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Estado de Minas

Combate ao câncer cerebral

Estudo realizado por professores americanos e canadenses, em parceria com a Unicamp, reconhece duas moléculas com potencial de aumentar sobrevida de pacientes


03/03/2021 04:00 - atualizado 02/03/2021 19:53

Pesquisadores da Unicamp contribuíram com a análise de bioinformática de dados oriundos de cerca de 30 pacientes para extrair informações relevantes para os resultados alcançados(foto: CQMED/Divulgação)
Pesquisadores da Unicamp contribuíram com a análise de bioinformática de dados oriundos de cerca de 30 pacientes para extrair informações relevantes para os resultados alcançados (foto: CQMED/Divulgação)


Um estudo realizado por pesquisadores canadenses, americanos e brasileiros, e publicado na Nature Communications, aponta duas moléculas com potencial para tratar o glioblastoma, tipo agressivo de câncer cerebral, e aumentar a sobrevida do paciente, que, normalmente, apresenta chances em torno de 10% de “vencer” o tumor. Essas moléculas são produzidas e sintetizadas em laboratório e são capazes de agir sobre as chamadas células-tronco-tumorais, responsáveis pela resistência do corpo aos medicamentos e pelo crescimento do câncer.
 
“Nesse estudo, removeram o tumor e separaram células tidas como especiais, as chamadas células-tronco-tumorais. Essas células conseguem se esconder do remédio. Para entender melhor então, os professores isolaram dentro do tumor essas células e começaram a crescê-las em laboratório para achar moléculas que conseguissem matá-las, alvos importantes para o tratamento desse tipo de câncer.”
 
É o que explica a pesquisadora Katlin Bauer Massirer, do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG-Unicamp) e uma das coordenadoras do estudo. Para chegar ao resultado alcançado no momento – o saber onde essas moléculas agem e o seu potencial como agente terapêutico –, primeiro, os pesquisadores da Structural Genomics Consortium de Toronto (Canadá) realizaram uma “varredura” de moléculas em busca daquelas capazes de inibir o crescimento das então células-tronco-tumorais em laboratório.
 
Foi então que duas moléculas tiveram resultados mais promissores, a GSK591 e a LLY-283. Essas moléculas atuam na enzima associada ao glioblastoma, a arginina metiltransferase 5 (PRMT5), responsável pela organização da produção de proteínas no interior da célula, em um evento chamado de splicing alternativo de RNA. No organismo, elas ajudam na regulação, porém, haja vista a sua maior quantidade no cérebro, há uma ação maléfica ao corpo: o desenvolvimento do tumor.
 
“Todos nós temos essa proteína, mas, lá no cérebro, no câncer cerebral, produz-se mais dessa proteína e, por isso, ela fica desregulada nas células do cérebro, enquanto que no resto do corpo está regulada. É como pensar em computadores. O DNA é igual em todas as células do corpo de uma pessoa, assim como os computadores têm o mesmo sistema. E, quando você ativa um programa específico, consegue acessar uma parte do programa. Então, o nosso corpo também regula dessa maneira nessas células, mas por algum motivo, lá no cérebro se produz mais dessa proteína.”
Conforme elucidado pela pesquisadora, é como se o “programa” do nosso cérebro produzisse mais dessa proteína, de forma separada do restante dos programas (órgãos) do sistema (corpo humano). “E isso é ruim para o cérebro, pois induz ao câncer”, explica Katlin Massirer.
 
Em seguida, os cientistas cultivaram, em laboratório, células-tronco tumorais de pacientes com glioblastoma e aplicaram as moléculas inibidoras. O resultado? Desaceleração do número de células de câncer, o que, segundo a pesquisadora da Unicamp, é muito importante, uma vez que são essas células as responsáveis pela resistência e avanço do tumor.
 
“Basicamente, quebramos essa célula em laboratório e lemos o quanto ela está ajudando o câncer e qual o programa de ação dessa célula. Com isso, conseguimos entender que esses programas conseguem nos ajudar a mostrar que o paciente vai, sim, conseguir eliminar o câncer com a ação dessas moléculas inibidoras”, resume Katlin Massirer.
 
Posteriormente, a pesquisadora explica que o teste foi aplicado em camundongos. Eles receberam no cérebro parte da célula tumoral do paciente, o que fez com que um tumor crescesse no animal. A partir disso, então, deu-se início ao tratamento com os inibidores químicos para se constatar se era possível esse camundongo doente viver mais e ter o seu câncer “diminuído”. A resposta obtida foi: além de maior sobrevida, os cientistas registraram uma estagnação do tumor presente nos camundongos e observaram, também, uma maior permeabilidade cerebral da molécula LLY.

CONTRIBUIÇÃO Nesse estudo, os pesquisadores da Unicamp contribuíram com a análise de bioinformática de dados ori- undos de cerca de 30 pacientes para extrair informações relevantes para os resultados alcançados. “Analisamos ao todo quase 300 mil eventos de splicing. É preciso saber quais deles são resultantes do efeito da molécula”, explica o brasileiro Felipe Ciamponi, um dos autores do artigo, que durante seu mestrado permaneceu três meses no grupo do Structural Genomics Consortium de Toronto (Canadá), onde iniciou o processamento dos dados.
 
Assim, a contribuição brasileira, então, definiu um mapa de eventos de splicing que permitiu entender como ocorria a inibição da proteína PRMT5 na célula. Esse mapeamento  apontou uma das causas da multiplicação de células no câncer e que a inibição da PRMT5 impediu que as células tumorais se reproduzissem na mesma velocidade.
 
Segundo Katlin Massirer, uma das coordenadoras do estudo, essa é uma etapa importante para a descoberta de um novo fármaco, mais específico e eficiente, haja vista sua capacidade de agir sobre as células que fazem o câncer crescer e se desenvolver, e as quais têm maior resistência aos tratamentos já existentes. “Os resultados nos deixaram muito otimistas, sobretudo por se tratar de um câncer extremamente agressivo e difícil de ser tratado. Estes inibidores químicos abrem um caminho que parece promissor”, completa Felipe Ciamponi.

E AGORA? Katlin Massirer destaca que esse estudo ajudou a desvendar moléculas que poderão ajudar em mais medicamentos e estudos. E, portanto, pontua que ele terá continuidade, com etapas que consistem em entender detalhadamente o efeito dessas moléculas sobre o câncer e criar modificações químicas dessas moléculas, tornando-as mais estáveis e permeáveis ao cérebro, para que seja possível guiar um estudo pré-clínico.
 
“Gostaríamos de fazer esse estudo também em grupos de hospitais daqui do Brasil e chegar a estudos complementares. E podemos, mesmo com outros pacientes daqui ou de fora do país, avançar e entender mais o que essas moléculas conseguem atingir no câncer. E não é um milagre, são estudos de anos e que já existem. Em geral, criam-se moléculas que podem virar medicamentos, que podem ser associados com outros já utilizados”, diz.
 
Atualmente, dois compostos semelhantes ao do estudo estão sendo testados nos Estados Unidos, em pacientes com leucemia mieloide aguda, linfoma não Hodgkin e tumores sólidos.

*Estagiária sob supervisão da editora Teresa Caram
 
Entenda o processo


Primeiro, removeram o tumor

Depois, separaram, dentro do tumor, as células tidas como especiais, as chamadas células-tronco-tumorais, que conseguem se esconder dos remédios e fazer com que o câncer se desenvolva

Depois, cresceram essas células em laboratório para encontrar moléculas que conseguissem matá-las

Então, duas moléculas tiveram resultados mais promissores, a GSK591
 e a LLY283, e foram aplicadas nas células, obtendo desaceleração do número de células de câncer, aumentando a sobrevida e otimizando o tratamento com possíveis fármacos

A testagem foi feita em camundongos e deve ser realizada, em breve, em modo pré-clínico 


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