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Estado de Minas

Praticar a comunicação não violenta é o caminho para evitar ruídos e agressões

Quanto mais expor a verdade e se colocar no lugar do outro, maior a chance de compreensão


postado em 20/01/2020 13:00 / atualizado em 19/01/2020 22:16

(foto: Lelis)
(foto: Lelis)

Em tempos de haters (on-line ou não), a comunicação não violenta nunca foi tão fundamental. Aprimorar os relacionamentos interpessoais e diminuir a violência no mundo é o desejo de todos (ou quase todos). Usando a experiência como psicólogo clínico, o norte-americano Marshall Rosenberg desenvolveu um conjunto de técnicas que aprimoram os relacionamentos pessoais e profissionais. O método transforma padrões de pensamento que conduzem a discussões em ações pacíficas.

O brasileiro, sempre apontado como um povo pacífico, compreensivo e acolhedor, de uns anos para cá tem mostrado outra cara, bem mais irascível. Ou seja, as pessoas se irritam com facilidade, demonstram raiva com frequência e quase sempre estão exaltadas. A postura política, a polarização de pensamentos e o partidarismo, automaticamente, são apontados como os causadores e influenciadores desse “novo” comportamento. Quando, na verdade, muitos defendem que aquela ideia do brasileiro sempre gente boa, coerente, acessível e descomplicado é que está errada. No mínimo supervalorizada. Na real, as raízes se apresentam muito mais como seres agressivos, geniosos, coléricos, esquentados, irritáveis e zangados.

Seja qual for a origem desse comportamento, certo é que a busca tem de ser sempre por uma convivência pacífica, com todos aprendendo a respeitar, escutar e se comunicar com o outro. A psicóloga Janaína Fidelis, especialista em psicologia positiva, bem-estar e autorrealização, destaca que a comunicação não violenta se trata de uma ferramenta eficiente para capacitar aqueles que querem se desenvolver para estabelecer a confiança mútua entre pessoas e instituições. “Ela nos ajuda a reformular a maneira pela qual nos expressamos e ouvimos os outros, uma vez que se baseia em habilidades de linguagem e comunicação que fortalecem a capacidade de continuarmos humanos em nossas interações com o outro, mesmo em condições adversas.”

Por ser um conjunto de técnicas, Janaína Fidelis enfatiza que a comunicação não violenta (CNV) pode ser ensinada. Existem livros, cursos presenciais e on-line, vídeos na internet, artigos e muitos outros conteúdos que ensinam o uso dessa ferramenta. Contudo, o grande desafio é se manter vigilante para conseguir praticá-la. “Assim como qualquer outra mudança de comportamento, exercitar uma CNV requer dedicação, desenvolvimento e persistência. A CNV é como um músculo e precisa de exercício”, destaca.

"Muitas vezes, agimos sem perceber como nossas palavras, ações e até a nossa maneira de pensar podem gerar consequências negativas e tornar as relações tensas, superficiais ou sem nenhum propósito" - Janaína Fidelis, psicóloga (foto: Ativa Foto e Vídeo/Divulgação)

Janaína Fidelis diz que a comunicação não violenta é uma abordagem para se relacionar de uma maneira mais autêntica e “desarmada”. Ela pode ser usada em todas as conversas, discussões, reuniões, conflitos e nas mais diversas situações, pessoais e profissionais. A empatia é base da CNV. Uma comunicação clara e empática proporciona conexão genuína entre as pessoas, abrindo espaço para o diálogo e a negociação sobre caminhos mais sustentáveis de se relacionar.

A psicóloga explica que Marshall desenvolveu quatro passos que são considerados guias essenciais para garantir uma comunicação não violenta capaz de se conectar às necessidades e demandas de cada uma das partes envolvidas na interação. “Para praticar a CNV a pessoa deve separar fatos de julgamentos; reconhecer as emoções desconfortáveis; revelar necessidades que não estão sendo atendidas e firmar um acordo que viabilize a convivência futura.”

COMPAIXÃO

Em tempos estranhos, de embates em várias células da sociedade, a comunicação está mais violenta tanto no núcleo particular quanto no social: “Hoje, as pessoas estão muito conectadas às suas questões individuais e, quando isso ocorre, é difícil praticar a empatia. É possível ver movimentos voltados para a cooperação e comunicação não violenta, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido no que diz respeito ao 'olhar para o outro'. Somos acostumados a julgar e precisamos desenvolver mais nossa habilidade de fazer perguntas, entender melhor o contexto e quem está de frente para nós. É comum vermos pessoas expressando o que 'pensam' sem ao menos perguntar “o que aconteceu”, reforçando a percepção de pouco cuidado na comunicação”, lembra a psicóloga.

A falta de escuta agrava as interpretações. Então, é preciso encontrar uma maneira de lidar com quem tem uma comunicação violenta: “Imagine que você está em uma estrada movimentada, à noite e com chuva. O carro que vem na direção contrária está com o farol alto. O que ocorreria se você também aumentasse seu farol? Duas pessoas sem enxergar é pior do que uma. Então, o melhor neste caso é manter seu farol baixo, sinalizando dessa forma que o outro está errado. O mesmo vale para a CNV. A melhor forma de lidar com uma pessoa que tem uma comunicação violenta é sendo empático, dando o exemplo de como as relações devem ocorrer. Marshall já dizia: 'por trás de todo comportamento existe uma necessidade'. Em vez de julgarmos uma pessoa do porquê ela fez isso ou falou aquilo, devemos identificar quais são as necessidades dela que não estão sendo atendidas e comunicar isso”, chama a atenção Janaína Fidelis.

Convidamos o leitor a baixar a guarda e praticar a comunicação não violenta, se já não a exerce. Aliás, ela é uma meta inspiradora para cada um se comprometer a seguir como um dos objetivos em 2020. Que tal?

Fortalecer vínculos e amenizar conflitos
Para praticar a comunicação não violenta é preciso que cada um resgate a capacidade inata do ser humano de se expressar sem carregar na fala suas dores, frustrações e angústia

Responder na mesma moeda. Dar o troco. Falar no mesmo tom. Atitudes que, dependendo do contexto, só vão tornar a comunicação falha ao dar lugar para a violência em determinadas verbalizações. A psicóloga Janaína Fidelis, especialista em psicologia positiva, bem-estar e autorrealização, reforça que o objetivo da comunicação não violenta (CNV) é fortalecer vínculos, e não rompê-los. Portanto, é uma ferramenta poderosa na solução de conflitos. “Ela tem como premissa fazer com que as partes em conflito olhem para si e para o outro de modo a enxergar a mensagem que está por trás das ações e palavras, sinais de necessidades e demandas não atendidas. Por meio dela, o mediador consegue aproximar as partes envolvidas em um conflito, qualquer que seja, e fazer vir à tona pontos escondidos por trás dos questionamentos e descontentamentos dessas pessoas, facilitando o diálogo e a solução do problema.”

Com a aspereza da comunicação, será possível conversar sem julgar? Janaína Fidelis alerta que é difícil, mas possível: “O problema não está no julgamento, mas o que fazemos com ele. A CNV não nos ensina a não julgar, mas sim a não usar o julgamento na nossa comunicação com o outro. Costumo sempre dizer aos meus clientes de coaching de carreira: 'Pergunte mais, julgue menos'”. Na grande maioria das vezes, é impossível controlar o que pensamos e o julgamento surge na nossa cabeça. Mas, segundo a especialista, podemos treinar perguntas para nós mesmos para interagir mais em cima de fatos e menos de julgamentos. Depende de cada um se comunicar de maneira não violenta, não julgando na sua comunicação com o outro.

PALAVRAS E AÇÕES

A importância da comunicação não violenta é que a técnica, avisa Janaína Fidelis, pode ser aplicada em relacionamentos pessoais, familiares, organizacionais, educacionais, em negociações, disputas e conflitos de qualquer natureza, estabelecendo relações mais profundas, afetivas e eficazes. “A CNV é um convite para termos conversas corajosas em todas as áreas da vida.”

Assim, reforça Janaína Fidelis, todos podem praticar a comunicação não violenta. Há desafios, claro, mas para mudar é preciso querer: “O autoconhecimento é a base de tudo. Saber quais são nossos padrões de comportamento, como tendemos a lidar com diferentes situações e como interagimos são passos essenciais para praticar a comunicação não violenta e nos relacionarmos de maneira saudável”.

Para a psicóloga, se formos capazes de escutar nossos próprios sentimentos e necessidades, entrando em empatia com eles, poderemos exercer a empatia com o outro. “Toda mudança começa com a consciência para a necessidade de mudar. Mas só isso não é suficiente. É preciso querer mudar e ter uma comunicação não violenta. Devemos saber diferenciar intenção de impacto. O que determinará se minha comunicação foi empática ou não está mais relacionado ao impacto gerado no outro do que na minha intenção. Muitas vezes, agimos sem perceber como nossas palavras, ações e até a nossa maneira de pensar podem gerar consequências negativas e tornar as relações tensas, superficiais ou sem nenhum propósito. Conhecer e praticar a CNV ajuda a melhorar a forma de interagir com o outro e com o mundo.”

A chave para os relacionamentos

Mais do que nunca, saber se comunicar é muito importante em qualquer área da vida. Viver em sociedade implica, quase que necessariamente, na comunicação. Infelizmente, nem sempre as pessoas conseguem ser bem-sucedidas nesse ponto e acabam criando atritos nos relacionamentos, gerando distanciamento e até mesmo rompendo laços importantes porque não souberam como entender o que a outra pessoa queria dizer.

(foto: Gerd Altmann/Pixabay)
(foto: Gerd Altmann/Pixabay)

“O grande propósito da comunicação não violenta é resgatar a capacidade inata que todo ser humano tem de se expressar sem violência, ou seja, de uma maneira que consiga dizer o que sente, mas sem carregar na fala suas dores, frustrações, angústia e outros sentimentos não saudáveis e, portanto, não ferir o outro”, explica Camila Cury, psicóloga e presidente da Escola da Inteligência, que aplica o programa de educação socioemocional, idealizado por Augusto Cury.

Camila Cury enfatiza que há quatro pontos importantes que devem ser avaliados quando se pensa em melhorar a comunicação: “O primeiro deles é observar as pessoas e as situações sem julgar, fazer o exercício de ler tudo o que está ocorrendo de uma maneira neutra, sem muitos apontamentos. Olhar para as pessoas de forma que, mesmo que você não entenda os motivos, saiba que deve existir uma boa razão para determinadas atitudes”.

O segundo ponto é saber identificar e dar nome aos sentimentos. Em meio a uma situação ruim, é preciso entender que, às vezes, era você que estava colocando uma expectativa alta em uma pessoa ou um momento específico: “Com o tempo, conseguimos adquirir maturidade suficiente para entender que nossos pensamentos e sentimentos têm muito mais a ver com a gente, com a nossa história, do que necessariamente com o outro. Então, desse lugar seguro, é mais fácil ter essa leitura equilibrada das coisas. Muitas das coisas que atribuímos ao outro na verdade são nossa responsabilidade”.

FRUSTRAÇÕES

Outra importante iniciativa é não culpar os outros pelas situações que ocorrem na vida. “Se responsabilizar pelas suas atitudes, comportamentos, escolhas e decisões, por exemplo, fará com que toda a expectativa seja real e não idealizada. Portanto, diminuirá o impacto dos momentos nos quais a outra pessoa não faz o que foi imaginado.”

E, por último, Camila Cury chama a atenção para o que muitos não conseguem: saber fazer pedidos e dizer, com clareza, o que quer ou espera. “Vale a pena dizer sempre a verdade. As pessoas não dizem exatamente o que estão esperando e imaginam que, mesmo assim, serão compreendidas rapidamente e correspondidas. Mas se não houver clareza no que se espera é bem mais provável que haja frustrações. O exercício é falar sem medo o que se espera. Nunca saberemos o que se passa na mente do outro. Por isso, quanto mais soubermos como expor o que está dentro de nós, mais chances teremos de ter uma comunicação limpa, sem ruídos e interferências. Olhar para si e se colocar no lugar do outro é sempre uma chave para relacionamentos mais sadios e transparentes.”

(foto: Izabel Chumbinho/Divulgação)
(foto: Izabel Chumbinho/Divulgação)
DEPOIMENTO

Leandro Cardoso, jornalista e professor de comunicação

Multiplicador da ideia


“Pratico a comunicação não violenta muito antes de ela ser tão difundida. Claro que, depois de ler mais sobre o tema, a minha comunicação com as pessoas melhorou, principalmente quando a entendemos como um método de linguagem. Digamos que quem convive mais tempo comigo percebe e é mais beneficiado. Minha mãe, por exemplo, que é de uma geração muito diferente, não sabe o que é a comunicação não violenta, mas acaba praticando a partir das experiências que têm comigo. Nunca falei como ela deve ou não se comunicar com as pessoas, simplesmente pratico com ela, e ela replica, naturalmente. No trabalho, com meus colegas, também sou uma espécie de multiplicador. É uma forma de evitar conflitos ou lidar com os problemas de forma madura. Como praticante do método, me considero multiplicador dessa ideia. Não costumo apontar os erros das pessoas ou adjetivá-las. Comunicação não é o que falo, comunicação é o que o outro entende. Em sala de aula, por exemplo, cada aluno tem sua forma de interpretar a vida, seus costumes, sua cultura. Sendo assim, cada um necessita de um cuidado especial da minha parte. Quando percebo que um aluno não entendeu determinado comando durante as aulas, me esforço para adaptar minha comunicação. Não faço juízo de valores. É assim que há mais de 15 anos atuo ministrando cursos de comunicação. Na prática funciona assim: um colega de trabalho gosta de ouvir música com volume mais alto e isso o incomoda. Você tem a opção de falar 'cara, você acha que está na sua casa pra ouvir música assim?', ou 'você divide o espaço de trabalho com outras pessoas, que podem gostar ou não das mesmas músicas que você gosta. Sugiro que coloque o fone para ouvir suas músicas preferidas'.”

Os quatro passos

Conheça as atitudes essenciais para garantir uma comunicação não violenta, conforme Marshall Rosenberg, psicólogo clínico norte-americano, criador do método:

1 - Observação: observar sem julgar

2 - Sentimentos: identificar os sentimentos

3 - Necessidades: reconhecer e assumir os sentimentos

4 - Pedidos: quem consegue expressar aquilo que observa, sente e necessita fará um pedido de forma clara e objetiva com o desejo de satisfazer suas necessidades. Pedirá de forma genuína


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