Publicidade

Estado de Minas

Psicólogo peruano dirige filme sobre relação pai e filho e tenta Oscar

Alvaro Delgado-Aparicio teve seu primeiro longa, 'Retablo', selecionado por seu país para disputar a esta- tueta. Filme está em cartaz em Belo Horizonte


postado em 11/11/2019 04:00 / atualizado em 12/11/2019 12:38

Aprendiz do ofício do pai, que tem um ateliê de retábulos, Segundo (Junior Bejar) entra em crise quando descobre um segredo sobre ele(foto: Arteplex Filmes/Divulgação )
Aprendiz do ofício do pai, que tem um ateliê de retábulos, Segundo (Junior Bejar) entra em crise quando descobre um segredo sobre ele (foto: Arteplex Filmes/Divulgação )
Candidato do Peru a uma vaga na disputa pelo Oscar de melhor filme internacional, Retablo – em cartaz no Cine Belas Artes, em Belo Horizonte – é um estudo a respeito das relações familiares, da autodescoberta e da autoafirmação, num ambiente não necessariamente propício para essas empreitadas.

Ayacucho, a deslumbrante paisagem andina onde o longa foi filmado, “significa 'terra dos mortos' no idioma quechua”, cita o diretor Alvaro Delgado-Aparicio, de 42 anos, que se demitiu de seu emprego como psicólogo em Lima para viver na região “um ano sabático”, durante o qual aperfeiçoou o roteiro, selecionou os atores e filmou este que é seu primeiro longa-metragem.

O contraste entre a exuberância da paisagem, das cores dos tecidos e das festas típicas locais e o clima opressivo que cerca progressivamente a família de protagonistas ofereceu ao diretor a oportunidade de alertar o espectador, por meio da imagem, que “há alguma coisa feia por trás de toda aquela beleza”. Violentamente feia.

Noé (Amiel Cayo) é chamado de mestre pela população local, por sua capacidade de confeccionar retábulos que reproduzem fielmente as cenas que seus clientes gostariam de eternizar, como uma reunião de família, por exemplo. Já adolescente, Segundo (Junior Bejar), o único filho de Noé, começa a aprender o ofício com o pai, em seu ateliê, e a acompanhá-lo nas idas até a cidade para fazer entregas dos retábulos.
 
Anatolia, mulher de Noé e mãe de Segundo, é vivida pela atriz Magaly Solier, protagonista de A teta assustada (2009), o longa de Claudia Llosa que levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim e emplacou uma indicação ao Oscar para o Peru.

O mundo de Segundo começa a se desintegrar quando, numa das viagens ao lado do pai, ele o flagra num jogo sexual com outro homem. Antes de o garoto conseguir lidar com o tumulto interior provocado por aquela imagem, as relações homossexuais de Noé passam a ser do conhecimento de todos, e a crise se agiganta.

Delgado-Aparicio conta que, em seu trabalho como psicólogo, observando de perto as dinâmicas familiares, passou a ficar muito interessado em dois aspectos. O primeiro: “Como, às vezes, temos uma relação aprisionante com nossos pais e embora queiramos ter liberdade, permanecemos nesse modo de relação porque a dependência é muito forte. Nesses casos, como você se liberta?”.

O segundo aspecto diz respeito ao fato de que, “quando adolescentes, idealizamos nossos pais, mas eles não são como imaginamos. E como lidamos com isso, especialmente quando um adolescente está buscando sua própria identidade?”.

REPARAÇÃO

A atriz Magaly Solier, que interpreta a mãe do adolescente, sugeriu ao diretor fazer o filme no idioma quechua(foto: Arteplex Filmes/Divulgação )
A atriz Magaly Solier, que interpreta a mãe do adolescente, sugeriu ao diretor fazer o filme no idioma quechua (foto: Arteplex Filmes/Divulgação )
A essas duas interrogações o diretor acrescentou seu “fascínio pelos retábulos”, inspirado sobretudo por um diálogo que teve com um “mestre 'retablista'” da região. “Ele me disse: 'A diferença entre o que você faz e o que eu faço não é muito grande. Ando pelos Andes e vejo alguma coisa, tento retratá-la de uma maneira genuína. Não preciso da câmera, porque memorizo as cenas'”, conta Delgado-Aparicio.

 

“Isso me pareceu fascinante, porque o cinema não é apenas um meio de projetar imagens, mas também um meio para reparar imagens. Daí me surgiu a ideia do tema da reparação como metáfora no retábulo.”


Desenvolver essas ideias na forma de um roteiro (coescrito com Héctor Gálvez) foi um trabalho que levou três anos e algum sofrimento. Depois de ter exibido seu curta-metragem El acompañante (2012) em Sundance,  Alvaro Delgado-Aparicio foi selecionado pelo festival para um laboratório de roteiro de longas, no qual foi instado por seus mentores a se concentrar tão fortemente nos aspectos essenciais da história que ele viu suas “120 páginas reduzidas a um parágrafo”.

Para ajudar os participantes do laboratório a se desapegar de ideias desnecessárias, os professores promovem o ritual da fogueira, na qual os roteiristas devem descartar sua versão inicial, literalmente, queimando-a. “Éramos cinco fazendo o laboratório. Eu era o quinto da fila e me vi agarrado ao meu roteiro, fazendo carinho nele, me despedindo, como se fosse um menino”, diz o cineasta.

O selo de Sundance foi fundamental para “abrir portas” ao projeto, admite o diretor. “Minha produtora mandou o roteiro para concursos e, assim, ganhamos os recursos para fazer o filme. Seis meses depois, eu já tinha uns 80% do orçamento.”

O que restou da história é a relação entre pai e filho, observada com uma lupa nos sentimentos de cada um. Os dois muito convivem, mas pouco se falam. Encontrar o ator ideal para interpretar um adolescente introspectivo e em luta com suas emoções foi outra tarefa longa e cheia de percalços.

Delgado-Aparicio conta que distribuiu volantes de propaganda do filme “em todas as escolas remotas de todos os Andes”. Como resultado, entrevistou 700 adolescentes e, somente na última semana, já “quase chorando” de desapontamento, porque sabia que “sem o ator certo o filme não existiria”, encontrou Junior Bejar, “que é capaz de dizer tudo apenas com os olhos”.

MUDANÇA 

Mas a mãe do adolescente, ao conhecer o roteiro, deplorou-o e assegurou que “não existem gays em Ayacucho”. Decidiu, no entanto, deixar a decisão nas mãos do filho, porque supunha que “isso pode mudar a vida dele”. E mudou mesmo. Junior Bejar – que tinha 16 anos na época das filmagens, dois a mais que seu personagem – “hoje vive em Lima, estuda psicologia, está cheio de convites de trabalho e foi nomeado embaixador pelo Unicef”, conta o diretor
.
Na sucessão de desafios que Delgado-Aparicio teve que vencer para fazer Retablo como queria, o último foi convencer sua equipe de que o longa deveria ser filmado em quechua. A ideia partira da atriz Magaly Solier, que fez o diretor ver que a história “poderia ser muito mais potente e muito mais real” se os personagens falassem aquela que, de fato, é a sua língua.

Quando mencionou a intenção ao produtor, Delgado-Aparicio ouviu: “Você está louco? Estamos trabalhando a 4.500 metros de altitude, o que já é dificuldade suficiente. Como você vai dirigir, se não entende a língua?”.

O diretor afirma que, nessa altura, já estava certo do que queria, mas não pretendia “ser ditatorial”, porque dependia de toda a equipe para que o resultado ficasse bom. Recorreu, então, à própria crença de que “as respostas para as coisas complexas sempre estão no meio, não nos extremos” e, durante os ensaios, quando estavam apenas os três atores principais, propunha que falassem os diálogos em quechua.

“Um dia, preparei uma demonstração. Convidei todos para ver o ensaio de três cenas. Eles fizeram primeiro em espa- nhol. Pausa. As mesmas cenas em quechua. Quando terminou, as pessoas estavam alucinadas e, por fim, aceitaram.”
 
A partir daí, dois intérpretes foram incorporados à equipe. “Fazíamos os ensaios em espanhol e a ação em quechua. Meu intérprete me contava o que os atores tinham acrescentado ao texto e o que tinham deixado de fora. Às vezes, colocavam coisas melhores do que as que estavam no roteiro. E assim o filme saiu em quechua. Era arriscado, mas foi lindo.”

Azarão no Oscar

Depois de ter estreado no Festival de Berlim, no ano passado, Retablo circulou por festivais – ganhou seu 35º prêmio no Brasil, na semana passada, no Panorama Internacional Coisa de Cinema, na Bahia – e foi escolhido por unanimidade pela comissão de seleção de seu país como o representante do Peru na corrida pela estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

“Eu nunca imaginava chegar nem a um festival, quanto mais ao Oscar”, comenta Alvaro Delgado-Aparicio. Neste ano, foram inscritos 93 títulos na categoria de melhor filme internacional – o número caiu para 92 aspirantes a uma indicação na semana passada, quando a Academia desclassificou a Nigéria por ter apresentado um filme majoritariamente falado em inglês, o que contraria uma das regras da disputa.

Sobre a campanha para estar entre os cinco indicados, o diretor diz que “é custosíssima. Simplesmente colocar um anúncio numa revista é supercaro. Procuramos apoio financeiro, e estamos tendo, mas, quando você vê o investimento que outros países, como a Espanha, por exemplo, fazem nisso, percebe que está numa competição diferente”, diz ele.

A Espanha apresentou Dor e glória, de Pedro Almodóvar, que é dado como uma indicação certa. Sabendo que “o marketing é importante”, mas com poucos recursos para ele, o cineasta peruano resume sua situação com a frase: “Estamos fazendo o que podemos fazer e cruzando os dedos”.

Além de Retablo, estão em cartaz em Belo Horizonte os representantes no Oscar da Argentina (A odisseia dos tontos, de Sebastián Borenzstein) e da Argélia (Papicha, de Mounia Meddour). Na quinta-feira passada (7) estreou o filme no qual se concentram quase todas as apostas dos críticos para vencer essa categoria – Parasita, de Bong Joon-ho, candidato da Coreia do Sul e vencedor da Palma de Ouro em Cannes.


Publicidade