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Estado de Minas ASTRONOMIA

Lua tem mais água do que se acreditava

Estudos publicados nos EUA confirmam a presença de moléculas de H20 e mostram que o recurso existe em larga escala no satélite. Descoberta deve impactar nas missões espaciais


27/10/2020 04:00 - atualizado 27/10/2020 08:23

(foto: MANAN VATSYAYANA /AFp %u2013 13/11/09)
(foto: MANAN VATSYAYANA /AFp %u2013 13/11/09)


Dois estudos publicados ontem em uma revista científica dos Estados Unidos trouxeram informações que devem revolucionar as futuras missões espaciais. Um deles, liderado pela Universidade do Colorado, mostrou que há mais água na Lua do que as pesquisas vinham indicando. Ela está presa em forma de gelo em uma infinidade de microcrateras, um recurso com potencial para impactar viagens não só ao satélite como também a Marte. O outro, conduzido pela agência espacial norte-americana, a Nasa, trouxe pela primeira vez a comprovação química de moléculas de H20.

Por muito tempo, acreditou-se que a Lua fosse um astro muito árido. Esse entendimento começou a mudar em 2008, quando pesquisadores descobriram moléculas de água dentro do magma trazido à Terra por astronautas das missões Apolo.

Expectativa agora é de que a água lunar sirva não apenas como bebida para os astronautas, mas também para reabastecer foguetes (foto: Nasa/divulgação)
Expectativa agora é de que a água lunar sirva não apenas como bebida para os astronautas, mas também para reabastecer foguetes (foto: Nasa/divulgação)


Essa água gelada está presa no fundo de grandes crateras que ficam continuamente na escuridão, perto dos polos, onde as temperaturas são extremamente baixas. 

Um dos estudos publicados ontem na revista científica Nature Astronomy revela a existência de incontáveis microcrateras com água gelada no fundo. São chamadas de “armadilhas frias”.

“Imagine-se na Lua, perto de um de seus polos: você veria uma miríade de pequenas sombras que preenchem a superfície; a maioria delas são menores do que uma moeda. Cada uma seria extremamente fria, o suficiente para conter gelo”, descreve Paul Hayne, do Departamento de Astrofísica da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, que fez a pesquisa.

Sua equipe usou dados de dois instrumentos do orbitador de reconhecimento lunar da Nasa. Combinando essas medidas com modelos 3D, eles conseguiram reproduzir o tamanho e a distribuição das sombras em escalas menores que um milímetro.

Haveria ali a mesma temperatura das grandes crateras: cerca de -160°C. Mas há muito mais.
“Há dezenas de bilhões deles, enquanto os maiores são algumas centenas”, detalha Paul Hayne, de modo que a superfície total de água na Lua cobriria 40 mil km2, dos quais 60% seriam no polo sul, “o que sugere que a água está mais espalhada na Lua do que se acreditava”, explica.

Estrutura molecular Outro estudo, também publicado na Nature Astronomy, fornece a prova química de que se trata de água molecular. O telescópio aerotransportado Sofia, do Observatório Estratosférico para Astronomia Infravermelha, proporcionou novos dados graças à observação da Lua em um comprimento de onda mais preciso do que antes: seis mícrons, em vez de três.

Foi a primeira vez que pesquisadores puderam diferenciar a molécula de água (H2O) de outro composto químico, a hidroxila (OH), com o qual ela aparece misturada.

De onde vem a água? Provavelmente, a água vem da queda de asteroides que colidiram com a Lua há bilhões de anos. O mesmo que se acredita ter acontecido com a Terra. As moléculas de água expulsas durante a queda desses corpos teriam caído no fundo dessas crateras, onde ficaram “presas para sempre” pelo frio, explica Francis Rocard, especialista em sistema solar, do Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES).

Há ainda quem defenda a tese de que possa ser originária de erupções vulcânicas e até de gases.
Se as técnicas de extração forem desenvolvidas, isso representará um recurso potencial para futuras missões espaciais, principalmente a futura miniestação Lunar Gateway.

Para futuras missões tripuladas a Marte, por exemplo, seria possível “decolar da Terra, fazer uma parada na 'estação de serviço', que será a Lunar Gateway, de onde se enviariam sondas à superfície lunar para coletar água e assim abastecer a tripulação que faz a viagem a Marte”, acrescenta Francis Rocard, que não participou dos estudos. “Isso reduziria o custo do programa, porque é mais barato do que levar água da superfície da Terra”, explica o astrofísico francês, destacando que a viagem para Marte dura seis meses.


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