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Estado de Minas PAULO DELGADO

Saída da Ford do Brasil era tragédia evitável, mas já anunciada

Único país entre as nove nações mais importantes da indústria automobilística no mundo que não tem montadora nacional, país é marcado pelo descaso


17/01/2021 04:00 - atualizado 17/01/2021 07:34

Embora, o Brasil tenha estruturado boa parte de sua economia e empregos na cadeia produtiva de automóveis, Ford, como outras empresas do setor , atendem às decisões das matrizes (foto: Werther Santana/Estadão Conteúdo %u2013 25/3/13)
Embora, o Brasil tenha estruturado boa parte de sua economia e empregos na cadeia produtiva de automóveis, Ford, como outras empresas do setor , atendem às decisões das matrizes (foto: Werther Santana/Estadão Conteúdo %u2013 25/3/13)
De tempos em tempos, a economia mundial se altera por conta de mudanças de tecnologia e regras do jogo comercial. Considerando que a segurança das firmas, assim como a dos estados, é garantida pela aquisição e manutenção de uma posição de vantagem com relação a organizações concorrentes, as mudanças são muitas vezes forçadas por firmas e estados interessados em assegurar para si uma posição de vantagem. Com a mudança de poder nos EUA, está sacramentada a coalizão no Atlântico Norte para colocar a tecnologia e as regras do comércio global a favor de uma nova agenda dos países ricos. A nova rota conta com a simpatia de China e Japão e um bom lugar para observar o novo jogo é a mudança da indústria automobilística.

A posição de especial impacto dessa indústria na matriz insumo-produto dos nove maiores PIBs do mundo (a nona posição sendo ocupada pelo Brasil) vai abrir uma temporada de reorganização global para possibilitar os investimentos necessários com vistas a capturar a maior parte dos   ga- nhos advindos da distribuição da especialização tecnológica. Nesse grupo, o Brasil é marcado pelo descaso de ser o único que não tem uma montadora de marca nacional. Apesar de ter estruturado boa parte de sua economia na cadeia produtiva que gera multiplicadores de emprego e renda em torno da indústria automobilística. E por mais poderosas que sejam, todas as montadoras obedecem a matrizes no exterior. O que fica claro em momentos de grandes reorganizações.

O anúncio de que a Ford vai parar a produção no Brasil era uma tragédia evitável, mas anunciada. Nessa primeira metade do século 21, a produção de automóveis em geral está passando por maior automação das fábricas, internet das coisas, veículos autônomos, abandono do petróleo como combustível, etc. A Mercedes também se foi reorganizar na Alemanha. O futuro do automóvel tradicional como conhecemos está com os dias contados no mundo.

A história do desenvolvimento mundial entrelaçando indústria automobilística e países hospedeiros explicou, até aqui, por que o Brasil foi bem-sucedido sem ter estratégia e inteligência competitiva. Tendo um povo que gosta de carro, pilotos consagrados, inventado um combustível próprio, quase todas as montadoras do mundo, percebe-se agora que foi muito menos bem-sucedido do que se tivesse governos e bancos de desenvolvimento com melhores e mais inteligentes estratégias de ação. A tal armadilha de governos sem influência mundial se agrava nesses momentos em que a economia global muda e o país não sabe, nem com quem, nem como, (re)negociar sua inserção internacional. O Brasil não é sócio, apesar de ter os predicados para ser.

Quando chegou ao país no início do século 20, a Ford fabricava automóveis no Sudeste para o mercado doméstico e extraía borracha no Norte, em redor da criada Fordlândia, para o mercado internacional de pneus, que se expandia junto com o crescimento da demanda por automóveis. Num início de século 20 com expansão industrial e urbanização organizadas em torno de automóveis movidos a petróleo e borracha, a jovem república cafeeira até que não estava tão periférica e desorientada. Hoje, a república é infinitamente mais rica, diversificada e capaz – tendo até se tornado autossuficiente no petróleo, que começa a declinar e a Petrobras não se dá conta e se recusa a se tornar uma universidade de energia. Mas a república parece ter perdido a noção de que precisa balancear estrategicamente commodities com indústria e tecnologia verdadeiramente de ponta (aquela que agrega valor ao produto e paga salários altos ao maior número de trabalhadores), porque seu maior ativo é sua enorme e criativa população.

Quem quiser ver esse cenário em dois tempos viaje de barco pelo Rio Tapajós, de Itaituba, no Pará, onde barcaças recebem grãos – sobretudo soja – que chegam ali de carretas e futuramente também de trem, até Santarém. O destino dos grãos é a exportação através do Oceano Atlântico. O uso das hidrovias e melhoria das demais infraestruturas de transporte é um dos aspectos fundamentais para garantir a competitividade daquilo que é produzido no Brasil e é uma das melhores conquistas dos últimos anos. Mas temos que prestar atenção para que os grãos passem por ali, mas parte da riqueza fique, para gerar mais prosperidade sustentável, valorizando a Amazônia. Afinal, como inquietante lembrança do que não deveria vir a ser, as barcaças que seguem de Itaituba passam pachorrentas justamente em frente da abandonada Fordlândia, símbolo das cruéis variações da inserção passiva dos países na economia internacional. Se a soja destruir a Amazônia, o mundo já avisou que vai plantar em outro lugar. (Continua dia 31)

* Com Henrique Delgado

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