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Estado de Minas Comportamento

Quem merece?

Recordar expressões que contêm juízos de valores


19/07/2020 04:00


 
Meu marido, que adora desenterrar expressões que já se perderam no tempo, sempre que deseja se fazer de humilde diz: “Para quem é, bacalhau basta!”, se referindo a ele mesmo. Costumo ouvir isso principalmente quando estamos com preguiça de preparar algo para comer e acabamos nos satisfazendo com uma comida bem simples, para não dizer qualquer coisa que se possa engolir. Para quem não conhece a expressão, quer dizer que algo sem muito valor é o suficiente para quem também não tem valor algum.
 
Fato é que este tipo de peixe foi barato no final do século XIX e como tal destinado apenas aos mais pobres. Era tão acessível que chegou a ser servido como prato principal em presídios, por exemplo. Meus bisavós relatavam que, quando imigraram da Itália para cá, sonhavam em comer alguma coisa diferente daquele enfadonho bacalhau servido diariamente. “Não tem um franguinho nunca?”, lamentava uma de minhas bisavós que ouvia como resposta chacotas e escárnios, pois afinal para quem os trazia nos navios “para quem era, bacalhau bastava”.
 
Outra expressão que costuma me remeter aos velhos tempos faz parte da história familiar de uma grande amiga. Nascida no Sul de Minas em terras de famílias tradicionais, ela conta que, nos idos dos anos 1950 e 1960, o valor das pessoas era medido pelo presente que ela deveria ganhar nas grandes datas comemorativas, como aniversário e Natal.
 
Dizer que certa pessoa não merecia Cashmere Bouquet era o mesmo que desqualificá-la como sendo alguém digno de uma atenção especial. Além do perfume, a linha tinha também talco, pó de arroz e sabonete e parou de ser produzida em 2009 no Brasil, quando já amargava sua decadência. Me lembro muito bem de já ter merecido Cashmere Bouquet em alguns momentos de minha infância e início da adolescência e de fato encantava como dizia o slogan dos produtos. Assim como me lembro que bacalhau nunca foi algo que me bastasse. Sempre esteve mais para algo que eu desejasse.
 
O interessante, quando recordamos expressões que contêm juízos de valores, é que percebemos que, mesmo que a passos lentos, conseguimos nos desvencilhar de tradições que agora se fazem sem sentido. Tanto eu e meu marido quanto minha amiga rimos quando nos veem à mente este tipo de equivoco que ditou regras em determinado período da história. Rimos principalmente do ridículo que elas continham e de como eram patéticas as relações entre pessoas que por algum motivo se sentiam diferentes em relação às demais.

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