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Estado de Minas

'Brasileiros' reconstrói a história de personalidades memoráveis

Livro reúne 41 personalidades biografadas por admiradores. Fernanda Montenegro escreve sobre Irmã Dulce


postado em 25/04/2020 04:00

A trajetória de Getúlio Vargas (1882-1954) é abordada na coletânea por sua neta Celina Vargas do Amaral Peixoto (foto: Flávio Damm/O Cruzeiro/Arquivo EM )
A trajetória de Getúlio Vargas (1882-1954) é abordada na coletânea por sua neta Celina Vargas do Amaral Peixoto (foto: Flávio Damm/O Cruzeiro/Arquivo EM )
Brasil, o país sem memória, como diz o senso comum, não cultua seus heróis. É essa a defesa de José Roberto de Castro Neves para a concepção do livro Brasileiros (Nova Fronteira). “Não existe o hábito de falar dos grandes brasileiros, o que é uma pena, pois o reconhecimento de um patrício estabelece uma relação de pertencimento, de identidade.”

Para recuperar a trajetória de homens e mulheres que tiveram importantes papéis na política, sociedade, cultura e esporte do país, Castro Neves convidou outros tantos homens e mulheres com relação pessoal ou de afinidade com tais personagens. São 41 textos, em formato de memória ou de ensaio.

O elenco é o mais diverso possível: Celina Vargas do Amaral Peixoto escreveu sobre o avô, Getúlio Vargas; Nelson Motta sobre Vinicius de Moraes; Fernanda Montenegro sobre Irmã Dulce; Pedro Bial sobre o Marechal Rondon; Miguel Reale Júnior sobre Ulysses Guimarães; Pedro Malan sobre Ruth Cardoso; Fernando Henrique Cardoso sobre Tancredo Neves; Marcelo Madureira sobre Monteiro Lobato; Zuenir Ventura sobre Vladimir Herzog; Iza Salles sobre dom Pedro I; Ancelmo Gois sobre Luiz Gonzaga; Renato Aragão sobre Oscarito.

Castro Neves deu total liberdade para que os autores escolhessem seus heróis. “As pessoas foram escolhendo muito em função de sua área de atuação. A ideia não era fazer a coisa elogiosa, mas encontrar a humanidade daquelas pessoas, com seus pecados também. Queria ‘salvar’ estas pessoas para as novas gerações, pois senão a história fica interrompida”, acrescenta ele.

O organizador diz ter se surpreendido com várias das histórias. “O Rondon, por exemplo, é claro que eu tinha a ideia de quem tinha sido, mas nunca havia parado para analisá-lo. O Bial apresenta uma história de vida sensacional, de exemplo de correção e respeito ao próximo e amor à coisa pública. Daria vários filmes.”

CRÍTICA 
Advogado, professor da PUC-Rio e da Fundação Getulio Vargas e autor de vários livros, entre eles Medida por medida: O direito em Shakespeare, Castro Neves também colaborou para a obra coletiva. É o autor de ensaio sobre o jurista Sobral Pinto. “Hoje ele é muito criticado porque era machista, mas era um homem do seu tempo. Um apaixonado pela liberdade, abnegado de bens materiais e entendia que o direito de defesa das pessoas era absoluto, a ponto de defender aqueles com quem tinha opinião contrária.”

Algumas das memórias afetivas que o livro apresenta são reveladoras sobre os personagens. Paulo Ricardo comenta sobre o impacto que a presença de Cazuza lhe causou na primeira vez em que se viram; Cacá Diegues relembra da força da obra de Glauber Rocha, e a reação diversa que sua obra-prima, Deus e o diabo na terra do sol, provocou na première do filme, no Festival de Cannes.

A jornalista Sônia Nolasco, viúva de Paulo Francis, escreveu pela primeira vez sobre ele desde a sua morte, em 1997. No texto, ela trata de desmitificar o personagem “arrogante, cáustico” que Francis, que chegaria aos 90 neste ano, teria criado.

Através de situações cotidianas – a relação com os gatos, a paixão por comediantes populares, como Dercy Gonçalves e Oscarito, e filmes épicos bíblicos – ela traça um retrato emocionante e amoroso. Mas tampouco deixa apagar as lembranças ruins de um casamento de 23 anos. “Não foi fácil”, Sônia admite, acrescentando com uma citação do marido: “Na nossa certidão de casamento não consta a garantia de facilidade conjugal.”

Trechos

Paulo Francis, por Sônia Nolasco
A viúva de Paulo Francis (1930-1997) oferece uma visão da intimidade do grande polemista da imprensa brasileira (foto: Milton Michida/Agência Estado)
A viúva de Paulo Francis (1930-1997) oferece uma visão da intimidade do grande polemista da imprensa brasileira (foto: Milton Michida/Agência Estado)

“Aos 50 anos, Francis já estava todo grisalho. Agora ele ia ao barbeiro porque trabalhava em televisão, onde exigiam o tal ‘padrão Globo de qualidade’. Quando ele começou a fazer comentários políticos todo dia e a participar do programa Manhattan Connection, cometi a asneira de sugerir que ele escurecesse um pouco os cabelos para rejuvenescer. Feito Adão, ele caiu na conversa. Só que não procurou cabeleireiro. Contratou o Carlinhos, brasileiro, maquiador na televisão e ex-cabeleireiro.

Carlinhos nunca acertou o tom de louro escuro que era o natural do Francis. Primeiro produziu um marrom dégradé, depois marrom rosado, e finalmente o extravagante cor de burro quando foge, do qual Lucas Mendes riu tanto que nem conseguiu começar o programa. Parece que os espectadores não notaram, pois ninguém escreveu perguntando sobre aquele arco-íris de cores obviamente falsas.

E alguma vez Francis reclamou e pediu ao Carlinhos para refazer o trabalho? Não. Mal olhava no espelho cada tonalidade absurda que o rapaz inventava e no dia seguinte ia para a rua, crente que estava abafando. Por que Carlinhos? Porque ele vinha em casa na conveniência do Francis, fazia tudo na sala e lavava na pia do banheiro.”

Glauber Rocha, por Cacá Diegues
O impacto de Glauber Rocha (1939-1981) no cinema é motivo de reflexão para o diretor Cacá Diegues (foto: TV Brasil/Divulgação )
O impacto de Glauber Rocha (1939-1981) no cinema é motivo de reflexão para o diretor Cacá Diegues (foto: TV Brasil/Divulgação )

“Aos poucos, durante a projeção, grande parte dos espectadores (do Festival de Cannes, em maio de 1964) ia se levantando de suas cadeiras para ir embora às pressas, com o espírito confuso e quase sempre irritado. Quando Deus e o diabo na terra do sol terminou e a luz da sala se acendeu, uma boa metade dos espectadores a havia deixado, antes do fim do filme. Os que ficaram, até a corrida final de Geraldo Del Rey do sertão para o mar, permaneciam em silêncio, sem saber direito o que pensar, quanto mais o que dizer. Mais ou menos como se, naquela tela terráquea, tivessem acabado de assistir a uma primeira exibição de cultura marciana.

Não sei dizer quantos segundos se passaram entre o fim da projeção e o que aconteceu em seguida. O fato é que, pouco a pouco, os que haviam ficado na sala começaram, um a um, a aplaudir. Até que estavam todos de pé, aos gritos, saudando o que tinham acabado de ver. Muito provavelmente na certeza de que tinham que aprender a ver o que tinham acabado de ver. O que os havia entusiasmado tanto.”

Brasileiros
Organização de José Roberto de Castro Neves
Nova Fronteira (448 págs.)
R$ 69,90


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