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Estado de Minas

Resgatar o real sentido da vida

O que determina a escolha dos seus pratos? Quem segue o movimento comfort food privilegia a comida que, de alguma forma, o conecte a um plano emocional que gere afeto e conforto


postado em 16/06/2019 04:04

Juliana Nakabayashi, nutricionista, lembra que apreciar uma refeição tranquila nos devolve a simplicidade da vida(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press )
Juliana Nakabayashi, nutricionista, lembra que apreciar uma refeição tranquila nos devolve a simplicidade da vida (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press )






“O comfort food surgiu desde que o homem é homem e que comida é comida. Apenas ganhou um nome chique nos últimos anos. Não é oposição a nada. Está presente em nós, já que à medida que crescemos alguns alimentos passam a representar algo muito especial e forte. Pode ser o cheiro, o sabor, o ambiente, quem prepara ou tudo isso junto. E isso gera emoções e sensações agradáveis. Sabe quando você sente aquele cheiro de arroz refogando ou bife passando e imediatamente volta no túnel do tempo e recorda a comida da sua mãe?”, assim Juliana Nakabayashi, nutricionista e nutricoach, define a comfort food e procura, em seu trabalho, agir ajudando as pessoas a comer seus comfort food sem medo, porém, com atenção. Ela destaca que o alimento funciona como um fixador psicológico no plano emocional e, dessa forma, comer certos alimentos nos conecta a determinado local ou a quem os preparou. Ou seja, o ato de comer cristaliza estados emocionais, gerando afeto e conforto.

Por outro lado, a nutricionista enfatiza que comida que conforta não é sinônimo de comida de verdade. O comfort food pode ser um alimento natural/caseiro ou não. O bombom Sonho de Valsa pode ser especial para alguém. Qualquer comida. Esse termo não foi usado para separar os alimentos entre saudáveis dos não saudáveis. Ele é usado mais para dizer sobre o afeto, o bem-estar e a sensação que a comida gera na pessoa.

Hoje, com um ritmo de vida alucinado, fica mais evidente a busca por acolhimento por toda parte e acaba sendo natural procurá-lo também na comida: “Num mundo em que a vida anda no piloto automático e repleta de exigências, apreciar uma refeição simples, em que o cardápio é uma comida mineira feita no fogão a lenha, nos devolve a simplicidade da vida. O mesmo serve para aquela broa de milho acompanhada de um café recém-coado e feito com tanto mimo pela vozinha querida. Então, diria que a busca é pelo resgate do real sentido da vida por meio dos sabores e aromas”, enfatiza Juliana Nakabayashi.

Nesse universo, imagina-se que há uma ligação entre o comfort food e o mindful eating. Para Juliana Nakabayashi, “não há uma relação direta, mas estão interligados e levam ao mesmo propósito que é comer apreciando o alimento sem julgá-lo (gordo, fit, light) e respeitando as vontades e necessidades do corpo. O mindful eating (comer consciente) é um estilo de vida em que a pessoa está atenta e presente enquanto se alimenta. Já o comfort food (comida que conforta) é o alimento que propicia bons sentimentos, boas recordações. É uma comida que faz você se sentir viva e bem”.

BUDISMO

Juliana Nakabayashi alerta que não existe cardápio comfort food. “O termo comfort food é apenas para dizer que existem comidas que confortam e aconchegam. E tem um fato importante. Muitas dessas comidas são calóricas e, por isso, há pessoas que estão deixando de comer. Isso é um problema, já que elas deixam de apreciar o que faz bem ao coração e à alma delas.” A nutricionista lembra que, caso a pessoa seja exagerada ou compulsiva, ela não precisa cortar esses alimentos e, sim, aprender a consumi-los de forma consciente. “É aí que o mindufl eating pode ajudar, evitando que a pessoa saia comendo no automático. Ela terá o apoio e aprenderá a comer com mais calma, sentindo o sabor, observando se está satisfeita ou não. Gosto muito da frase da nutricionista Sophie Deram: ‘Coma de tudo, não tudo’”.

Para Juliana Nakabayashi, há alimentos específicos que carregam a característica de ser “confortável”: “Normalmente, são os doces, quitandas e comidas típicas: como frango com quiabo ou tutu de feijão com lombo de porco. Mas pode ser qualquer outra comida e bebida. Até o chazinho que a avó fazia quando alguém estava doente é um comfort food. Assim como a goiaba apanhada no pé”. E a nutricionista revela qual é a sua lista comfort food: “São muitos! Amo pipoca desde antes de nascer, assim como milho cozido, arroz, bife, batata frita, bolo com café é uma paixão e, claro, tem o brigadeiro também. Minha mãe é doceira profissional e eu comia muitos doces na infância e adolescência”.

A nutricionista destaca que o comfort food não é o adversário da comida gourmet e nem da comida fitness, apesar de as pessoas radicais e rígidas na alimentação acharem isso. “Ele é apenas um termo para dizer que tem comidas que confortam e que está tudo bem eu comer com equilíbrio. Importante dizer que num mundo em que comer está com tantas regras, as pessoas que seguem uma alimentação baixa em calorias ou que retiram algum nutriente (como gorduras ou carboidratos) acabam não se permitindo comer seus comfort food. E, quando o fazem, sentem culpa, raiva, frustração. Há estudos que mostram que dietas restritivas engordam em vez de emagrecer. E que apenas 5% das pessoas que fazem dieta mantêm o peso eliminado. Então, baseada na alimentação intuitiva e consciente, ela deve ser variada e pode, sim, conter tanto os naturais (hortaliças, legumes e frutas) quanto doce, massa ou quitanda. É achar o equilíbrio entre eles. Criar terrorismo nutricional não é o caminho para uma nutrição saudável. O melhor caminho é o do meio, assim como ensina a filosofia budista.”


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