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Estado de Minas

NA RUA, NA MESA, NA ESTANTE

Na era em que o comércio eletrônico e as corporações gigantes dominam o mercado de livros, lojas que privilegiam o contato direto com o leitor e oferecem espaço para leitura e contato com autores encontram seu espaço em BH. Modelo inclui aposta em catálogo para públicos com interesses específicos, como a psicanálise


postado em 03/07/2019 04:10

(foto: Fotos LEANDRO COURI/EM/D.A.PRESS)
(foto: Fotos LEANDRO COURI/EM/D.A.PRESS)
Mesmo quem tem um kindle ainda vem à livraria. Estamos em um momento de voltar a valorizar as coisas da rua, senão as pessoas só ficarão em casa. A livraria, assim como a padaria do bairro, está voltando a ter importância”
 Alencar Perdigão, proprietário da Quixote
 
As pessoas hoje ficam muito dentro de casa, com seus sensores desligados. A Livraria da Rua veio para abrir um espaço de convivência e ativar esses sensores por meio da arte e da literatura”
Alexandre Machado, proprietário da Livraria da Rua 
 
Quando a Scriptum virou também uma editora, pude criar um 
acervo que me permitia não ter que concorrer com grandes redes de livrarias. Lá, eles colocam na prateleira e pronto 

Welbert Belfort,proprietário da Scriptum 
 
Num sábado de manhã, as principais ruas da Savassi costumam estar movimentadas pelas lojas ainda abertas, estudantes em dia letivo e até a atividade gastronômica e boêmia que já se inicia em alguns bares. O pedestre mais atento que segue pela Rua Fernandes Tourinho percebe um burburinho diferente em alguns pontos da via. São os frequentadores das livrarias de rua que resistem em Belo Horizonte, desafiando um mercado em complexa mutação, em que comércio virtual, sob o domínio da gigante Amazon, tem minado até mesmo as grandes cadeias de lojas de livros.

A Scriptum, mais próxima da Avenida Cristóvão Colombo, assim como a Ouvidor, bem na esquina, e a Quixote, no quarteirão seguinte, junto da Avenida Getúlio Vargas, aproveitam manhãs e tardes de sábado para promover novos títulos em seus acervos, com a presença dos autores em sessões de autógrafos. A Ouvidor trouxe para a Savassi o nome da galeria no Centro onde a livraria foi fundada, nos anos 1970. A poucas esquinas dali, na Rua Antônio da Albuquerque, a Livraria da Rua, inaugurada em 2017, faz jus ao nome, com um belo espaço que conta até com programação musical em alguns dias.

Proprietário do empreendimento, Alexandre Machado afirma que o negócio é “uma tentativa de resistir às tecnologias de comércio que estão dominando o mercado”. Nessa proposta, ele vê uma característica decisiva nas lojas de rua. “As pessoas hoje ficam muito dentro de casa, com seus sensores desligados. A Livraria da Rua veio para abrir um espaço de convivência e ativar esses sensores por meio da arte e da literatura”, afirma.

Com o objetivo de criar um espaço onde o hábito da leitura e do consumo de livros fosse cultivado, a livraria oferece um espaço de café e mesas para os clientes realizarem pequenas reuniões ou passarem um tempo lendo. Os cerca de 5 mil itens do catálogo ficam expostos em mesas mais baixas, em vez de prateleiras altas. “Foi feito de forma conceitual, os livros estão dispostos de forma ‘gastronômica’, em mesas, pensando inclusive no acesso dos cadeirantes, que podem assim enxergar e folhear todos”, explica o empresário.

Responsável também pela Editora Miguilim, Alexandre diz que o fato de observar que seus lançamentos “não apareciam em prateleiras de grandes livrarias” foi um incentivo a abrir a própria livraria, onde procura adotar um perfil mais distanciado do “segmento comercial”, como ele diz. “Temos que ter outras coisas, livros mais artesanais, que valorizam o design da publicação. O livro como objeto é mais desejado.”

EDIÇÃO Aliar as atividades de edição e venda de livros também é característica da Scriptum, que milita nas duas frentes praticamente desde de que abriu as portas, há 18 anos. A iniciativa foi de Welbert Belfort, que tinha experiência na produção de eventos culturais e em trabalho em livrarias, antes de juntar um acervo e montar o próprio negócio. Ele conta que a proposta inicial era uma loja voltada para o gênero da psicanálise, mas logo ampliou o leque, sem abrir mão de privilegiar publicações mais artísticas e independentes.

“Quando a Scriptum virou também uma editora, em 2002, comecei a ter um alcance além de BH. Isso me aproximou de autores de outros lugares e pude criar um acervo que me permitia não ter que concorrer com grandes redes de livrarias. Lá, eles colocam na prateleira e pronto. Nós precisamos fazer um recorte do que queremos ter e estabelecer uma boa relação de informação com os clientes, saber indicar, falar de novidades”, diz Belfort.

Enquanto a lista de mais vendidos do ano no Brasil pela Amazon tem no topo Do mil ao milhão sem cortar o cafezinho, de Thiago Nigro (Harper Collins, 192 págs.), seguido de O milagre da manhã, de Hal Elrod (BestSeller, 196 pags.), e A sutil arte de ligar o foda-se, de Mark Manson (Intrínseca, 224 págs.), que por sua vez lidera o ranking anual nacional do site Publishnews, os melhores números da livraria Scriptum passam longe dos títulos superpopulares de autoajuda e finanças. A maior vendagem na loja neste ano até agora foi a edição bilíngue de O infamiliar (Das Unheimliche), de Sigmund Freud (Autêntica, 288 págs.). Também da área da psicanálise, Feminismo é feminino? (Annablume, 204 págs.), da mineira Maíra Marcondes Moreira, aparece em segundo, e a edição feita pela Tipografia do Zé, projeto artístico do tipógrafo Flávio Vignoli, de Poemas para meu pensamento, de Vera Casanova, em terceiro.

“Não colocamos os grandes best-sellers. Isso as grandes redes já fazem, numa lógica de descontos proporcionados pelas editoras. Eles dão prioridade a livros de linguagem fácil, rápida, pensando em quantidade, e rejeitam os livros de recortes mais temáticos, que são esses com os quais procuramos trabalhar”, afirma Welbert. Ele destaca que a Scriptum mantém uma boa relação com um público interessado nas novidades e produtos de sua livraria, mas lamenta “a falta de uma relação cultural com o livro em grande escala no Brasil”. “Infelizmente, aqui esse hábito de ir até a livraria é muito pequeno se comparado à Argentina, por exemplo. A questão cultural em torno disso foi largada, entrou o e-book, o comércio virtual e caímos na massificação do livro, assim como no caso da música e do cinema”, avalia.

DESCONTOS O vizinho de rua Alencar Perdigão, da Quixote, entende que a lógica comercial agressiva adotada por editoras, de vender diretamente ao público pela internet com grandes descontos, é nociva até mesmo para as grandes franquias e, consequentemente, para as próprias empresas que publicam os livros. “A livraria é a vitrine. Sem ela, o público não conhece coisas novas e a editora não tem para quem vender”. Misto de livraria e café, o negócio foi aberto há 16 anos na Savassi, e tem uma segunda unidade no câmpus Pampulha da UFMG.

Defensor da “cadeia produtiva do livro”, Perdigão vê a necessidade de uma política de proteção ao produto. “Lutamos pela lei do preço fixo, que existe em outros países e aqui nunca avançou. Com ela, um livro teria o mesmo valor mínimo em qualquer lugar durante um ano, porque até lojas focadas em eletrodomésticos vendem livros com 40%, 50% de desconto em seus sites, apenas para servir de isca para clientes, pensando em vender outros produtos. Isso prejudica toda uma cadeia”, afirma o livreiro, que também une sua editora (Quixote - Do Associadas) à loja.

Dificuldades à parte, Perdigão acredita na prosperidade de negócios como o dele e das outras livrarias, com quem diz ter uma ótima relação, a ponto de organizar o Festival Livro na Rua, em parceria com a Scriptum, na Fernandes Tourinho, cuja próxima edição está agendada para agosto. “Mesmo quem tem um kindle ainda vem à livraria. Estamos em um momento de voltar a valorizar as coisas da rua, senão as pessoas só ficarão em casa. A livraria, assim como a padaria do bairro, está voltando a ter importância.”

Embora ofereça um serviço de café, onde, segundo ele, o público pode “passar um tempo, tomar uma cerveja, ler um livro ou fazer uma reunião”, Perdigão afirma que a principal fonte de renda vem do livro. Neste ano, o título que mais impulsionou as receitas foi Tudo é rio, de Clara Madeira, lançado pela própria Quixote-Do (212 págs.). “O maior diferencial que temos é gostar do que fazemos. A gente não escolhe trabalhar com livro porque é o melhor negócio do mundo, mas sempre trabalhei com isso e gosto do que faço. Fiz faculdade de letras e trabalhei em outras livrarias. Aqui todos os funcionários seguem esse perfil, conhecem a mercadoria, sabem indicar.”

Os livreiros desse corredor informal sonham em vê-lo oficializado, “como um circuito turístico da Prefeitura, com apoio e divulgação”, diz Perdigão.

ABERTAS

Confira endereços e horários de funcionamento de livrarias de rua de BH

>> Quixote
R. Fernandes Tourinho, 274, Funcionários.De segunda a sexta-feira, das 9h às 20h; sábado, das 9h às 16h. (31) 3227-3077.
https://www.quixote-do.com.br/

>> Scriptum
Rua Fernandes Tourinho, 99, Funcionários. (31) 3223-1789.De segunda a sexta-feira, das 9h às 20h; 
sábado, das 9h às 15h.https://livrariascriptum.com.br/

>> Livraria da Rua
Rua Antônio de Albuquerque, 913, Funcionários. (31) 3500-6750.
De segunda a sexta-feira, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 16h.

>> Livraria Ouvidor – Funcionários
Rua Fernandes Tourinho, 253, Savassi.De segunda a sexta-feira, das 9h às 19h; sábado, das 9h às 14h. (31) 3221-7473
www.livrariaouvidor.com.br

>> Livraria Ouvidor – Floresta
Rua Itajubá, 416, Floresta. (31) 3212-4978.De segunda a sexta-feira, das 9h às 19h; sábado, das 19h às 13h.


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