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Estado de Minas ESPERANÇA NO CAMPO

Corrida contra o relógio para ajustar lavouras ao tempo

Pesquisas avançam para que mudanças climáticas tenham menos impactos na agricultura. Existem hoje pelo menos 150 frentes de estudos realizadas pela Embrapa em todo o país


postado em 13/09/2018 16:10

 Efeitos dos períodos de estiagem mais prolongados são pesquisados pela estatal de pesquisa agropecuária(foto: Solon Queiroz - Esp. EM/D.A Press 29/10/15)
Efeitos dos períodos de estiagem mais prolongados são pesquisados pela estatal de pesquisa agropecuária (foto: Solon Queiroz - Esp. EM/D.A Press 29/10/15)

As projeções de mudanças climáticas e suas consequências na agricultura são determinantes para uma frente de 150 pesquisas da Embrapa, com o propósito de reduzir os impactos nas lavouras. A corrida contra o tempo e a escassez de investimentos são fatores preocupantes diante da progressão de temperaturas cada vez mais extremas e períodos chuvosos mais curtos e de grande intensidade.

De acordo com o coordenador da Embrapa Informática e pesquisador de mudanças climáticas Giampaollo Pellegrino o que se projeta para o clima futuro “são chuvas mais concentradas em uma época do ano, mais intensas e mais curtas, e intervalos maiores de período de seca”. As estimativas são baseadas em calendários históricos, a partir da percepção dessas mudanças, levando a busca de tecnologias que vão da aplicação ao material genético mais adaptável à seca, até técnicas de irrigação, ou sistema de manejo em áreas que vêm perdendo a capacidade produtiva.

Pellegrino aponta para algumas frentes que considera mais impactantes: estimativas de emissões de gases com levantamento de estoques de carbono no solo, plantas e ar, importantes para cálculos dos parâmetros nacionais do setor agrícola, contribuindo com as estatísticas internacionais no que se refere a florestas, pecuária e produção de grãos. Outro ponto diz respeito à adaptação às mudanças no clima, estimando vulnerabilidades através de zoneamento de riscos e a projeção de tecnologias em busca de tendências mais positivas em cenários condicionados a sistemas de manejo.

A Embrapa usa estudos de inteligência estratégica pra prospectar demandas necessárias de segurança alimentar. Eduardo Romano, pesquisador da Embrapa Recursos Energéticos e Biotecnologia, em Brasília, diz que a empresa tem várias linhas de estratégia para plantas mais tolerantes à seca, entre elas as transgênicas. “Precisaremos ter variedades mais tolerantes a longos períodos de estiagem, até porque utilizamos na agricultura 70% da água doce disponível no mundo. Com a perspectiva de aumento da população mundial em um bilhão de pessoas até 2050, é urgente a busca de soluções multidisciplinares de forma a garantir o aumento da produção de alimentos compatível com a disponibilidade hídrica e uma das linhas de pesquisa trata do desenvolvimento de variedades que tolerem maior tempo de estiagem”.

O pesquisador cita um exemplo de intragenia com o isolamento e transferência de um gen do café para uma planta modelo, que sobreviveu 40 dias sem água, em contraponto às outras plantas sem o gen do café que resistiram 17 dias. Ainda são experiências laboratoriais, em fase de comparação, mas que sinaliza para um modelo que aumenta a tolerância ao estresse hídrico.

Romano enfatiza a importância do setor público no desenvolvimento dessas tecnologias que necessitam de investimentos robustos, que de forma geral não são contemplados pela iniciativa privada. Os custos são altos porque demandam riscos e longos prazos de desenvolvimento. “A Embrapa almeja disponibilizar estas tecnologias em valores que permitam amplo acesso dos produtores”. O cientista se diz preocupado com anúncios recorrentes de cortes no orçamento de ciência e tecnologia, anunciados pelo governo federal. “São projetos estratégicos para o país. A interrupção de pesquisas têm efeitos muito negativos. É muito difícil retomá-la a partir do ponto em que foi paralisada, até mesmo porque o grupo de pesquisadores acaba se dispersando”. Ele diz que em vários anos atuando com pesquisador vê pela primeira vez o “desmantelamento de vários grupos de pesquisa e projetos estratégicos para o país”.

Uso da irrigação é opção à escassez de chuvas para o cultivo de hortaliças. Técnica vale também para outras culturas(foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press 10/2/14)
Uso da irrigação é opção à escassez de chuvas para o cultivo de hortaliças. Técnica vale também para outras culturas (foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press 10/2/14)


Alterações no clima

A Embrapa Hortaliças desenvolve linhas de pesquisas que visam buscar práticas capazes de mitigar os impactos das mudanças climáticas sobre as cadeias produtivas de hortaliças, adaptando seus sistemas às novas condições. O propósito é buscar a identificação de genótipos mais e melhor adaptados a estresses ambientais e o desenvolvimento de sistemas produtivos em ambiente protegido climatizado e de baixo custo, entre outros. Outro foco é a sistematização de métodos produtivos com menor emissão de carbono para atmosfera, tais como o Sistema Plantio Direto de Hortaliças.

O Sistema de Plantio Direto em Hortaliças (SPDH) segue três princípios básicos: o revolvimento localizado do solo, restrito às covas ou sulcos de plantio; a diversificação de espécies pela rotação de culturas, com a inclusão de plantas de cobertura para produção de palhada; e a cobertura permanente do solo.

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