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Estado de Minas

Natal da renovação

Tem uma tonelada de livros que a acompanham por toda a vida, e que, neste momento, ocupam metade da sala


postado em 23/12/2018 05:02







Perto da época de Natal, ela tem vontade de se refazer, limpar tudo: dentro de si mesma, liberando o que é tóxico, que não cabe mais em sua vida. A casa também requer faxina, acabar com os entulhos, o que não se usa há muito. Até a árvore de Natal, guardada o ano todo, não tem mais serventia, pois era montada para o encantamento da mãe, de 91 anos, que partiu há 10. Os olhos dela brilhavam, como as luzes do pisca-pisca. Mas ela não está mais aqui e o Natal em família perdeu o gosto. As peças do presépio que ela amava foram doadas para uma nativa da Serra do Cipó. Piedade Fernandes de Jesus recebeu de presente a manjedoura com o Menino, que veio para amar os homens, e não a religião. Maria e José também estão no presépio de Piedade, que não arreda pé do Cipó enquanto não montar o presépio, uma tradição de mais de 100 anos, que aprendeu com a tataravó dela.
O presépio de Piedade é visitado até pelos integrantes do Circo de Soleil, quando estão no Brasil. A visitação inclui folia de reis, para cantar e abençoar a casa. Recebida com amor, vinho e moedas, a folia de reis vai percorrendo os caminhos da lapa, muito bem representada com plantas e folhagens no presépio de Piedade.

Quando chega o Natal, ela tem urgência de se refazer. Não sabe que roupa usar quando optou por morar dentro de um poema da Adélia Prado, numa casa sempre amanhecendo? Aqui, a simplicidade é um luxo, ostentação. Ela não sabe: olha, mexe, revira os pares de sapato by Virgínia Barros, de salto, de camurça e de couro. De saltos baixos é verdade, pois a idade não permite mais que ela desfile com sapatos nas alturas. A coluna reclama, os dedos dos pés se encolhem, ficam doloridos, se apertam. Tem que voltar para casa descalça, quando tenta usá-los.

São sapatos lindos, de cores inusitadas. Tem sapato vermelho, azul-anil e turquesa, com estampas de azulejos portugueses, com desenhos dos prédios de Niemeyer, com caixas de lápis de cor estampadas no couro. Sapatos apaixonantes, para circular pela noite de BH, pelos points de bairros nobres e descolados, como Savassi, Lourdes e Funcionários, entre outros.

Junte-se ao estilo dela colares, brincos, pulseiras, 1001 anéis da Mary, ex-design, que não cabem mais na caixa de adornos. Anéis de deixar as mulheres alucinadas, colares que envolvem o corpo e a alma, que dobram e se desdobram, apropriados para quem tem programação extensa. Para a mulher contemporânea, que vai ao teatro, a shows, que circula pelos bares e restaurantes de uma cidade inquieta, insone, fervilhante. Hoje, Mary Arantes também se refaz: faz quermesses inesquecíveis com produtos garimpados dos artesãos do país. São presentes feitos a mão. Preciosas coisas simples.

Ponham vestidos de renda da Ave Maria, a geometria da Plural, as obras de arte em forma de vestuário de Ronaldo Fraga, algumas peças da Patachou, e, não se esqueçam de uma ou outra da Graça Otoni, dos casacos da Mirella, grife que nem existe mais, mas que a acompanha pelos invernos de sua vida. Não se esqueçam das muitas echarpes de seda, de lã, de tricô, de linha e de tecidos com desenhos malucos. E os xales que ela tem aos montes, mas nunca consegue se ajeitar bem neles. Eles não cabem mais na vida dela.

Procurem no armário dessa mulher, tênis, chinelos, rasteirinhas, shorts, bermudas, roupas de praia ou de piscina e, quem sabe, de malha, para que ela se sinta à vontade em lugares que não exigem tantas roupas diferentes. Vocês, certamente, não vão achar, porque não combinam com ela, que só tem roupas e sapatos de cidade. Não tem o que vestir morando numa pequena vila. No máximo, duas calças jeans, que algumas pessoas aconselham-na a cortar e transformar em bermudas. Ela pede perdão: não sabe usar shorts e bermudas.

Pronto! Ela confessou todos os seus pecados de estilo. Abriu o armário, expôs as suas vísceras, o seu jeito de vestir e de viver. Ah, esperem. Ela tem também pratos brancos, com inscrições assim: ‘Uma mancha de vinho na toalha, alguém foi feliz aqui’. Tem taças de cristal para tomar vinho, só ou acompanhada. Tem toalhas de mesa e de banho, roupas de cama que estufam qualquer mudança. Tem até colchas de crochê tecidas por dona Amélia, sua mãe.

Pensam que acabou? Tem uma tonelada de livros que a acompanham por toda a vida, e que, neste momento, ocupam metade da sala. Ela também tem mania de panelas, que não cabem na sua vida atual. O bolo desandou, a comida passou do ponto, a água ferveu e derramou. Agora ela não sabe mais o que fazer com esse arquivo de vida.

Uma voz interna sopra aos seus ouvidos a cada Natal. Ela quer fazer uma limpeza sueca, para não deixar entulhos depois de sua partida. Olha que ela não tem apego nem a dinheiro, compartilha tudo. A cada mudança, se despe do que não tem mais valor para ela, do que não cabe, do que sobra, do que entulha. Aprendeu muito com o arquiteto Carlos Solano, amigo íntimo de dona Francisquinha, uma faxineira que vai destilando sabedoria, enquanto arruma a casa.

Aprendeu tudo isso com sua mestra Duas Tranças, que mora no alto de uma montanha. Ela faz pães, lida com ervas e flores e plantas. É uma fada. Detesta holofotes e vitrines. Prefere a montanha, fala com os elementais das plantas, ouve os pedidos de socorro da Terra e chora com ela.

Duas Tranças é fundamental na sua vida. E olha que ela é de uma simplicidade atordoante. Não vai a festas, não gosta de badalação, não faz jogo de aparências, porque vive do essencial. Prometeu visitá-la nessa nova casa. Quem sabe Duas Tranças a ajuda a fazer um novo guarda-roupa? Ou a idade traz esse doce sabor de liberdade? Pois Duas Tranças gosta é de saias rodadas e de xales.  Deixou os cabelos brancos emoldurarem a sua beleza natural. Ela cuida de si, da casa, do jardim, da horta e do quintal. Ainda tem tempo, energia e vitalidade para acolher todos os que a procuram, com afeto e mimos.

Duas Tranças também não abre mão de montar o presépio todos os anos. Emoção que se refaz ao vê-lo pronto antes do Natal. Ela faz uma viagem no tempo, quando o pai e a avó se dedicavam à montagem, na casa de Lagoa Santa, onde moravam. Detalhe: o presépio deles nunca ficava pronto. Ela tem ainda dois carneirinhos que eram deles. O presépio ainda está vivo no coração dela.


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