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Estado de Minas

Comer estressado faz engordar

Após experimento com ratos, pesquisadores alertam que, em situações de esgotamento emocional, a ingestão de guloseimas muito calóricas pode potencializar o ganho de peso


postado em 11/05/2019 05:08

Diante de uma situação de estresse é comum para algumas pessoas buscarem conforto em um alimento gorduroso, como um doce ou uma fritura. Esse tipo de comportamento pode gerar danos ao organismo mais graves do que se imaginava, conforme alerta um grupo de cientistas australianos em estudo publicado na última edição da revista Cell Metabolism. Em uma análise com camundongos, os especialistas descobriram que uma dieta altamente calórica, quando combinada com descontroles emocionais, pode resultar em um ganho de peso potencializado. Isso ocorre devido à ação de uma proteína cerebral, chamada NPY, e a produção excessiva de insulina.

“Alguns indivíduos comem menos quando estão estressados, mas a maioria aumenta a ingestão de alimentos e, principalmente, o consumo de comidas ricas em gordura e açúcar”, explica Herbert Herzog, pesquisador da Instituto Garvan de Pesquisa Médica, na Austrália, e um dos autores do estudo. Para entender como funciona esse “estresse alimentar”, Herzog e sua equipe analisaram a atividade de diferentes áreas do cérebro de camundongos enquanto ingeriam alimentos gordurosos ou ricos em açúcar em duas situações emocionais distintas: estresse e relaxamento.

Como resultado, os pesquisadores observaram diferenças no efeito do consumo dos alimentos gordurosos no organismo das cobaias. “Nosso estudo mostrou que, quando os animais estavam estressados por um longo período, e os alimentos de alto teor calórico estavam disponíveis, eles se tornaram obesos mais rapidamente do que aqueles que consumiam os mesmos alimentos ricos em gordura em situações emocionais normais”, detalhou Herzog.

Os cientistas também constataram que no centro desse ganho de peso estava a ação de uma molécula chamada NPY, que o cérebro produz naturalmente em resposta ao estresse para estimular a alimentação, tanto em humanos quanto em roedores. “Descobrimos que, quando desligamos a produção de NPY na amígdala, o ganho de peso foi reduzido. Sem NPY, o ganho de peso em uma dieta rica em gordura com estresse foi o mesmo que no ambiente livre de estresse. Isso mostra uma ligação clara entre estresse, obesidade e NPY”, detalhou o autor.

CICLO VICIOSO Para entender melhor a atividade de NPY em situações de estresse, os cientistas analisaram as células nervosas responsáveis pela produção dessa molécula na amígdala cerebral. Nos experimentos laboratoriais, eles observaram que as produtoras de NPY tinham receptores para a insulina. Na pesquisa, eles verificaram ainda que o estresse crônico, por si só, elevava os níveis de insulina apenas ligeiramente, mas, em combinação com uma dieta altamente calórica, os níveis de insulina eram 10 vezes maiores do que nos ratos livres de estresse e com dieta normal.

“Ficamos surpresos que a insulina teve um impacto tão significativo nesse processo. Nossas descobertas revelaram um ciclo vicioso, em que níveis crônicos de insulina, impulsionados pelo estresse e por uma dieta altamente calórica, promoviam uma alimentação cada vez maior”, complementou o autor do estudo. “Em níveis normais, a insulina envia sinais cerebrais para que a pessoa pare de comer. Nesse caso de desregulação, essa mensagem não é recebida”, complementou Herzog.

Embora o desequilíbrio de insulina esteja no centro de várias doenças, o estudo indica que ela tem mais efeitos no cérebro do que se pensava anteriormente. “Está ficando cada vez mais claro que a insulina não afeta apenas as regiões periféricas do corpo, mas regula as funções do cérebro. Esperamos explorar esses efeitos ainda mais no futuro”, ressaltou Herzog.

Para os cientistas, os resultados da pesquisa representam mais um alerta para que as pessoas tomem cuidado com a alimentação, principalmente em momentos de desequilíbrio emocional. “Nossos dados reforçam a ideia de que, embora já se saiba que é ruim comer junk food, ingerir alimentos altamente calóricos sob estresse é um golpe duplo, que impulsiona o sobrepeso. Esse estudo indica que temos que estar muito mais conscientes sobre o que estamos comendo quando estamos estressados, para evitar um desenvolvimento mais rápido da obesidade”, frisou o cientista australiano.

Na avaliação de Cristiane Moulin, endocrinologista da clínica Metasense, em Brasília, o estudo pode abrir portas para estratégias de prevenção à obesidade. “A ação de drogas que possam inibir a ação desses mecanismos vistos na pesquisa pode ser um caminho futuro de investigação, já que esses dados ampliam os alvos terapêuticos”, comentou a especialista. Moulin também ressalta que as escolhas alimentares são essenciais para se proteger da obesidade. “Acredito que é necessário aprender a ter mais atenção nesses momentos de estresse, controlar os impulsos em vez de procurar alimentos reconfortantes. Acho que, atualmente, muitas pessoas já têm buscado isso, praticando atividades físicas como a ioga e o tai chi chuan, que buscam justamente o autocontrole”, opinou.

 

 

 

saiba mais

 

um Quadro
bem complexo

 

 

 

“A relação entre o estresse – bem como a depressão e a ansiedade, de modo geral – e a obesidade já é conhecida. Por isso, o quadro da obesidade é tão complexo. São vários os fatores que contribuem para o surgimento e o desenvolvimento da obesidade. Além disso, essa doença frequentemente vem acompanhada de outros problemas. As estratégias usadas para o tratamento devem envolver uma profunda mudança de hábitos da família, incluindo a forma como ela lida com o estresse. Sabemos, por exemplo, que a dificuldade dos pais em definir regras é um fator que pode produzir estresse e favorecer a obesidade infantil. Portanto, existem estudos revelando evidências de que o tratamento da obesidade dirigido à família apresenta melhores resultados do que tratamentos individuais. Com as descobertas do artigo em questão, tomamos conhecimento de alguns mecanismos fisiológicos ativados pelo estresse e que operam no corpo para o ganho de peso. Na realidade, as pesquisas se complementam e convergem para o aperfeiçoamento das estratégias atuais”.

 Vladimir Melo, psicólogo e autor do livro Obesidade Infantil: Interações Familiares e Ciclo de Vida Numa Perspectiva Sistêmica


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