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Estado de Minas ENTREVISTA/ DANTE MANTOVANI

Em Minas, presidente da Funarte defende separação entre arte e política

Dante Mantovani afirma que 'no Brasil, a arte fica muito concentrada no Estado' e diz que quer que 'nossos grandes artistas sejam objeto de estudo na escola'


postado em 23/12/2019 04:00 / atualizado em 23/12/2019 13:22

O maestro Dante Mantovani anunciou que irá lançar o programa Bossa Criativa em Ouro Preto em abril de 2020 (foto: RAMON LISBOA/EM/D.A.PRESS)
O maestro Dante Mantovani anunciou que irá lançar o programa Bossa Criativa em Ouro Preto em abril de 2020 (foto: RAMON LISBOA/EM/D.A.PRESS)
Nomeado presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte) no começo deste mês, Dante Mantovani fez sua primeira visita a Minas Gerais como ocupante do cargo na semana passada. Na companhia do diretor-executivo da instituição, Leônidas de Oliveira, e do coordenador da Funarte-MG, Maurício Canguçu, ele visitou Congonhas, Ouro Preto e Belo Horizonte. Na capital, esteve na Fundação Clóvis Salgado, na Sala Minas Gerais e na sede mineira da Funarte, onde conversou com o Estado de Minas sobre propostas de sua gestão para o estado e suas ideias para o fomento da cultura no país.

Com discurso de descentralizar a atividade artística no país, ele prometeu investimentos no espaço físico da instituição em Belo Horizonte por meio de parceria com a UFMG e falou sobre suas ideias para a cultura, que, segundo ele, deve ser “desvinculada da política”.

Maestro, Mantovani foi centro de polêmica, assim que substituiu Miguel Proença no cargo, no último dia 2, quando veio à tona um vídeo publicado meses antes em seu canal no YouTube no qual ele associa o rock às “drogas, ao sexo, e à indústria do aborto, que, por sua vez, alimenta uma coisa mais pesada, que é o satanismo”. Outras publicações antigas também ganharam repercussão midiática após sua nomeação, como uma em que chamava de “aberrações sonoras” os artistas brasileiros que se apresentaram na abertura da Olimpíada do Rio, em 2016. A lista inclui Gilberto Gil, Caetano Veloso, Anitta, Paulinho da Viola e Jorge Ben. Descrita como um “canal conservador que reúne música, cultura, notícias e entrevistas”, a página teve todos os seus vídeos apagados na última semana.

Em Congonhas, Mantovani assistiu ao Coral Cidade dos Profetas e visitou o Museu de Congonhas, ligado ao Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Em Ouro Preto, esteve nas igrejas São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo, no Museu do Oratório, na Casa da Ópera e no Museu da Inconfidência.

“Por ser uma cidade tombada pelo patrimônio mundial, direcionamos para Ouro Preto a inauguração de um dos nossos principais projetos, o Bossa Criativa, que visa integrar música, patrimônio histórico e artes. Ouro Preto receberá o evento de abertura do programa, que contará com concerto da Orquestra de Ouro Preto, e eu farei a regência. Também quero levar as orquestras dessa região para outros lugares do país. Essa riqueza de Minas é pouco conhecida”, afirma. O evento está previsto para abril.

Em BH, ele disse ter conversado com a equipe local da Funarte e com alguns agentes culturais, como o presidente do Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais (Sinparc), Rômulo Duque. “Fiquei muito surpreso, porque já são 46 anos da Campanha de Popularização (do Teatro e da Dança). Belo Horizonte tem uma cena cultural muito forte e muito importante para o Brasil inteiro.”

O gestor promete a revitalização do espaço da Fundação. Ele disse ter se encontrado com professores dos departamentos de Engenharia e Arquitetura da UFMG, que iniciaram estudos para uma reforma do local, que, além de sede administrativa, abriga um teatro e estrutura para eventos culturais diversos. Segundo Mantovani, a UFMG será parceira em obras realizadas em outros estados nos quais a Funarte já tem instalações ou onde pretende ter.

“Não podemos pensar apenas em São Paulo, Rio e Minas Gerais. Queremos expandir, e a equipe da UFMG fará um estudo também para a implantação de sedes regionais no Nordeste, Sul e Norte, em prédios que já sejam da União. Temos R$ 3,9 milhões para esses projetos, para dar um start na reconstrução e na reforma de todos os nossos espaços. Todos. Obviamente, isso não será suficiente. Iremos atrás de outros recursos. Temos o Fundo Nacional de Cultura e vamos buscar outras parcerias para conseguir recursos”, disse.

Quando uma nova gestão assume, espera-se que ela trace novos objetivos ou execute algo além da anterior. Quais são seus principais objetivos no momento para a Funarte e quais são os maiores desafios?
O maior desafio é a preservação do nosso acervo artístico maravilhoso no nosso Centro de Documentação (localizado no Centro do Rio de Janeiro), que está em um prédio impróprio. Não adianta reformar, porque o prédio não é nosso, não vai ficar para a Funarte. Temos que ir para um prédio próprio. Ele conta toda a história da arte no Brasil, no teatro, na dança, na música, no circo, nas artes plásticas. Quero prioritariamente arrumar um lugar bom, com bom projeto de prevenção a incêndio, a perdas, para cuidar desse acervo, que é a memória da arte do Brasil. É um grande desafio arrumar essa localização apropriada. Outra missão é descentralizar a arte, levá-la para todas as regiões. Meu principal projeto é o Sistema Nacional de Orquestras Sociais, que visa levar a todas as cidades do Brasil um polo de ensino de atividades orquestrais, música, instrumentos, solfejo, música instrumental, prática de música em conjunto. Temos um projeto para o Brasil inteiro, que depende de recursos e parcerias que vamos conseguir. Por isso precisamos dos municípios, porque eles devem ceder espaços para desenvolvermos esse projeto tão importante.

Em 2017, Stepan Nercessian assumiu a presidência da Funarte e disse ao Estado de Minas que boa parte do orçamento anual era para pagamento da folha, aposentados, manutenção e que sobrava pouco para a atividade. Como está a situação orçamentária hoje e quais são os planos da Fundação daqui pra  frente na utilização de recursos?
Estou enfrentando esse problema com duas frentes de ação. Uma delas fazendo economia. Determinei para a administração que faça um estudo para diminuir 50% do custeio. Isso equivalerá a R$ 25 milhões em 2020, para que esse dinheiro seja usado em projetos da nossa área-fim. Isso não pode ser usado em custeio. Temos um investimento alto, precisa ter resultado. Não podemos permitir que 90% fiquem comprometidos com custeio. Temos que investir mais em arte. Deve ser 50% para arte e 50% para custeio. Outra linha, que consegui com o secretário de Cultura, Roberto Alvim, foi um aumento do orçamento. Ele vai quadruplicar nosso orçamento de projetos junto a alguns fundos do governo (o orçamento global da Funarte em 2019 foi de R$ 62 milhões). Além disso, uma ação importante é a aproximação entre artistas e os empresários. Quero uma ponte direta entre empresários e artistas, para criar um mercado para a arte no Brasil, que é praticamente inexistente. Os artistas precisam do Estado para fomentar. Embora eu seja representante do Estado, acho que isso tem que sair do Estado, pelo menos em parte. Tem que haver uma complementação entre Estado e iniciativa privada, que é o que acontece na maioria dos países. No Brasil, a arte fica muito concentrada no Estado e aconteceram, recentemente, distorções de dinheiro público direcionado a artistas milionários. Isso, no meu entendimento, é equivocado. Temos que usar dinheiro público para o artista iniciante, não para aquele já consagrado. A gente precisa de uma aproximação direta entre o meio artístico e o empresariado. Quero que o empresariado invista em arte não porque o Estado vai dar incentivo, mas porque é importante. Porque isso vai melhorar o ambiente de negócios, a economia, porque, com mais cultura, mais educação, mais instrução, mais arte a sociedade prospera muito mais. Os países desenvolvidos têm plena consciência disso. Eles apoiam a arte com vigor. Nos EUA, na Áustria, na França, na Itália, a arte tem valor central na vida das pessoas. Os taxistas sabem o nome dos compositores de ópera. Uma vez, fui me apresentar com uma orquestra na Espanha e fui conversando com o taxista sobre ópera, do meu hotel ao teatro. Isso que sonho para o Brasil – que as pessoas tenham arte no seu cotidiano. E elas estão muita afastadas, justamente porque há um afastamento do artista e do meio empresarial, que tem condições de financiar melhor a arte.

A Funarte tem diversas atribuições no fomento da arte e da cultura no Brasil. O senhor apontaria alguma missão da Funarte como prioridade hoje?
Meu sonho é que os alunos se formem no ensino médio e saibam o nome de grandes artistas: Carlos Gomes, Heitor Villa-Lobos, José Maurício Nunes Garcia, Machado de Assis, e assim por diante. Temos que fazer com que nossos grandes artistas sejam conhecidos, que sejam objeto de estudo na escola, porque, hoje em dia, os jovens sabem tudo que está na mídia, cantores da moda, isso tem grande incentivo, mas não conhecem a história. Precisamos valorizar nossa história, resgatar nossa memória, com vistas inclusive a fomentar nosso sentimento patriótico. Não existe nação sem cultura. Precisamos conhecer nossa cultura, nossa história, nossas origens, e a arte é importante para que a gente obtenha essa memória nacional. Os artistas são heróis da nação em todo lugar. No Brasil, tem essa peculiaridade de que os grandes artistas não são conhecidos.

Da cultura que é produzida atualmente no Brasil, o que o senhor acha que há de melhor e mais importante?
Estou há apenas duas semanas (no cargo) e tive oportunidade de conhecer algumas iniciativas no Rio de Janeiro. Estive no Theatro Municipal e fiquei surpreso com a qualidade do que eles têm feito ali. Assisti ao balé Giselle, uma produção fantástica, e fiquei com vontade de que aquilo fosse conhecido por mais pessoas. No Rio, tive muitos convites. Não tive tempo, ainda não deu tempo de ir a muitas coisas, mas estou procurando conhecer melhor a produção aqui do Brasil. Estive num concerto de música na Candelária, promovido pela UFRJ, e fiquei muito impressionado com a qualidade da Sinfônica da UFRJ, muito boa, com coral de muitas vozes. Então, aos poucos, vou conhecendo melhor e vamos colocar a estrutura da Funarte para fomentar essa produção.

Há algum edital visando a isso?
Assumi em dezembro, editais já estavam em andamento, novos editais serão feitos a partir de janeiro.

A relação da maior parte da classe artística com o governo Bolsonaro tem sido conflituosa. Há algum plano para construir algo junto à classe artística, buscar um diálogo, um entendimento, independentemente de divergências políticas?
A única forma de resolver esse problema da vinculação da arte com a política é criando um mercado para a arte. Se os artistas estiverem no mercado, eles não estarão vinculados à política. Na minha opinião, a arte não tem que ter relação nenhuma com a política, a arte tem que ter relação com a economia, porque a arte é uma necessidade humana, e a economia lida no campo das necessidades. Quando o governo tem papel muito forte na promoção da arte, acaba sempre havendo uma ideologização da arte. Temos que fazer com que a arte faça parte da vida das pessoas e não seja usada por ideologias. Também queremos estimular o mecenato, uma mecanismo que funcionou muito no Renascimento, que proporcionou o surgimento das maiores obras de arte da humanidade, como por exemplo a Capela Sistina, as obras de Michelangelo. Monteverdi na ópera tinha vários mecenas, assim como outros grandes escritores. Depois, quando a arte deixa de ter o sistema do mecenato, o Estado acaba usando a arte com finalidade política e, se a arte é usada com finalidade política, ela deixa de ser arte e vira propaganda. A arte tem que estar muito longe da política.


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