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Satisfação com a aparência em off-line

A participação ativa em redes sociais pode afetar negativamente a forma como mulheres jovens enxergam e valorizam o próprio corpo, mostra estudo canadense


postado em 01/12/2018 05:05

As redes sociais conseguiram diminuir distâncias e fazer com que as pessoas mantenham contato mesmo estando em cidades e países diferentes. Essa proximidade, porém, pode gerar prejuízos. Um deles é a construção de uma autoimagem negativa do corpo, segundo estudo canadense. Após experimento com mulheres jovens, os pesquisadores da York University observaram que aquelas que se envolviam ativamente com imagens postadas por amigas e colegas que consideravam mais atraentes se sentiam pior quanto à própria aparência. Segundo especialistas, para combater ou minimizar esse efeito negativo, é necessário usar com bom senso as ferramentas de relacionamento virtual.


A pesquisa foi conduzida com 118 alunas de graduação, de diversas origens étnicas, com idade entre 18 e 27 anos e que davam “curtidas” ou comentavam fotos de pessoas que consideravam mais atraentes do que elas. Esse perfil foi filtrado por meio de um questionário on-line preenchido seis semanas antes do experimento. Segundo as autoras, o foco do estudo era a forma com que jovens mulheres interagem com imagens compartilhadas na internet e como esse comportamento pode afetar o que elas sentem sobre o próprio corpo.


“Sabíamos, de pesquisas anteriores do nosso laboratório, que as mulheres jovens, em particular, usam muito as mídias sociais e gostam de postar fotos de si mesmas. Para esse estudo, estávamos interessados na atividade de pessoas que olham e comentam as fotos de mídia social dos outros”, conta ao Estado de Minas Jennifer Mills, professora-associada do Departamento de Psicologia da universidade e uma das autoras do estudo, publicado na revista Body Image. Jacqueline Hogue, estudante da universidade canadense, também participou do trabalho. “Essa investigação foi a tese de mestrado da minha aluna e parte de um programa maior de pesquisa que estou conduzindo sobre a relação entre mídias sociais e imagem corporal”, detalha Mills.


Cada participante recebeu um questionário em que deveria indicar, usando uma escala gradativa, como estava satisfeita ou insatisfeita com a própria aparência ou imagem corporal. As voluntárias foram, então, aleatoriamente designadas para executar tarefas distintas. Cada integrante de um grupo teve que acessar o Facebook e o Instagram por ao menos cinco minutos e encontrar uma colega com a mesma idade que achasse ser mais atraente do que ela. Depois de olhar as fotos, era preciso deixar um comentário.


No segundo grupo, as voluntárias foram orientadas a acessar a conta de alguém da família que considerassem menos atraente e a comentar sobre um post desse indivíduo. “Nós hipotetizamos, com base na teoria da comparação social em psicologia, que as pessoas tendem a se sentir piores quando se comparam com alguém que consideram mais atraente. Por isso, projetamos o estudo para que as duas condições criassem efeitos diferentes na imagem corporal (par atraente versus membro da família)”, justifica Mills.


Os dados mostraram que as opiniões das participantes sobre a própria aparência não foram afetadas quando elas interagiram com familiares. Porém, as mulheres se sentiram piores em relação ao próprio corpo após comentar as fotos de colegas. “Essas jovens se sentiam insatisfeitas, pior com a própria aparência, depois de olhar as páginas de mídia social de alguém que consideravam mais atraente. Mesmo que já se sentissem mal antes de entrar no estudo, elas se sentiram ainda pior depois de completar a tarefa”, ressalta a autora.

MAIS REAL A dupla de pesquisadoras acredita que os efeitos negativos gerados pela interação com conhecidos podem ser justificados pela proximidade, que impulsiona ainda mais a comparação entre as mulheres. “Acho que nossos resultados são um pouco diferentes de pesquisas sobre os efeitos da publicidade e da mídia porque nossas voluntárias estavam olhando pessoas ‘reais’, o que provavelmente afeta ainda mais. Nós pensamos que devemos ou poderíamos ser tão bonitas quanto as pessoas que conhecemos. Em outras palavras, os colegas são um alvo de comparação mais realista do que os modelos profissionais, que são inspiradores, mas não necessariamente pensamos que podemos ou devemos ser como eles”, compara  Mills.


Segundo Kassiana Pozzatti, psicóloga clínica e escolar, o efeito visto na pesquisa é algo que ocorre principalmente durante o início da adolescência. “Na época em que eles começam a ter a percepção do outro por interesse, aos 13, 14 anos, notamos essa comparação exagerada. Nós também vemos que, hoje, as meninas não se comparam mais com a capa da revista, algo que parecia distante para as mulheres. Agora, se comparam com a colega de classe, uma pessoa que senta ao lado, o que gera um efeito mais forte”, diz. A psicóloga também acredita que o mesmo ocorra com os homens, sendo que, geralmente, não envolve o físico. “Esses jovens sempre comparam se o colega é mais bem-vestido ou se tem mais dinheiro e se sentem mal com isso”, ilustra.


Nicole Bacellar Zaneti, psicóloga do Instituto Castro e Santos (ICS), em Brasília, diz que as comparações geradas pelas interações nas redes sociais também estão relacionadas a construções passadas e atuais ligadas ao corpo da mulher e fomentada pelas mídias. “Ao se compararem com conhecidas, isso afeta de forma negativa as mulheres e mexe com sua autoestima. Essa reação também está relacionada à construção social e cultural a respeito de um determinado corpo, que somos cobradas a tê-lo há muito tempo”, observa. “Ao tentar se encaixar nesses padrões estabelecidos pela sociedade, você adoece. Mas seu referencial precisa ser você,  não o outro.”

 

Comparações podem ser perigosas

 

A pesquisadora canadense Jennifer Mills explica que, principalmente na faixa de 18 a 20 anos, a aparência é muito importante, e as mulheres se preocupam mais com a forma com que são percebidas. Nesse período, também são mais propensas a usar as mídias sociais. “Acho que, em muitos casos, as jovens que postam nas redes esperam conseguir um reforço positivo para o que estão publicando, e que a forma como as mulheres usam essas ferramentas é mais baseada na aparência”, observa. “Mas quando nos comparamos com outras pessoas, isso tem o potencial de afetar a avaliação que fazemos sobre nós mesmos.”


Segundo a professora, é preciso investigar melhor esse fenômeno para descobrir atitudes que possam abrandar os resultados detectados na pesquisa. Ela e Jacqueline Hogue, a outra autora do estudo, acreditam que o uso moderado das redes sociais pode ser um caminho seguro a seguir. “Ainda não sabemos quais estratégias podem ajudar a reduzir os efeitos negativos. A melhor saída pode ser evitar olhar tanto ou postar muitas fotos. Em outras palavras, provavelmente, é bom fazer pausas nas mídias sociais e ter outros interesses e atividades que não são relacionados à aparência”, sugere Mills.


A educação dos jovens quanto ao uso dessas ferramentas também é lembrada pela cientista. “Realmente precisamos educá-los sobre como o uso da mídia social pode estar influenciando a forma como eles se sentem em relação a si mesmos e como isso poderia estar ligado a dietas rigorosas, distúrbios alimentares e/ou exercícios excessivos. Existem pessoas propensas a esses problemas, que podem ser ‘acionados’ pelas mídias sociais. Elas são especialmente vulneráveis”, alerta.
A psicóloga Kassiana Pozzatti também acredita que apenas o bom senso quanto ao uso das redes sociais pode ajudar a combater o efeito negativo gerado pela comparação. “Para muitos dos meus pacientes passo tarefas que envolvem não acessá-las por um tempo. Eles precisam desinstalar por um período. Com isso, sempre vejo melhoras. Não é que a pessoa não possa usar, ela pode sim, mas da maneira correta, sem exagerar”, frisa. “Também trabalho a ideia de que aquele perfil da internet não é real. Sempre comparo com o filme Avatar, por ser muito semelhante. Aquilo não é real, é apenas uma imagem da pessoa no contexto digital.”


Nicole Bacellar Zaneti também acha que o uso moderado das redes sociais é uma boa saída, mas ressalta que o contato com elas pode gerar o efeito inverso: em vez da rejeição ao corpo, o seu aceitamento e o empoderamento. “Vejo alguns grupos de mulheres acima do peso, que fogem do padrão estabelecido, e elas postam fotos para mostrar a sua confiança, como uma maneira de externar a segurança e como amam os seus corpos”, ilustra a psicóloga. “Acredito que o uso das redes pode ser positivo sim, precisamos, na verdade, mudar a forma de interpretação dessas imagens, analisar a forma do nosso olhar.”

 

 

 


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