Conteúdo para Assinantes

Continue lendo ilimitado o conteúdo para assinantes do Estado de Minas Digital no seu computador e smartphone.

price

Estado de Minas Digital

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas digital por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Benefícios da malhação noturna

Estudos revelam que atividades físicas à noite geram mais resultados também em humanos, indicando como o relógio biológico pode contribuir para o sucesso dos treinos


postado em 20/04/2019 05:06

É consenso que o exercício físico proporciona uma série de benefícios ao corpo humano, o que já se comprovou largamente na área médica. Agora, dois estudos internacionais – um israelense e um norte-americano – mostram que o período do dia em que as atividades são realizadas pode ser determinante nos resultados dessas atividades. Por meio de experimentos em ratos, os pesquisadores observaram que os animais que se exercitavam durante a noite apresentavam maiores ganhos ao organismo. Os especialistas acreditam que a diferença pode estar relacionada ao relógio biológico de cada indivíduo. As descobertas foram publicadas na última edição da revista especializada Cell Metabolism e podem ajudar, futuramente,  na definição de estratégias mais eficientes de perda de peso.

Os dois grupos de cientistas analisaram a associação entre a hora do dia em que o exercício é realizado e o desempenho gerado ao organismo. “É bem-sabido que quase todos os aspectos de nossa fisiologia e metabolismo são ditados pelo relógio circadiano”, explicou Gad Asher, pesquisador do Departamento de Ciências Biomoleculares do Weizmann Institute of Science, em Israel, e autor de uma das pesquisas. “Isso é verdade não apenas em humanos, mas em todos os organismos sensíveis à luz. Por isso, decidimos investigar se existe uma conexão entre a hora do dia e o desempenho no exercício”, complementou o especialista.

Em um dos experimentos, a equipe liderada por Asher colocou os ratos para se exercitarem em esteiras em diferentes momentos do dia. Eles examinaram os efeitos de atividades de intensidades distintas. Os pesquisadores observaram que o desempenho geral do exercício no organismo dos animais foi substancialmente melhor (cerca de 50%, em média) à noite, em comparação às atividades matutinas. Esse efeito só não foi visto em ratos que tinham relógios biológicos incomuns – que trocam a noite pelo dia.

Para tentar entender essa diferença, os cientistas analisaram minuciosamente o tecido muscular dos animais. Com a análise, eles descobriram que, no período noturno, havia níveis mais altos de um metabólito chamado ZMP, conhecido por ativar vias metabólicas relacionadas à glicólise e à oxidação de ácidos graxos. Os pesquisadores acreditam que esses níveis mais altos de ZMP contribuem para um melhor desempenho de exercício realizado à noite.

“Curiosamente, o ZMP é um análogo endógeno de aminoidoide carboxamida riboside (AICAR), um composto que alguns atletas usam para doping”, destacou Asher. Os pesquisadores também estudaram 12 humanos e encontraram efeitos semelhantes. No geral, os participantes do estudo tiveram menor consumo de oxigênio durante o exercício à noite em comparação com o realizado pela manhã, e isso se traduziu em melhor eficiência no exercício.

EFICIÊNCIA Os experimentos da segunda equipe de pesquisa foram realizados de forma semelhante. Os cientistas colocaram uma série de ratos para se exercitar em esteiras durante horários distintos do dia. As análises em tecidos musculares revelaram detalhes até então não verificados. Os pesquisadores observaram que uma proteína, chamada fator 1-alfa indutível por hipóxia (HIF-1alfa), desempenha papel importante na perda de peso, sendo ativada pelo exercício de diferentes maneiras, dependendo da hora do dia. Quando os animais se exercitavam durante a noite, essa proteína era mais expressiva. “Faz sentido que o HIF-1 alfa seja importante, mas até agora não sabíamos que seus níveis flutuavam com base na hora do dia. Essa é uma nova e empolgante descoberta”, revelou Paolo Sassone-Corsi, pesquisador do Centro de Epigenética e Metabolismo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e autor do segundo artigo científico.

Os pesquisadores ressaltaram que, embora os relógios circadianos tenham sido conservados ao longo da evolução, traduzir as descobertas para os seres humanos não é tão simples. Uma razão para isso é que os humanos têm uma maior variação em seus cronótipos (sincronização dos ritmos circadianos) do que os ratos que vivem em um laboratório. “Você pode ser uma pessoa matinal, ou você pode ser uma pessoa da noite, e essas coisas devem ser levadas em conta”, detalhou Sassone-Corsi. “Os ritmos circadianos dominam tudo o que fazemos. Estudos anteriores do nosso laboratório sugeriram que pelo menos 50% do nosso metabolismo é circadiano, e 50% dos metabólitos do nosso corpo oscilam com base no ciclo circadiano. Faz sentido que o exercício seja uma das coisas que são afetadas”, complementou.

Para Amauri Araújo Godinho, neurologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurologia (SBN), os resultados verificados nos dois estudos científicos internacionais ainda não podem ser interpretados como uma regra a ser aplicada em humanos devido a uma série de distinções entre as duas espécies. “Além da questão do ciclo circadiano, temos outros fatores como os hormônios, por exemplo. Nós temos picos de cortisol durante a manhã, um hormônio que ajuda no desempenho físico, que nos dá energia, e ele sofre uma queda logo durante a noite. Outro ponto a se destacar é que, quando realizamos exercícios, nós liberamos endorfinas, elas nos deixam alertas. Fazer isso no período noturno pode atrapalhar uma noite de sono”, ressaltou o especialista, que não participou das pesquisas.

Apesar da necessidade de aprofundamento dos experimentos sob esses aspectos, o neurologista disse acreditar que o relógio biológico pode, sim, influenciar o desempenho fisiológico, assinalando que ainda é preciso entender melhor quais os seus efeitos no corpo humano. “Esse tipo de pesquisa corrobora algo que tem sido cada vez mais explorado dentro da medicina, a individualidade como um fator importante de análise. Pode ser que uma pessoa mais noturna se dê melhor com a realização de exercícios feitos durante a noite, não somos todos iguais”, frisou o médico.

Godinho também ressaltou que a substância observada no primeiro estudo pode ajudar a explicar uma questão que intriga especialistas há tempos. “Essa substância ZMP, que é usada para doping, poderia ajudar a entender por que algumas pessoas têm desempenho maior em relação ao esporte, como o corredor Usain Bolt, por exemplo. Se o corpo dele produz mais essa substância, isso já explicaria porque ele foi tão bem-sucedido em sua carreira. É uma hipótese que pode ser levantada com essas descobertas”, opinou o médico.


Publicidade