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Estado de Minas

Diário descreve o drama de Renia Spiegel, a 'Anne Frank polonesa'

Guardado num cofre bancário por décadas, livro com relatos da adolescente confinada no gueto e assassinada por nazistas ganha edições em inglês. 'Ajude-nos, salve-nos!', implora Renia a Deus


postado em 06/10/2019 04:00 / atualizado em 04/10/2019 15:02

(foto: Fundação Renia Spiegel/reprodução)
(foto: Fundação Renia Spiegel/reprodução)


''Nacionalismo, populismo, antissemitismo. Todos esses ismos voltam. Nós não queremos que a morte de milhões de pessoas volte a se repetir''

Elizabeth Bellak, irmã de Renia Spiegel


Apenas um ano depois do primeiro beijo, a adolescente judia Renia Spiegel escreveu em seu diário uma oração pedindo a Deus que a deixasse viver. Era junho de 1942. Ela completaria 18 anos em julho. Os nazistas haviam acabado de exterminar todos os judeus de um bairro de sua cidade, Przemysl, no Sul da Polônia. Alguns deles foram forçados a cavar o próprio túmulo.

“Para onde quer que se olhe, há sangue. Que progroms tão terríveis. É um massacre, assassinato”, escreve ela em 7 de junho. “Deus Todo-Poderoso, pela enésima vez me inclino diante de ti. Ajude-nos, salve-nos! Oh, Deus, nosso Senhor, deixe-nos viver, eu lhe suplico, quero viver!”, anota Renia.

O namorado da garota, Zygmunt Schwarzer, judeu com visto de trabalho que lhe permitia se movimentar pela cidade, escondeu Renia e seus próprios pais no sótão de uma casa fora do gueto. Um colaborador os traiu.

Schwarzer, de 19 anos, descreve a morte de Renia em uma assustadora nota acrescentada ao diário: "Três tiros! Três vidas perdidas! Foi ontem à noite, às dez e meia... Minha querida Renusia, o último capítulo do seu diário acabou.”

Depois da guerra, Zygmunt recuperou as anotações da namorada e as entregou à mãe dela, Roza Spiegel. Os cadernos passaram décadas no cofre de um banco. Renia morreu em julho de 1942. O diário ganhou edição polonesa em 2016. Agora, saíram edições em inglês lançadas pela Penguin Books e St. Martin's Press.

Renia é conhecida como a “Anne Frank polonesa”, referência à adolescente holandesa vítima do Holocausto, autora do famoso diário que começou a escrever aos 13 anos – ela morreu aos 15, de tifo, no campo de concentração Bergen-Belsen.

Lançado em 1947, o livro de Anne Frank está entre os mais lidos do mundo. Traduzido para 70 línguas, vendeu cerca de 35 milhões de cópias – 1 milhão no Brasil, de acordo com a Editora Record.
Renia com a mãe, Roza Spiegel, e a irmã caçula Ariana, que conseguiram escapar dos nazistas com a ajuda de um oficial alemão(foto: Acervo de família/AFP)
Renia com a mãe, Roza Spiegel, e a irmã caçula Ariana, que conseguiram escapar dos nazistas com a ajuda de um oficial alemão (foto: Acervo de família/AFP)

POESIA

Renia Spiegel começou a escrever seu diário aos 14 anos, em 1939. Vivia na casa dos avós. A mãe, Roza, estava em Varsóvia para promover a carreira cinematográfica da caçula Ariana, a “Shirley Temple polonesa”. Renia deixou 660 páginas divididas em vários cadernos. Nelas, conta o quanto sentia falta da mãe e revela seu amor por Zygmunt, rapaz de olhos verdes. A jovem também faz poemas e registra a ocupação de sua cidade por soviéticos e nazistas. Cada volume é encerrado da mesma maneira: pede ajuda à mãe a Deus, como se fosse um mantra.

No início da Segunda Guerra Mundial, Ariana, irmã de Renia, ficou retida em Przemysl e passou o verão de 1939 na casa dos avós. Salvou-se graças ao pai da melhor amiga, que a levou de trem para Varsóvia.

“Um bom cristão me salvou a vida. Arriscou-se à pena de morte me levando, como sua filha, para a casa da minha mãe”, revela Ariana, de 88 anos. Hoje, ela mora em Nova York e tem outro nome – Elizabeth Bellak. Passou a se chamar assim depois do batismo católico.

Ariana/Elizabeth escapou da morte porque um oficial alemão, apaixonado por Roza, enviou as duas para um lugar seguro na Áustria. Depois da Segunda Guerra Mundial, mãe e filha emigraram para os Estados Unidos.

MENGELE

Zygmunt Schwarzer também escapou da morte, apesar ter sido enviado para o campo de extermínio de Auschwitz. Conta-se que o infame médico e criminoso de guerra Josef Mengele o “selecionou” para viver.

No início dos anos 1950, em Nova York, Schwarzer encontrou Roza, a mãe de Renia, e lhe entregou o diário. “Abalada, nunca fui capaz de lê-lo", conta Elizabeth Bellak, irmã da jovem assassinada. Diz que só conseguiu folhear alguns trechos. “É dilacerante demais”.

Coube à filha dela, Alexandra Renata Bellak, trazer os relatos da tia a público. “Meu nome se deve a Renia, essa pessoa misteriosa que nunca conheci. Sentia curiosidade em conhecer o passado”, explica a agente imobiliária, de 49 anos.

Elizabeth e Alexandra entraram em contato com o diretor de cinema Tomasz Magierski, que aceitou, inicialmente por educação, examinar o diário. “Não fui capaz de deixá-lo. Li-o em quatro ou cinco noites... Acostumei-me com a forma como ela escreve. Para ser sincero, me apaixonei por ele e por Renia.”

“O triste deste diário é que você sabe como termina. Quando você lê, espera que o final seja diferente”, lamenta o cineasta.

Os poemas da menina judia impressionaram Magierski. Em um deles, Renia demonstra empatia em relação a um soldado alemão: “Amaldiçoo milhares e milhões/ Mas por um, ferido, choro.”

FILME Magierski dirigiu o documentário Broken dreams – Os sonhos destruídos (em tradução livre) – sobre as duas irmãs. Em parceria com as Bellaks, conseguiu que o livro fosse publicado na Polônia pela Fundação Renia Spiegel. Em setembro, o filme estreou em Varsóvia. Elizabeth chorou ao ouvir uma atriz declamar um poema da irmã.

“Nacionalismo, populismo, antissemitismo. Todos esses ismos voltam. Nós não queremos que a morte de milhões de pessoas volte a se repetir”, diz a irmã de Renia Spiegel. “Sabe que algumas pessoas nunca acreditaram no que ocorreu? Eu estava lá. Posso afirmar que aconteceu”, conclui Elizabeth Bellak. (AFP)

Elizabeth Bellak (C) com a filha, Alexandra Renata, e o cineasta Tomasz Magierski durante o lançamento do filme Broken dreams em Varsóvia(foto: Janek Skarzynski/AFP)
Elizabeth Bellak (C) com a filha, Alexandra Renata, e o cineasta Tomasz Magierski durante o lançamento do filme Broken dreams em Varsóvia (foto: Janek Skarzynski/AFP)

TRECHOS


“Estou procurando alguém a quem possa contar minhas preocupações e alegrias da vida cotidiana (…) A partir de hoje, iniciamos uma amizade muito calorosa. Quem sabe quanto tempo vai durar?"
• 1939



“Não sei escrever. Eu estou fraca de medo. Guerra de novo, guerra entre a Rússia e a Alemanha. Os alemães estavam aqui, depois se retiraram. Dias horríveis no porão. Querido Senhor, me dê minha mãe, salve todos nós que ficamos aqui e aqueles que escaparam da cidade nesta manhã.”
• 1941



"Desde as oito horas de hoje, estamos trancados no gueto. Eu moro aqui agora. O mundo está separado de mim e eu estou separada do mundo. Os dias são terríveis e as noites não são nada melhores. Todo dia traz mais baixas e eu continuo orando a você, Deus Todo Poderoso, para me deixar beijar minha querida mãe.”
• 1942



“Experimentei tão pouco da vida. Eu não quero morrer! Eu tenho medo da morte. É tudo tão estúpido, tão mesquinho, tão sem importância, tão pequeno. Hoje estou preocupada em ser feia; amanhã eu posso parar de pensar para sempre"
• 1942


(foto: Amazon/reprodução)
(foto: Amazon/reprodução)

RENIA'S DIARY: A HOLOCAUST JORNAL
• De Renia Spiegel/Elizabeth Bellac
• St Martin's Press
• 336 páginas
• Disponível na Amazon
• R$ 112,96 (capa dura)
• R$ 52,34 (Kindle)


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