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Estado de Minas AUDIOVISUAL

Ator israelense fluente em árabe foi militar infiltrado na Palestina

Tsahi Halevi, que atua em séries de sucesso como 'Fauda', diz que a realidade do conflito é bem mais complexa que a ficção e comenta seu casamento com uma muçulmana


postado em 12/08/2019 04:00 / atualizado em 11/08/2019 19:55

O ator israelense Tsahi Halevi esteve em Belo Horizonte na semana passada, onde participou de evento promovido pela Associação Israelita Brasileira (AIB)(foto: JAIR AMARAL/EM/D.APRESS)
O ator israelense Tsahi Halevi esteve em Belo Horizonte na semana passada, onde participou de evento promovido pela Associação Israelita Brasileira (AIB) (foto: JAIR AMARAL/EM/D.APRESS)


Saber falar árabe fluentemente foi o que definiu a carreira de ator do judeu-israelense Tsahi Halevi, de 43 anos. Sete anos atrás, ele investia em sua trajetória como cantor e compositor – atuava com diferentes bandas e grupos, incluindo o Mayumana, versão israelense para o britânico Stomp – quando recebeu um telefonema do produtor e roteirista Avi Issacharoff, cocriador da série israelense Fauda, uma das produções de língua não inglesa mais populares da Netflix.

“'Estamos procurando pessoas que falem árabe para participar de um filme'. Foi o que ele me disse”, relembra Tsahi, que esteve em Belo Horizonte para participar de um evento na Associação Israelita Brasileira (AIB), na semana passada. De uma hora para outra ele se viu no só no elenco, mas como coprotagonista do longa-metragem Belém: zona de conflito (2013), de Yuval Adler, produção que ganhou muito prestígio internacional – levou inclusive um prêmio no Festival de Veneza.

“Quando me falam de Fauda, sempre digo para as pessoas assistirem a Belém: zona de conflito. Porque o filme foi o primeiro a apresentar o conflito israelo-palestino de uma maneira diferente, pois mostrava o cotidiano das pessoas para além do conflito. Foi escrito por um judeu (o próprio Yuval Adler) e um muçulmano (Ali Wakad) e, pela primeira vez, um filme israelense tinha uma grande porcentagem de diálogos em árabe”, ele conta. O longa-metragem fala da relação entre um agente do serviço secreto israelense e seu jovem informante palestino. “A partir dele, você entende que a situação não é preto no branco, tudo é muito mais complexo”, diz.

Com a repercussão do filme, Tsahi foi levado para o mundo do audiovisual. Está no elenco de filmes e séries, muitas delas que integram a boa safra recente de seu país. Fauda é o título mais conhecido. Tsahi participou das duas primeiras temporadas da série, que acompanha uma unidade secreta israelense operando nos territórios palestinos.

Na produção, ele é o agente Naor, que tem um caso com a mulher de seu colega, o protagonista Doron Kavillio (Lior Raz, cocriador da série). Mesmo com destaque nas duas temporadas, o personagem não está no terceiro ano. Rodada no primeiro semestre em Israel, a terceira temporada de Fauda deve estrear até o fim deste ano na TV israelense – na Netflix, deve chegar alguns meses mais tarde.

"Ser um mista'arev (um soldado israelense treinado para se infiltrar entre os civis árabes) é de uma complexidade enorme. De um lado, você está ao lado de civis, e a maioria daquelas pessoas não é terrorista. Você anda como um civil, tem que agir normalmente, só que, em um segundo, tem que se tornar um soldado e completar sua missão. Nem todo mundo consegue lidar com isso" Tsahi Halevi, cantor e ator



FORÇAS DE DEFESA Considerada pelo jornal The New York Times como “a melhor série internacional de 2017”, Fauda foi lançada em Israel em 2015. Quando foi chamado para a produção, Tsahi, no momento inicial, declinou. “Não queria expor algo que é muito particular. Depois, vi que seria uma grande oportunidade”, afirma.

Melhor explicando: como todo jovem de seu país, Tsahi cumpriu os três anos obrigatórios no serviço militar. Só que foi além. Integrou a Shimshon e a Duvdevan, unidades especiais das Forças de Defesa de Israel, que atuavam, infiltradas, na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, respectivamente. Fez, na vida real, o que seu personagem fez na ficção.

“Até Fauda, eu não falava sobre meu período como militar. Fiquei na reserva até 2015, era difícil. E a realidade é muito mais complicada do que se vê na série. Em Fauda, você vê os caras saindo sozinhos. Não é daquele jeito. Tampouco mexemos com as mulheres de nossos amigos. Ser um mista'arev (um soldado israelense treinado para se infiltrar entre os civis árabes) é de uma complexidade enorme. De um lado, você está ao lado de civis, e a maioria daquelas pessoas não é terrorista. Você anda como um civil, tem que agir normalmente, só que, em um segundo, tem que se tornar um soldado e completar sua missão. Nem todo mundo consegue lidar com isso”, afirma.

A carreira como ator é concomitante com a de cantor (ainda que, hoje em dia, ele atue mais do que cante). Tsahi se lembra de que gravou a temporada inicial de Fauda ao mesmo tempo em que participou do The voice Israel – foi até as finais, mas não ganhou. “Enquanto rodávamos a série, Israel era bombardeada. Nós nos víamos, muçulmanos e judeus, correndo para abrigos e esperando os alarmes pararem para voltar a rodar. Pois mísseis não sabem se você é judeu, cristão, muçulmano. Então, esse período de coexistência foi muito simbólico”, ele conta.

Outro exemplo de uma convivência pacífica ele teve quando filmou o longa-metragem O anjo do Mossad (2018), que dramatiza a história real de um agente duplo de Israel e Egito. “O filme foi rodado no Marrocos, e a minha consultora de sotaque era uma libanesa. Conversávamos muito sobre como é a minha vida em Israel e a dela no Líbano (os dois países são inimigos históricos). Sou um otimista. Acho que, eventualmente, a maior parte das pessoas conseguirá viver juntas.”

CASAMENTO O maior exemplo desta convivência Tsahi tem dentro de casa. Em outubro de 2018, ele se casou com a jornalista árabe-israelense Lucy Aharish, de 37, muito popular, já que foi a primeira apresentadora árabe no horário nobre da TV israelense – apresenta as notícias em hebraico, é claro. Em Israel, não há casamento civil – são reconhecidos os laços celebrados sob os ritos de cada religião. Sendo assim, Isahi e Lucy fizeram uma cerimônia privada (o local foi inclusive mantido em segredo), na qual assinaram, diante de um advogado, um documento de união.

A repercussão do casamento, inclusive internacional, assombrou o casal, que manteve o relacionamento secreto durante quatro anos. Ultraconservador, Aryeh Deri, ministro do Interior de Israel, afirmou que a “assimilação está consumindo o povo judeu”.

“Até os meus 18 anos, vivi em cinco países, um deles o Egito. Sempre tive uma curiosidade pelas pessoas, não importa de onde venham. Quando vi Lucy na televisão, caí de amores por ela. Não liguei se era muçulmana. Tivemos muito apoio no nosso casamento. Mas também houve o que chamo de vozes obscuras. A questão é que não queremos ser símbolo de nada, isso é pesado. E manter um relacionamento já é um peso e tanto. Buscamos só viver em Israel, um lugar em que, a cada dois dias, acontece uma coisa diferente.”

EM CATÁLOGO

Confira onde assistir às produções com Tsahi Halevi

  Séries

» Fauda – Netflix  
» Mossad 101 – TNT Séries 

  Filmes

» Belém: zona de conflito – Globoplay 
» Maria Madalena – Telecine
» Missão Síria – Netflix
» O anjo do Mossad – Netflix


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