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Estado de Minas EUROPA

A cara da nova direita francesa nas eleições presidenciais

De 1995 até 2012 a França foi governada pelo tradicional grupo político de centro-direita que atualmente opera sob o nome de Republicano


24/10/2021 04:00 - atualizado 23/10/2021 18:07

cartaz com retrato do político francês de Éric Zemmour rasgado
o voto da extrema direita, que há décadas se concentrava no sobrenome Le Pen, passou a se dividir com Éric Zemmour (foto: JOEL SAGET/AFP)

Se existe conexão entre o comportamento do eleitor e as forças da globalização ela é clara em áreas mais expostas a importações. Candidatos protecionistas são os preferidos onde há um fraco desempenho econômico após a abertura de mercado mal feita.

Entretanto, muito mais do que estar exposto a importações, a derrocada econômica vem da dificuldade de se integrar a cadeias globais de valor em posições vantajosas e exportar produtos e serviços que pagam bons salários e investimentos na economia local. Eleitor prejudicado compreende mais rápido do que ministro.

O mapa da desindustrialização e da inviabilidade de atividades econômicas tradicionais corresponde ao mapa dos votos que Marine Le Pen recebe nas eleições nacionais francesas desde quando passou a concorrer em 2012, herdando essa situação de seu pai.

De 1995 até 2012 a França foi governada pelo tradicional grupo político de centro-direita que atualmente opera sob o nome de Republicano, derrotando Sarkozy à reeleição. O ex-presidente enfrenta hoje um processo por corrupção eleitoral.

Daquela ocasião para cá os eleitores já experimentaram entregar o poder nacional ao Partido Socialista e depois ao ensaio incorporado por Emmanuel Macron, o qual busca se desvencilhar de partidos “tradicionais” para melhorar sua performance.

No primeiro semestre de 2022, o quinquênio de Macron chega ao fim, mas sua candidatura à reeleição parece ter lugar garantido no segundo turno. Apesar de enfrentar ferrenha oposição nas ruas, Macron é melhor avaliado do que foram seus predecessores Hollande e Sarkozy.

"O mapa da desindustrialização e da inviabilidade de atividades econômicas tradicionais corresponde ao mapa dos votos que Marine Le Pen recebe nas eleições nacionais francesas desde quando passou a concorrer em 2012"



A destruição da política partidária francesa cobra um preço. Um cenário muito diferente do da Alemanha, onde um partido de quase 150 anos de fundação, o SPD, voltará ao poder numa coalizão com outros dois partidos “tradicionais”.

Na Alemanha, as redes de conexão entre o Estado, empresas, partidos, bancos, trabalhadores e universidades funcionam tão bem como uma engrenagem Mercedes ou Volkswagen, e seguram a desindustrialização enquanto seguem viabilizando novas atividades econômicas lucrativas. Por outro lado, na França muita gente se sente entregue ao deus-dará padrão europeu. Que ainda provê muitas oportunidades e uma bela rede de proteção social, mas que não é suficiente para preservar a legitimidade de partidos.

Os franceses expressam hoje uma preferência por um segundo turno em que Macron enfrente novamente a extrema direita. A diferença é que o voto da extrema direita, que há décadas se concentrava no sobrenome Le Pen, passou a se dividir entre Marine Le Pen e Éric Zemmour.

A cara da nova direita é de um comentarista de televisão. Zemmour é o mais influente polemista francês da atualidade e nessa semana criou pegou um rifle numa feira de produtos de segurança pública e o apontou para jornalistas que o acompanhavam. Dizia rindo que “recuassem”. Suficiente para que diferentes interpretações o beneficiassem quando o vídeo viralizou.

"No primeiro semestre de 2022, o quinquênio de Macron chega ao fim, mas sua candidatura à reeleição parece ter lugar garantido no segundo turno"



Zemmour não confirma que será candidato, mas busca criar seu próprio partido para concorrer em abril de 2022. No sistema francês, para se candidatar a presidente basta ter o apoio de 500 entre cerca de 40 mil pessoas com cargos eletivos no país. Macron criou seu “movimento” um ano antes da eleição, ensinando o caminho ao seu concorrente.

Na intenção de votos, Zemmour pulou para segundo lugar, passando Le Pen. Ele se diz antissistema e prega contra as elites, mas estudou na mesma escola que elas. O que, aliás, o diferencia de Le Pen, que nunca conseguiu circular à vontade nos bairros mais badalados de Paris.

Zemmour é muito mais presidenciável, por assim dizer. E é uma página em branco em termos de economia e a burrice econômica ajuda muito aos candidatos de extrema direita pelo mundo. Direita em política é rede social, identidade, costume e discurso nacionalista. Ironia da história: poderíamos ser uma França Antártica, a colônia que franceses e índios da Guanabara tentaram implantar no Brasil no século 19.

Zemmour é bem articulado e consegue normalizar ainda mais a escatologia que inflama a extrema direita europeia. Diz que as pessoas pedem que ele “salve a França”, um país que já estaria em uma “guerra civil” cujo inimigo são estrangeiros que servem como proxy, equivocada, da globalização.

O encontro do inverno com os preços subindo – sobretudo da energia e do combustível – vai colocar os coletes amarelos de volta nas ruas. Zemmour diz que eles são “vítimas” de todos os que governaram a França nos últimos 40 anos.  Artimanhas de linguagem, o fato é que os franceses querem mesmo chacoalhar um sistema político que parece pouco confiável e eficaz. (Com Henrique Delgado)

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