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Estado de Minas CIÊNCIA

Os desafios da pesquisa científica no Brasil

A pandemia provou o valor da ciência para a sociedade, mas, no Brasil, cientistas enfrentam problemas como falta de investimentos e desvalorização profissional


23/01/2022 04:00 - atualizado 23/01/2022 07:11

Laboratório do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais
Laboratório do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (foto: DOUGLAS MAGNO/AFP)

A ciência no Brasil vive um paradoxo. Ao mesmo tempo em que é essencial não só para a vida, mas para o desenvolvimento e inovação do país, em plena pandemia de COVID-19, momento em que os cientistas comprovaram que são fundamentais e insubstituíveis, ciência e cientistas foram os mais desvalorizados, atacados e até prejudicados. Desde questionamentos quanto aos seus feitos, orientações e fake news até corte de verbas minando trabalhos precisos, atrasando e pondo em risco resultados preciosos para a sociedade.

Hércules Pereira Neves, coordenador científico do Instituto de Inovação e Incorporação Tecnológica Ciências Médicas, enfatiza que a pandemia tornou mais evidente a força de instituições científicas brasileiras como a Fiocruz e o Instituto Butantan, que já tinham posição de destaque tanto nacional quanto internacionalmente, mas que passaram a ser percebidas de forma mais evidente pelo público.

“Entretanto, ficou também evidente que grande parte da tecnologia de que necessitamos vem de fora. A produção científica brasileira ainda é modesta, particularmente quando se fala em pesquisa translacional, ou seja, aquela que está orientada a transferir seus resultados à prática de saúde e, finalmente, à sociedade. No Brasil, ainda é raro que a pesquisa efetivamente se transforme em produto.”

Historicamente, Hércules Neves explica que o Brasil sempre foi um dos países que mais veem seus cientistas retornarem após passar por formação no exterior. Entretanto, o alto custo da pesquisa, aliado à situação que temos de desconexão com o setor industrial, faz com que nossos cientistas se sintam cada vez mais atraídos a se fixarem no exterior.

“O perfil do cientista brasileiro ainda é fortemente acadêmico, com volume relativamente modesto de publicações e ainda mais fraco de patentes. Precisamos de uma ciência que se encaixe de forma mais efetiva na cadeia de valor e que se preocupe mais em dar retorno a quem paga por ela. Por outro lado, precisamos também de um setor industrial mais preparado para absorvê-la.”

Hércules Pereira Neves, coordenador científico do Instituto de Inovação e Incorporação Tecnológica Ciências Médicas
Hércules Pereira Neves, coordenador científico do Instituto de Inovação e Incorporação Tecnológica Ciências Médicas: "A produção científica brasileira ainda é modesta, particularmente a pesquisa translacional, ou seja, que está orientada a transferir seus resultados à prática de saúde e, finalmente, à sociedade" (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)


Conforme Hércules Neves, o foco dos professores na preparação dos novos cientistas ainda está na formação de discípulos.

“Eles deveriam se preocupar mais em preparar bons autodidatas que possam caminhar independentemente. Precisamos também de mais ciência fora das universidades. Uma evidência disso é a importância das atividades desenvolvidas pelas instituições científicas, tecnológicas e de inovação (ICTs) no enfrentamento da COVID-19. Elas têm sido fortes, mas poderiam ser ainda melhores. A pesquisa científica tem ficado cada vez mais cara. Aumentar seus aportes não é a única solução: precisamos também de tornar os investimentos mais eficientes.”

ATUAÇÃO NOTÁVEL


Hércules Neves garante que há anos a FCM-MG tem tido atuação notável na pesquisa clínica, com fortes parcerias tanto locais quanto internacionais, com destaque ao Centro de Investigações Cardiológicas na Universidade do Colorado, em Denver, nos EUA. Ela promove intercâmbio de seus alunos com as universidades de Miami, nos EUA, e Lille, na França, entre outras.

“Além disso, a instituição tem sido pioneira em áreas como a cirurgia robótica. Com quatro dos cinco robôs de última geração instalados em Minas Gerais, atingimos a marca de 3 mil cirurgias em novembro. Nossas atividades em pesquisa e desenvolvimento fortalecem-se por meio da validação clínica dos resultados, feitas não só em nosso sistema como também em hospitais parceiros.”

Hércules Neves destaca que, da mesma forma que estamos todos conectados globalmente, sobretudo graças à internet, a comunidade científica hoje tem a capacidade de se integrar mais. Segundo ele, tal integração tem permitido um acesso mais imediato às informações mais recentes.

“No contexto da pandemia, isso se tornou ainda mais evidente: temos tido acesso imediato a dados e resultados, da mesma forma que nossos colegas espalhados pelo mundo. Mas é importante ressaltar que isso não é de graça; consequentemente, esse acesso tem que ser devidamente priorizado no que tange a investimentos futuros.”

Eduardo França, diretor do câmpus Buritis do UniBH
Eduardo França, diretor do câmpus Buritis do UniBH: "Nosso ecossistema de aprendizagem pressupõe projetos de pesquisa e trabalhos relacionados à área da extensão, fortalecendo o tripé universitário" (foto: Maykel Douglas/Divulgação)


Há dois anos, a mantenedora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG), a Fundação Educacional Lucas Machado, criou o Instituto de Inovação e Incorporação Tecnológica Ciências Médicas. Hércules Neves revela que o Instituto rapidamente estabeleceu as próprias linhas de pesquisa, todas voltadas ao aspecto translacional.

“Entre os resultados mais marcantes, saliento o desenvolvimento de uma plataforma de diagnóstico molecular in vitro orientada a testes rápidos realizáveis em campo, longe do laboratório. Seu produto é um teste altamente sensível e específico, de custo baixo e fácil utilização, já validado, e que pode ser usado desde em patologias como a COVID-19 até o diagnóstico precoce do câncer.”

PROJETOS


Já Eduardo França, diretor do câmpus Buritis do UniBH, destaca o que a instituição tem feito para pensar o futuro da ciência dentro da universidade privada. “Nosso ecossistema de aprendizagem pressupõe projetos de pesquisa e trabalhos relacionados à área da extensão, fortalecendo o tripé universitário, que conta com o ensino em sua articulação. Relativamente à pesquisa e à extensão, conseguimos atingir e transformar positivamente a comunidade do entorno, especialmente em um cenário de substanciais cortes para incentivos na área acadêmica.”

Para Eduardo França, ao pensar a ciência e a formação de cientistas, é importante problematizar a dicotomia presente no Brasil entre o mundo do trabalho e o ambiente acadêmico universitário. “A ressignificação desta questão passa pelo reconhecimento das instituições de ensino superior como formadoras de profissionais qualificados, mas também como verdadeiros polos de soluções para problemas reais que se apresentam na sociedade, de modo abrangente. Com a escassez de recursos para pesquisas nos últimos tempos no Brasil, é fato que outras oportunidades precisam ser consideradas.”

PARTE DO DNA


José Antônio Ferreira, professor das disciplinas de microbiologia médica e de epidemiologia e saúde coletiva no curso de medicina da Faseh, enfatiza que a instituição privada tem a pesquisa e a extensão em seu DNA. “O investimento institucional em pesquisa começa na escolha de um corpo docente, que tem expertise científica e capacitação específica para conduzir projetos com excelência. A instituição também tem um programa sólido de iniciação científica, onde alunos e docentes/pesquisadores recebem apoio logístico e financeiro para condução de pesquisas nas diferentes áreas da saúde.”

Ele destaca os projetos de extensão, que em conjunto com a administração pública municipal/estadual e a população, proporcionam à comunidade acadêmica a oportunidade de socializar o conhecimento e transpor as barreiras existentes entre a instituição de ensino e a comunidade. A Faseh investe na internacionalização, processo que integra diferentes atividades, tais como colaboração em pesquisa, mobilidade acadêmica e projetos internacionais de desenvolvimento em educação superior. “Hoje, temos acordos bilaterais de ensino e pesquisa com algumas das maiores universidade dos EUA. Desde 2009, pesquisas nas áreas da saúde pública, doenças infecciosas, saúde da criança e da mulher vêm sendo desenvolvidas em conjunto com a universidade de Stanford (Califórnia), Universidade de Emory (Geórgia) e, mais recentemente, Universidade de Miami.”

José Antônio Ferreira conta que todas as pesquisas conduzidas pela equipe de professores e pesquisadores da Faseh têm caráter multidisciplinar. “Um exemplo disso é a linha de pesquisa que temos conduzido com a Universidade de Emory na área da hanseníase. Nesse campo específico, temos projetos que envolvem atendimento/tratamento de pacientes, pesquisa de novos métodos para diagnóstico laboratorial da doença, investigações em métodos inovadores de prevenção e controle e, não menos importante, estudos sobre estigma e preconceito na doença.” Ele destaca o trabalho em parceria com praticamente todas as áreas da saúde. “Instituições como Fiocruz, UFMG, UFJF-GV, FCMMG e Fhemig têm contribuído diretamente para o sucesso dos projetos de pesquisa coordenados pela Faseh”.


Três perguntas para...


Ana Cristina Gomes Santos Hostt
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)


Ana Cristina Gomes Santos Hostt, 
pós-doutora em imunologia, pesquisadora, professora e coordenadora de área da saúde da Una Cristiano Machado 

Cientistas no Brasil que, com a pandemia, perderam verbas para pesquisa, estão em busca de respostas para tantos desafios. O que vem sendo feito? Qual o cenário dentro da universidade?
O cenário nos remete a um verdadeiro apagão científico. Para se ter uma ideia, o Brasil investiu em pesquisas em 2020 apenas 16% do que investiu em 2014. Bolsas de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado foram cortadas. Estamos falando de estudantes que operam, diariamente, as pesquisas no Brasil. Todas as pesquisas no país que são publicadas têm as mãos desses estudantes. São mentes brilhantes, que investem e dedicam seu tempo, muitas vezes dia e noite.

Sem essa força de trabalho qualificada e criativa, os grupos de pesquisa não conseguem sustentar seus projetos já em andamento, manter os animais de experimentação, as células e culturas de micro-organismos na área de saúde, por exemplo. As universidades, neste cenário desolador, buscam parcerias público-privadas, financiamentos internacionais e colaborações com pesquisadores nacionais e internacionais.

Com tantos cortes, exportamos esses pesquisadores. Muitos doutores vão residir fora do Brasil e passam a contribuir com a ciência e a inovação tecnológica de países investidores em pesquisa. Os que ficam, muitas vezes, seguem desmotivados devido às condições financeiras delicadas e à instabilidade e falta de perspectiva por emprego e alocação no mercado de trabalho. Neste momento, temos doutores extremamente qualificados desempregados. As universidades e centros de pesquisa acabam perdendo seus talentos.

Qual o investimento nos cientistas dentro da instituição? Com a pandemia, houve perda de verbas?
O investimento financeiro em pesquisa é mínimo. O Brasil é um país que, historicamente, investe pouco em pesquisa quando comparado a outros. Contudo, já tivemos momentos me- lhores. Em 2008, havia vários institutos criados, denominados institutos nacionais de ciência e tecnologia. Todos eles foram extintos.

A pandemia trouxe a necessidade imensa de desenvolvimento de vacinas. Temos pesquisas sendo realizadas para desenvolvimento de vacinas efetivas que podem chegar ao mercado e à população em breve, mas os recursos financeiros são necessários. Além das pesquisas aplicadas, temos uma série de projetos de base, que não exatamente geram produtos, mas que são essenciais para que os avanços tecnológicos aconteçam, assim como para ampliação de conhecimento em diversas áreas.

Muitos foram interrompidos. Em 2020, durante a pandemia, os pesquisadores contaram com recursos da ordem de R$ 5 milhões, algo irrisório perante o número de pesquisadores e grupos de pesquisa do Brasil. Ou seja, hoje, o CNPq tem em torno de 25% menos pesquisadores ativos no país. Além do mais, desde 2013, os bolsistas não têm reajustes em suas bolsas. Um estudante de mestrado recebe em torno de R$ 1.500 e o de doutorado, R$ 2.200. Há uma defasagem, portanto, na remuneração recebida.

Qual a preocupação para o desenvolvimento de futuros cientistas? Qual o diferencial?
O que é ofertado? Os futuros cientistas, alunos de iniciação científica, de mestrado e doutorado, muitas vezes continuam suas pesquisas, mas não conseguem publicar seus trabalhos em revistas internacionais pela escassez de reagentes, equipamentos e insumos, como também a necessidade de recursos para pagamento das publicações. Com isso, seus currículos ficam defasados, ou, ao menos, com uma produção científica reduzida.

As patentes, que também podiam ser geradas, muitas vezes não são registradas. Em anos anteriores, havia a possibilidade de intercâmbio para outros países para aquisição de expertises em áreas e desenvolvimento de habilidades, mas esse não é mais o cenário. Porém, é inegável a criatividade e talento dos cientistas brasileiros. Pela capacidade de superar desafios e dificuldades experimentais, nossos pesquisadores se destacam em laboratórios de todo o mundo. Isso devido ao corpo docente dos programas de pós-graduação e também às linhas de pesquisa e projetos apresentados.


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