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Estado de Minas

Oitavo longa da cineasta Ana Carolina discute as paixões

Destaque do cinema autoral brasileiro, diretora rodou 'Paixões recorrentes ou a morte das ideologias' no litoral do Paraná


postado em 23/02/2020 09:12 / atualizado em 23/02/2020 09:18

Em setembro, Ana Carolina rodou seu oitavo longa-metragem.
Em setembro, Ana Carolina rodou seu oitavo longa-metragem. "Sou uma pessoa que corre por fora", diz a cineasta (foto: Fabio Bouzas/divulgação)

"Já entenderam que não faço produçãofeminina.A trilogiadas mulheres acabou meempurrando para isso, mas minha obra não tem nada de feminina"

Ana Carolina, diretora

“O bacana é o percurso, não o objetivo, isso tanto do ponto de vista dramático quanto na vida.” A frase da diretora Ana Carolina vai ao encontro de sua obra. Considerada uma das mais autorais cineastas do país, ela lançou sete longas-metragens, com  destaque para a trilogia que discute a condição da mulher na sociedade brasileira: Mar de rosas (1977), Das tripas coração (1982) e Sonho de valsa (1987).

A despeito de sua importância, atualmente Ana Carolina é presença bissexta na produção nacional. “A gente só vive a cada cinco anos. Depois hiberna, não faz falta nenhuma. Eles ficam muito bem sem a gente (cineastas), mas mal sem novela”, afirma ela, ironicamente, a despeito de dificuldade de fazer cinema “fora da curva” no Brasil.

Mas Ana Carolina tem novo trabalho, que deve ser concluído em março. Rodado em setembro no Paraná, Paixões recorrentes ou a morte das ideologias é o primeiro filme dela em seis anos – o anterior é A primeira missa, de 2014. Na trama, sete personagens chegam litoral brasileiro no final dos anos 1930.

“É um filme de época sem época. São pessoas numa praia, brasileiros, argentinos e francesa, que se encontram num botequim e começam a deliberar como fariam para o mundo existir. É um filme de paixões de toda a espécie”, afirma Ana Carolina.

Nesta praia se encontra o argentino Chango. O fiscal da imigração (vivido por Luciano Cáceres), depois de cometer estelionato, busca o anonimato em outro país. O português Raolino Pombal (Pedro Barreiro) é um advogado triste e furioso que está atrás da mulher, que o abandonara em Lisboa. Amada (Silvana Ivaldi) é uma jovem humanista que deixou Portugal rumo ao Brasil para tentar fugir da paixão sufocante de Raolino. Madame Arras (Thérèse Cremieux), grande atriz francesa, enfrenta o ocaso de sua carreira.

O elenco nacional tem o empresário interpretado por Luiz Octávio Moraes, que se empenha em fazer promessas impossíveis para Madame Arras; Souza (Danilo Grangheia), egresso do Partido Integralista Brasileiro; e Beleza (Iran Gomes), filho de um cabo-verdiano que se apaixona por Amada.

“Na época do filme, a costa brasileira era uma coisa linda. Como não havia policiamento, as pessoas desembarcavam como queriam”, comenta Ana Carolina, que filmou no Paraná “porque é um estado com muita preservação natural, bem organizado, o melhor lugar para se viver no Brasil.”

Trama de Paixões recorrentes ou a morte das ideologias se passa na década de 1930(foto: Fabio Bouzas/divulgação)
Trama de Paixões recorrentes ou a morte das ideologias se passa na década de 1930 (foto: Fabio Bouzas/divulgação)

HISTÓRIA

Ela mesma escreveu o roteiro. “Tudo é meu, pois sou uma pessoa que corre por fora. Faço tudo, inclusive o lançamento, uma pequena tarefa de Hércules”, diz. A cineasta não fez pesquisas históricas para criar a história. Porém, os rumos e a história do Brasil sempre estiveram sob suas lentes. Seu primeiro longa foi o documentário Getúlio Vargas (1974). Em 2003, levou o poeta Waly Salomão a encarnar o poeta barroco Gregório de Mattos no filme homônimo.

Para Ana Carolina, independentemente do formato, o objetivo de seu cinema “é discutir o poder”. “Já entenderam que não faço produção feminina. A trilogia das mulheres acabou me empurrando para isso, mas minha obra não tem nada de feminina”, observa.

Consciente de que não é cineasta de mercado, ela sabe que tem de se adaptar aos novos modelos. “É um pouco aflitivo finalizar um filme, pois o dinheiro vai acabando e a realidade está cada vez mais perto. Tenho de encarar e ficar à disposição”, comenta Ana Carolina, que pretende se associar a diferentes empresas para distribuir o novo longa.

Por ora, a diretora vai finalizar Paixões recorrentes ou a morte das ideologias para tentar lançá-lo em festivais nacionais e internacionais. “A borboleta demora, mas sempre acaba saindo do casulo”, conclui.


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