado por conta própria em 1969, já era difícil de ser encontrado nas livrarias. Naquele ano de 1975, enquanto encantava seus alunos da cadeira de Redação e Edição de Textos, ele publicou seu primeiro romance, “Confissões de Ralfo”, um livro fascinante pela sua proposta inovadora e narrativa fragmentária, que já dava mostras de sua inquietação criativa e busca permanente por uma linguagem além da literatura bem comportada.

Como professor, Sérgio Sant´Anna também era uma atração à parte, mesmo numa faculdade voltada para a liberdade de pensamento e criação. Ele escrevia com giz no quadro negro, como era o costume nas escolas da época, mas como se não aceitasse a efemeridade dessa escrita, preferia não apagá-la, ao acabar o espaço, e passava a escrever nas paredes, feitas de chapas de MDF ainda sem pintura. E ali sua caligrafia permanecia, como sua literatura permaneceu na memória e no coração dos estudantes que conviveram com ele.

Para mim, um estudante de jornalismo mal saído da adolescência e interessado em literatura, ter sido aluno de Sérgio Sant´Anna foi uma dádiva que me desperta o desejo de prestar-lhe uma justa, embora inútil, homenagem. Ele me apresentou grandes escritores que eu ainda não conhecia, apontou caminhos para minha escrita, ensinou que bem escrever não se aprende estudando teoria ou gramática, mas se abrindo ao prazer da leitura e à descoberta da técnica implícita nos textos dos grandes escritores.

Talvez por isso eu tenha lido, e releia, toda sua obra, marcada pela mistura de várias linguagens artísticas e de ficção e memória. Uma fonte inesgotável de descobertas literárias. Dois semestres que marcaram minha vida.


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