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Estado de Minas

Guardar mágoa


postado em 20/01/2019 05:08


Tenho uma cunhada que sempre foi minha amiga. Há dois meses, tivemos uma briga, quando descobri que ela tinha feito algumas coisas contra mim. Estou com uma mágoa profunda dela. Esse sentimento me acompanha sempre, mesmo em outras situações. Como resolver?

. Mariângela, de Manhuaçu (MG)

Em todos os caminhos de crescimento humano, tanto psicológico quanto espiritual, ênfase especial é dada à questão da mágoa. Não só pelo sofrimento que ela produz, mas também pelo transtorno que ela provoca nos relacionamentos. Qualquer que seja o nome que dermos a esse sentimento, seja mágoa, rancor, ressentimento ou vingança, ele se caracteriza por uma amargura na alma, uma sensação de injustiça a partir do mal que alguém nos fez.

Além da dor, o componente fundamental da mágoa é a sua permanência. É uma incapacidade de parar de sofrer, mesmo com o passar do tempo. E como é impossível levar nossa vida, sem sermos machucados de vez em quando pelas outras pessoas, tendo em vista a imperfeição da natureza humana, corremos o risco de acumular ferimentos e nos tornarmos pessoas amargas, desiludidas e sofredoras.

A mágoa é uma forma de guardar para depois coisas que não quisemos resolver na hora. Uma das características da vida é que ela só pode ser vivida no presente. O passado e o futuro, apesar de existirem na nossa cabeça, não têm existência real. Seria uma grande tolice imaginar que podemos respirar para amanhã, que podemos viver o ontem. O natural é que as coisas sejam vividas, mesmo as ruins, no momento em que elas ocorrem.

O sentimento da raiva, que é natural, tem por objetivo nos ajudar a resolver nossos problemas, incluindo as ofensas, traições ou quaisquer outros atos que as pessoas nos produzem. Quando somos inibidos na nossa raiva, quando temos medo de expressá-la, ela esfria dentro de cada um de nós e se transforma em mágoa.

Mágoa é toda raiva que ficou para depois. É a raiva dentro da geladeira. É o medo de resolver nossos conflitos com outras pessoas, no momento em que aparecem. Guimarães Rosa define magistralmente a mágoa no seu livro Grande Sertão: seredas:

“Mágoa é lamber frio o que o outro cozinhou quente demais para nós.”

A pessoa rancorosa apresenta, pelo exposto até aqui, as seguintes dificuldades:

– aceitar a imperfeição humana, idealizando uma realidade em que as pessoas nunca falhem com ela;

– na expressão da raiva, na colocação clara do seu desagrado diante do outro;

– viver o momento presente, sendo extremamente apegada ao passado.

Por isso, a pessoa que guarda mágoa, em geral, é também saudosista e culposa, características de quem vive no passado. Uma vez, porém, instalada a mágoa, só nos resta uma saída: o perdão. Se a mágoa nos envenena e machuca, o perdão nos alivia e cura.

Pode-se medir a sanidade psicológica de alguém pela sua capacidade de perdoar. O perdão é a ponte que nos faz sair da depressão para a alegria. “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos ofenderam.” Por que tanta dificuldade em perdoar? Porque há equívocos em torno do perdão que nos dificultam o exercício dele. Primeiramente, há uma crença falsa de que o beneficiário do perdão é a pessoa que nos ofendeu. O perdão é algo bom para quem perdoa. Perdoar é ficar livre da dor provocada pelo outro. É ficar livre daqueles que nos magoaram. É um presente dado a mim mesmo.

Em segundo lugar, há uma ideia igualmente falsa de que, ao perdoar, devemos “esquecer” o mal que nos fizeram e voltar a ter com a pessoa o mesmo relacionamento de antes. Perdoar não é esquecer. É apenas parar de sofrer. Não nos incomodar mais com o que ocorreu no passado. Devemos, porém, aprender com a experiência e, a partir daí, escolher qual o novo relacionamento que teremos com o “ofensor.” Perdoar não significa fazer de conta que nada ocorreu. Pelo contrário, temos de levar em conta a experiência, temos de tomar posição diante do que ocorreu, revendo a relação e, por isso mesmo, nos livrando do sofrimento. A mágoa deteriora os relacionamentos porque, em vez de resolver os problemas, ainda que com uma briga, guardamos a raiva no coração e ela se transforma em hostilidade, frieza e desprezo na relação, distanciamento sexual, traição e outras formas de vingança. “Que o Sol não se ponha sobre nossas iras.” A ira santa é aquela do momento presente, como a experimentada pelas crianças. A ira guardada para amanhã vira mágoa e fecha nossos corações para o amor.

Perdoar os outros é o presente que podemos oferecer a nós mesmos. Chega de carregar na alma as ofensas e os que nos ofenderam.


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