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Mais do que um sentimento

Cientistas buscam entender no laboratório como surge a empatia e os resultados do estudo podem ajudar na criação de estratégias para estimular esse comportamento na sociedade


postado em 12/05/2019 05:05

Para um dos psicólogos mais conceituados da história, a empatia é muito mais do que um sentimento, ela é um processo. Carl Rogers, um dos precursores da abordagem humanista da psicologia, defendia que o modo empático é complexo, pois exige “penetrar no mundo perceptivo de outra pessoa e se sentir em casa”. A profundidade dessa aptidão, defendida há décadas pelo estudioso norte-americano, foi reforçada em dois estudos científicos realizados recentemente. Em um deles, pesquisadores observaram que a empatia é, muitas vezes, inconscientemente evitada por causa do esforço mental que exige do indivíduo. Já uma segunda análise, mostra que a ação empática de poucos pode “espalhar” esse sentimento em grupos. Para especialistas, os novos dados podem ajudar em estratégias que ajudem a impulsionar esse tipo de atitude altruísta na sociedade.
A empatia, a capacidade de compreender os sentimentos de outra pessoa, é vista como uma virtude, pois encoraja comportamentos de ajuda. Mas, de acordo com os cientistas, existe uma suspeita de que as pessoas geralmente não querem ser empáticas. “Há uma suposição comum de que os indivíduos sufocam sentimentos de empatia porque podem ser deprimentes ou dispendiosos, como fazer doações para caridade”, explicou Daryl Cameron, pesquisador da Universidade de Penn State, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo publicado na revista Journal of Experimental Psychology: General. “Nesse estudo, descobrimos que as pessoas basicamente não querem fazer o esforço mental para sentir empatia em relação aos outros, mesmo quando isso envolve emoções positivas”, ressaltou o cientista.
Cameron e sua equipe chegaram a essa conclusão após realizar 11 experimentos com mais de 1.200 participantes. Nas análises, os especialistas projetaram uma “tarefa de seleção de empatia”, para testar se os custos cognitivos, ou o esforço mental, poderiam deter a empatia. Durante uma série de testes, os pesquisadores usaram dois baralhos de cartas, cada um com fotos sombrias de crianças refugiadas. Para um monte de cartas, os participantes foram orientados apenas a descrever as características físicas da pessoa na imagem. Para o outro, eles foram instruídos a tentar sentir empatia por quem estava na foto, ao pensar sobre o que ela estava sentindo. Os participantes foram estimulados a escolher livremente qualquer grupo de cartas em cada tentativa.
Em algumas práticas adicionais, os pesquisadores também usaram cartas que apresentavam imagens de pessoas tristes e sorridentes. Em todas as etapas dessa fase, o resultado foi o mesmo. Quando dada a escolha entre as cartas, os participantes optavam constantemente pelos montes que não exigiam sentir empatia. “Vimos uma forte preferência para evitar a empatia, mesmo quando alguém estava expressando alegria”, observou Cameron.
Em todos os experimentos, os participantes escolheram a empatia em 35% do tempo, em média, mostrando uma forte preferência pelo baralho que não exigia sintonia. Em respostas coletadas depois dos testes, os pesquisadores ouviram justificativas dos participantes que evitaram o exercício empático. “Grande parte desses voluntários ressaltou que essa tarefa era mais desafiadora cognitivamente, e eles se sentiam menos confortáveis nessa situação do que quando apenas descreviam as características físicas de outras pessoas”, detalhou Cameron.

INCENTIVO Apesar de os dados iniciais mostrarem a atividade cognitiva como um empecilho para a empatia, os cientistas observaram que é possível driblar essa barreira. “As pessoas podem ser encorajadas a sentir empatia se acham que são boas nisso? Foi o que tentamos observar”, explicou Cameron. Em dois experimentos, metade dos participantes foi informada de que eram melhores que 95% dos outros em níveis de empatia,  e 50% melhores ao descrever as características físicas objetivas, enquanto o outro grupo foi informado do contrário. Como resultado, os participantes que foram informados de que eram bons em sentir empatia selecionaram mais cartas do baralho que exigiu o exercício da afinidade. “Se podemos mudar as motivações das pessoas para se engajar em empatia, então, isso pode ser uma boa notícia para a sociedade como um todo. Isso poderia encorajar as pessoas a se aproximarem de grupos que precisam de ajuda, como imigrantes, refugiados e vítimas de desastres naturais”, enfatizou Cameron.
Em um segundo estudo, realizado por cientistas da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, os cientistas utilizaram a teoria do jogos (análise de probabilidade) para analisar a empatia. Os pesquisadores aplicaram uma série de questionários, com situações hipotéticas que testaram a atividade empática, para mais de mil entrevistados. Ao fim dos testes, eles observaram que a maioria das pessoas é mais propensa a ajudar alguém que considera “bom” do que alguém que acredita ter uma má reputação. Além disso, a análise do grupo apontou para uma conclusão animadora: a capacidade da empatia se espalhar em grupos.
“Nós nos perguntamos: a empatia pode evoluir? E se os indivíduos começarem a copiar o modo empático ao observar as interações uns dos outros? Incorporamos isso nos nossos modelos e vimos que a empatia disparou por meio da população”, ressaltou Arunas Radzvilavicius, principal autor do estudo, publicado na revista científica eLife, e pesquisador da Universidade da Pensilvânia (EUA). “Vimos que, eventualmente, os indivíduos copiarão o comportamento daqueles que estão próximos. Dessa forma, a empatia se espalhará e a cooperação poderá emergir”, complementou o autor do estudo.
Para Alexandre Elias Pedro, psicanalista da Sociedade Internacional de Psicanálise de São Paulo, os resultados das pesquisas são extremamente plausíveis. “Quando demonstramos empatia, nós precisamos sentir afinidade com a pessoa, e é isso que se vê nesse primeiro estudo também. Para que isso ocorra, é necessário um esforço mental maior. É preciso desenvolver a afinidade. Por que eu vou sentir a dor de um desconhecido? Isso exige um gasto, um esforço maior que meu campo emocional, eu tenho que entrar no território de outra pessoa”, destacou o especialista, que não participou do estudo.
Segundo Pedro, os dados vistos nos estudos podem ajudar a desenvolver estratégias que estimulem a empatia. “Isso é possível, mas acredito que temos que tratar na raiz para ter um retorno maior. Sabemos que a família influencia muito o comportamento de uma pessoa, é algo meio que herdado. É essencial que os pais passem esses conceitos aos seus filhos, para que eles possam ter mais facilidade de exercitar sentimentos de compaixão e mais amor ao próximo, seja um refugiado, seja uma pessoa que está na rua pedindo um pedaço de pão”, assinalou.
De acordo com o psicanalista, analisar diferentes gerações poderia ser um próximo objeto de estudo de pesquisadores. “Seria interessante observar o comportamento de pais e filhos para entender como a criança desenvolve esse processo. Esse tipo de mapeamento pode contribuir para uma evolução da sociedade nesse quesito”, opinou o especialista.

HUMANISTA Carl Rogers foi um psicanalista americano que se destacou com seus trabalhos na área humanista. Seu tipo de psicanálise se diferenciou de terapeutas da época em que ele se destacou, na década de 1980, pois usava métodos distintos, como a fala livre, na qual fazia apenas poucas intervenções durante o atendimento aos pacientes. Rogers usou três conceitos que, posteriormente, foram agregados por toda a psicologia: a congruência (ser o que se sente), a empatia e a aceitação condicional, fundamentada em aceitar defeitos e angústias. Suas ideias também tiveram grande influência na criação da Comunicação Não Violenta, que consiste em técnicas para aprimorar relacionamentos profissionais e não profissionais.

Palavra de especialista

Raiane Nogueira, psicóloga do instituto Castro e Santos, em Brasília

Uma peça de quebra-cabeças

“Esses autores estão, com certeza, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre o comportamento humano. Entretanto, é importante destacar que esses trabalhos são mais uma peça no grande quebra-cabeças da ciência. Estudos experimentais demonstram um retrato do fenômeno, isso quer dizer que ele não é capaz de apreender todas as variáveis envolvidas. Por isso, os resultados de qualquer pesquisa devem ser entendidos com cautela, ao tentar se generalizar para outros contextos mais complexos. Essa é uma parte do todo sobre o conhecimento científico sobre empatia. Entender os custos cognitivos associados à empatia pode auxiliar os psicólogos a entender o engajamento
ou não engajamento e comportamentos pró-sociais. Claro que a empatia não é a única variável”.


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