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Estado de Minas LITERATURA

Livro revela bastidores do centro de cura de João de Deus

Obra A casa, do repórter Chico Felitti, mostra detalhes sobre a trajetória do médium de Abadiânia, que foi preso e condenado por crimes sexuais


postado em 07/05/2020 04:00 / atualizado em 06/05/2020 20:29

João de Deus na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia: antes de ser condenado, médium arregimentava milhares de fiéis em busca de cura (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 12/12/18)
João de Deus na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia: antes de ser condenado, médium arregimentava milhares de fiéis em busca de cura (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 12/12/18)

Quando Flávio Moura e André Conti, editores da Todavia, perguntaram a Chico Felitti se ele queria escrever um livro sobre João de Deus, a resposta imediata foi “não”. O jornalista e autor de Ricardo e Vânia não tinha interesse algum no personagem. Os editores propuseram, então, que ele fosse até Abadiânia e encontrasse um recorte da história do médium. “E eu enlouqueci”, conta Felitti.

Em Abadiânia, o escritor se deparou com duas cidades. Uma pobre e católica, de um lado da BR-060, e a outra rica e badalada, conhecida como Lindo Horizonte. Ali funcionava a Casa Dom Inácio de Loyola, o centro no qual João de Deus atendia, fazia as cirurgias espirituais e cometia as agressões sexuais pelas quais acabou preso depois de denunciado e julgado entre 2018 e 2019.

O resultado da investigação de Felitti está em A casa, lançamento da editora Todavia, já disponível nas plataformas on-line e em e-book. “Era um lugar tão peculiar, fora do tempo e do espaço, que não fazia sentido nenhum ali, num pedaço de cerrado pobre, com a cidade católica de um lado e do outro a cidade da seita. Era muito diferente e a BR é um fosso mesmo: descobri que mal havia contato entre as duas partes”, detalha Felitti. “Eu era muito de fora desse universo e fiquei muito embasbacado.”

O repórter fez da casa na qual o médium atuava o personagem central do livro. Para ele, a apuração parecia ser bastante fácil. Em uma cidade de 20 mil habitantes, pensou Felitti, todo mundo teria histórias para contar, já que as denúncias de crimes sexuais cometidos por João de Deus acabavam de ser reveladas. O jornalista desembarcou em Abadiânia em janeiro de 2019, pouco mais de um mês após as primeiras denúncias terem sido feitas no programa de entrevistas de Pedro Bial. A apuração, no entanto, não foi nada fácil. “Era uma cidade muito em choque com o que tinha acontecido”, conta. “As pessoas eram muito ressabiadas com a imprensa e foi difícil encontrar grupos de pessoas que me ajudassem a vencer essa parte da história. Consegui por repetição, fui várias vezes. Foi uma contaminação muito lenta e sou muito grato à generosidade das pessoas, que foram se abrindo.”

Em dezembro de 2019, João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, foi condenado a 19 anos e 4 meses de prisão por crimes sexuais cometidos contra quatro mulheres, embora haja mais de 100 denúncias registradas contra o médium. Além dos assédios, há também condenação por porte ilegal de armas. Durante a pesquisa para A casa, Chico Felitti esbarrou ainda em outras suspeitas. No livro, acidentes e assassinatos que eliminaram desafetos do personagem entram numa conta de suspeitas que revelam a rede de poder que ajudou a proteger João de Deus da Justiça durante quatro décadas.

Denúncias 

Uma das coisas mais chocantes com a qual Felitti se deparou durante a apuração foi a quantidade de denúncias conhecidas de todos. “Era uma tragédia anunciada”, conta. “Achei que tivesse ineditismo na história e, quando cheguei à cidade, descobri que tinha denúncia de assédio desde 1979, que havia a história do avião que explodiu, denúncia de tráfico de material radioativo, coisas que já tinham chegado ao poder (público) de alguma maneira, e tinham vazado mesmo pela cidade. O que mais me chocou foi que essa monstruosidade já existia e era denunciada, conhecida e não foi suficiente para a sociedade barrar um criminoso.”

Uma das passagens mais impressionantes do livro é o depoimento de uma das vítimas, cujo nome foi trocado a pedido da entrevistada. Ela conta com detalhes como os abusos ocorriam e revela o medo de ser julgada como boba e inocente, uma postura comum para desqualificar as agressões sofridas. Muitas das vítimas trabalhavam na Casa e estavam tão doutrinadas que acabavam por acreditar que os estupros e abusos faziam parte do tratamento. Outras tinham medo de que o médium invocasse espíritos para persegui-las, ou temiam até pela própria vida, já que há relatos de ameaça por parte de João de Deus. “Existia uma rede de poder e um fator que se chama fé. As pessoas acreditavam que havia milagre”, lembra Felitti. Os últimos capítulos, aliás, são dedicados às denúncias e à descrição de como se deu a força-tarefa de ministérios públicos de todos os estados do Brasil que receberam ligações de vítimas.

No livro, o repórter também refaz a trajetória de João de Deus, que passou por vários estados antes de se instalar em Abadiânia, e do desenvolvimento da Casa Dom Inácio de Loyola, que movimentava a economia local e empregava mais de 500 pessoas na cidade. Além desse centro, João de Deus, que também era dono de garimpo e de uma fazenda de criação de gado, mantinha a Casa da Sopa, na qual distribuía sopa de graça, e a Casa do Banho, destinada à higiene de quem procurava sua ajuda.

RECEIOS 

A narrativa de Chico Felitti é sempre muito generosa. Ele não hesita em colocar bastidores da apuração da reportagem e fala, inclusive, sobre seus próprios receios. João de Deus não era uma figura totalmente estranha ao universo do jornalista. Em 2014, ele teve um problema de saúde para o qual foi sugerida uma consulta com o médium, mas Felitti preferiu a medicina tradicional, que o curou. Ele também ficou apreensivo diante de histórias contadas pelos entrevistados sobre possíveis maldições do curador sobre repórteres que tentavam aprofundar as denúncias.

Quando o marido de Felitti ficou gravemente doente, ele se perguntou se não seria praga. Um dia, o repórter sofreu um acidente inusitado ao cair dentro de um esgoto enquanto andava e, certa vez, se deparou com os computadores da Biblioteca Nacional pifados justamente no momento em que precisava realizar uma pesquisa para o livro. “E tem histórias que ficaram de fora, como a de uma grande repórter que admiro e que teve uma doença grave que ela atribui a uma matéria de denúncia”, garante. “Não posso esconder esses fatos do leitor porque são notáveis. Mas sou ateu, tendo a achar que são coincidências. É um esforço consciente para dizer que são coincidências.”


A CASA

. De Chico Felitti
. Todavia
. 264 páginas
. R$ 47,92



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