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O PULO DOS GATUNOS

Em Assunto de família, casal de trabalhadores pobres que realiza pequenos furtos adota uma garotinha maltratada pelos pais. As relações de afeto e solidariedade entre o clã revelam um mundo além do crime


postado em 10/01/2019 05:05

Com roteiro, direção e montagem de Hirokazu Kore-Eda, Assunto de família é o representante do Japão no Oscar (foto: IMOVISION/DIVULGAÇÃO)
Com roteiro, direção e montagem de Hirokazu Kore-Eda, Assunto de família é o representante do Japão no Oscar (foto: IMOVISION/DIVULGAÇÃO)


Assunto de família, de Hirokazu Kore-Eda, que estreia nesta quinta-feira (10) no Brasil, e Roma, de Alfonso Cuarón, disponível desde 14/12 na Netflix, teriam se enfrentado na disputa pela Palma de Ouro no Festival de Cannes 2018, caso a plataforma de streaming, que produziu o longa do mexicano, não tivesse ficado inflexível à demanda dos organizadores da mostra francesa pelo lançamento do título nos cinemas do país. No fim das contas, Kore-Eda venceu Cannes, e Roma ganhou o Leão de Ouro em Veneza.

Teria sido interessante conhecer a decisão do júri presidido por Cate Blanchett, se Assunto de família fosse para o mano a mano com Roma em Cannes. Por onde passou, o filme de Cuarón foi efusivamente recebido pela crítica, por seu sincero retrato (em preto e branco) de um drama familiar. Na verdade, pela disposição do cineasta de rever aquele ano de 1970 que marcou sua infância e, agora, com o olhar adulto, reconhecer que, enquanto a relação de seus pais se decompunha, havia mais pessoas sofrendo dentro de sua própria casa e ao redor de seu país.

Com Assunto de família, Kore-Eda vai além de uma perspectiva íntima e autocrítica. Ele estende e aprofunda a visão para tentar enxergar tanto o que é saliente quanto o que parece indevassável no tecido social, a partir do caso específico de uma célula familiar. O papel metafórico da família é tanto mais claro quando se descobre (aos poucos) que, entre os laços que unem avó, filha, genro e netos, o sanguíneo não se inclui.

Roteirista e também montador do longa, o diretor japonês desdobra o seu Assunto de família com sutileza e elegância, de tal forma que a história do clã de gatunos que se apropria de uma garotinha submetida a maus-tratos pelos pais biológicos não resvala no sentimentalismo.

Se consegue fugir com classe da pieguice, Kore-Eda, no entanto, não economiza mostras de amor por seus personagens, mas um amor sem arroubos nem alarde, que se revela no fato de ele perdoar suas falhas, ter compaixão por suas fraturas psíquicas e apostar sempre na emergência de um valor intrínseco que restaure a coragem e a decência, quando elas parecem ceder ao caminho mais óbvio da covardia e da desonestidade.

O percurso de cada um dos personagens vai se delineando na convivência entre eles. Com pequenas pistas, diálogos curtos e uma foto que termina de montar o quebra-cabeças, o espectador compreende como aquela família se constituiu apenas quando o filme já se encaminha para o final.



ROUBO

As dificuldades da parcela da população submetida à pobreza num país visto como símbolo do desenvolvimento não ficam alheias à atenção de Kore-Eda.  Em dado momento, um representante da Justiça pergunta ao trabalhador da construção civil que ensina os filhos pequenos como furtar em lojas e supermercados sem ser notados: “O senhor não se envergonha de ensinar crianças a roubar?”. A resposta é: “É tudo o que eu poderia ensinar a elas”.

O argumento de que “o que está nas lojas não pertence a ninguém” como justificativa para os furtos e a atitude de uma operária que, sob a ameaça do desemprego, chantageia a colega usando um valor inegociável para manter seu posto, sublinham conflitos éticos e morais próprios de quando consciências individuais entram em choque com a lógica própria e a engrenagem maior do capitalismo.

Uma grande virtude do longa reside no fato de que a resposta do patriarca ao policial está incorreta. Ele não ensinou as crianças apenas a roubar. Cumprindo a figura de pai, ele também as ensinou a se respeitar e se proteger e a vencer os ciúmes. Ao identificar o despertar sexual do garoto, procurou tranquilizá-lo quanto à naturalidade de seus desejos.

A mãe, por sua vez, ensinou à filha adotiva a não aceitar uma agressão disfarçada de amor, embora ela mesma tenha sido capaz de uma agressão extrema em relação a outro familiar. Ou seja, a indeterminação dos sujeitos – nem predominantemente bons nem predominantemente maus – faz dos personagens de Assunto de família seres tão complexos quanto os da vida real. E a proposta de Kore-Eda ao espectador parece ser não no sentido de um esforço para desculpá-los pelos seus erros, mas no de amá-los apesar deles.

Se o enfrentamento entre Roma e Assunto de família não se deu em Cannes, é certo que ocorrerá no Bafta (leia texto abaixo) e muito provável que ocorra no Oscar. O longa de Kore-Eda (Japão) e o de Cuarón (México) estão entre os nove pré-selecionados para a disputa de melhor filme estrangeiro. Os cinco finalistas serão conhecidos no próximo dia 22.


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