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Estado de Minas

FESTIVAL DE CANNES PREMIA KARIM AÏNOUZ

Cineasta brasileiro venceu ontem a mostra Um Certo Olhar com o filme A vida invisível de Eurídice Gusmão. País tem dois concorrentes à Palma de Ouro, que será entregue hoje


postado em 25/05/2019 04:10

O cineasta Karim Aïnouz em Cannes, na segunda passada, com as atrizes Julia Stockler (à esq.) e Carol Duarte (foto: Loic Venance/AFP)
O cineasta Karim Aïnouz em Cannes, na segunda passada, com as atrizes Julia Stockler (à esq.) e Carol Duarte (foto: Loic Venance/AFP)

Deu Brasil em Cannes. A vida invisível de Eurídice Gusmão, melodrama do cineasta cearense Karim Aïnouz, foi o vencedor da mostra Um Certo Olhar, do 71º Festival de Cannes. “Dedico (o prêmio) à vivacidade do cinema brasileiro”, disse o diretor, que, ao subir ao palco do Debussy Theatre para recebê-lo, destacou o “momento de intolerância muito forte” por que o Brasil está passando. Esta foi a primeira vez que um longa brasileiro venceu essa mostra, a segunda mais importante de Cannes.

O melodrama, ambientado nos anos 1950, dialoga com a atualidade. A vida invisível de Eurídice Gusmão é baseado no livro homônimo de Martha Batalha. O longa acompanha as irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Júlia Stockler). Muito unidas, mas bem diferentes, elas acabam sendo separadas. Guida, a mais velha, foge de casa e retorna grávida, o que a faz ser expulsa pelo pai. Já Eurídice, que sonha se tornar pianista, fica sozinha. A separação forçada determina a vida das duas mulheres.
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“Os anos 1950 são conservadores, de muita importância para a família. Estamos falando da década anterior à revolução sexual. O conservadorismo daquele momento acaba também falando sobre o tempo que estamos vivendo agora”, afirmou Aïnouz em entrevista ao Estado de Minas, antes da exibição de seu filme no festival francês.

Segundo o diretor, A vida invisível de Eurídice Gusmão é um filme “que fala de mulheres que queriam ter sido alguma coisa e não foram”. Mas ele mantém o olhar crítico. “A história trata também de resistência, sobre uma mãe solteira num momento adverso. No fim das contas, é uma grande crítica ao patriarcado, mostrando como ele pode ser tóxico.”

O júri foi presidido pela diretora libanesa Nadine Labaki (Cafarnaum). Aïnouz já havia participado de Cannes com Madame Satã (2002) e O abismo prateado (2011). Além das duas coprotagonistas, ambas estreantes em cinema, A vida invisível de Eurídice Gusmão traz no elenco Gregório Duvivier, Bárbara Santos, Maria Manoella e Flávia Gusmão. Fernanda Montenegro tem uma participação especial no filme.

PALMA DE OURO  Depois do prêmio da mostra Um Certo Olhar, o Brasil tem boas chances neste sábado, quando serão anunciados os vencedores da Palma de Ouro. O país concorre com Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e O traidor, de Marco Bellocchio (coprodução Itália/Brasil/Alemanha/França). Há 21 títulos na disputa. Exibido na segunda noite do festival (15 de maio), Bacurau não foi uma unanimidade entre os críticos – recebeu tanto elogios entusiasmados à potência da história e da direção como objeções, como a de parecer mais um filme para se analisar do que para se assistir.

Terceiro longa de Kleber Mendonça Filho (que protestou no tapete vermelho, em 2016, na première de Aquarius, contra o impeachment de Dilma Rousseff), o filme mostra uma comunidade do interior do Brasil que não se deixa intimidar por um grupo de assassinos norte-americanos numa espécie de caçada humana pela região.

Em Cannes, Mendonça Filho afirmou que Bacurau é visto “como uma ideia do país. O Brasil é um país diverso. Mas há uma tentativa em curso para fazer com que ele deixe de ser. É uma distopia em vários sentidos”. Tal discurso é consonante com o do presidente do júri. Pela primeira vez em sua história, o evento tem um latino-americano na função, o mexicano Alejandro González Iñárritu.

Na abertura do festival, o diretor de O regresso e Birdman disparou farpas contra Donald Trump e outros líderes adeptos do discurso do presidente americano. “Parece que cada tuíte é um tijolo de isolamento que cria paranoia e ameaça”, afirmou, sem citá-lo nominalmente. Para Iñárritu, ter sido chamado para presidir o júri do festival é uma “declaração que fala por si só” em relação às políticas anti-imigração dos EUA.




RIO DE JANEIRO A participação brasileira em O traidor – ovacionado durante 13 minutos em sua sessão de gala, na quinta (23) – é importante. Coproduzido pela Gullane Filmes, o longa de Bellocchio (que já concorreu seis outras vezes à Palma de Ouro) teve 20% de suas cenas rodadas no Rio de Janeiro. A atriz Maria Fernanda Cândido vive Maria Cristina de Almeida Guimarães, terceira mulher do mafioso Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino).

O filme recupera a trajetória de Buscetta (1928-2000). Nos anos 1980, o mafioso foge para o Brasil, quando eclode na Itália uma guerra entre chefões da máfia. Preso pela polícia brasileira e extraditado para a Itália, Buscetta decide trair o voto de fidelidade que fez à Cosa Nostra.

A crítica respondeu bem ao filme. Para a Variety, O traidor questiona a natureza do arrependimento em um “drama forte e surpreendentemente simples”. Para o The Hollywood Reporter, a principal arma do filme é a interpretação de Favino. “É difícil sair desse tipo de filme com uma ideia positiva, mas quando (o juiz Giovanni) Falcone fala para Buscetta que “a máfia não é invencível; teve um começo e terá um fim”, vê-se o importante papel de homens como Buscetta, que nadaram contra a corrente e se tornaram ‘traidores’, colocando tantos assassinos e traficantes de drogas na prisão.”

Esta edição de Cannes traz entre os concorrentes pesos-pesados do cinema. Pedro Almodóvar, que já concorreu cinco outras vezes e presidiu o júri, foi muito celebrado pelo autobiográfico Dor e glória. Cannes praticamente parou para receber Quentin Tarantino e o mais estelar dos elencos. Capitaneado por Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, pela primeira vez trabalhando juntos, Era uma vez em Hollywood recria a Los Angeles de 1969. Acompanha Rick Dalton (DiCaprio), astro de westerns da TV, seu dublê nas cenas de ação (Pitt) e a vizinha dele, a atriz Sharon Tate (Margot Robbie).

Ao final da projeção, o público ficou de pé e aplaudiu Tarantino por vários minutos, 25 anos depois de ele ter recebido a Palma de Ouro por Pulp fiction – Tempo de violência. Mas sem prêmios, Era uma vez em Hollywood não vai embora. Ontem, Tarantino surpreendeu, ao receber, ele mesmo, a Palme Dog Award (melhor atuação canina) – no caso, para Brandy, The Pitbull, que participa do filme (é o cachorro do personagem de Pitt). “Quero agradecer ao júri do fundo do meu coração negro”, disse ele. “Pelo menos não vou para casa de mãos vazias.”

Sem estrelas, outra produção bem cotada é a sul-coreana Parasite, de Bon Joon-ho. Após a polêmica provocada por Okja, filme da Netflix selecionado em 2017, o cineasta apresentou um drama familiar tingido de thriller, que retrata a violência das desigualdades sociais com domínio formal. Parasite conta a história de uma família de desempregados que vivem em um sórdido apartamento, onde convivem com baratas. A vida parece dar sinais de mudar quando o filho mais velho se torna professor particular de inglês de uma família rica. Outro favorito da crítica é Portrait of a lady on fire, da francesa Céline Sciamma, um filme de época (século 18) em que uma pintora é obrigada a viajar para fazer o retrato de casamento de outra mulher.


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