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Estado de Minas Comportamento

Tranças que significam

Fui reprovada por 90% dos que me viram


12/07/2020 04:00 - atualizado 12/07/2020 07:31


 
Há cerca de uns 10 anos, uma amiga foi a um salão especializado em cabelos de estilo afro e fez duas tranças bem agarradas à cabeça imitando um arco. Gostei muito e acabei me decidindo por procurar o mesmo salão para fazer trancinhas, mas meu desejo era bem diferente do dela. Marquei com a especialista de passar uma tarde inteira no salão, pois ela iria encher minha cabeça delas.
 
Escolhemos a cor dos fios mais próxima ao tom original do meu cabelo e, como na época sonhava com eles compridos, pedi que fosse até quase à altura da cintura. Eu não sabia que tinha tanto cabelo e acho que ela também não percebeu isso de cara. Fiquei o dobro do tempo previsto sentada sendo puxada e repuxada, mas, como mais vale um gosto, conseguimos chegar ao final.
 
Confesso que minha transformação me assustou um pouco, mas gostei do resultado. Porém, mal sabia que o pior ainda estava por vir, a começar pela dor na cabeça que precisei enfrentar. Tudo o que encostava no couro cabeludo se tornou uma tortura. Dormir com a cabeça encostada no travesseiro foi impossível.
 
Ainda assim, acreditava que resistiria e que conseguiria sobreviver. O verão estava no auge e eu não imaginava que cabelos sintéticos longos esquentavam tanto a ponto de desejar ficar mergulhada na água o tempo todo, logo eu, que tenho horror a banho frio.
 
Mas os olhares fulminantes que recebi em todos os lugares por onde passei foram piores que as fisgadas no couro cabeludo. Apesar de ter o tom de pele morena, as pessoas me identificam como branca. Por mim, não sou nem uma nem outra, sou mistura de tudo. Para piorar, meu cabelo sempre foi liso, para meu desespero na adolescência, quando passava os sábados inteiros com a cabeça lotada de papelote na esperança de que à noite ele estivesse cacheado.
 
Quem tinha coragem de me dizer alguma coisa, perguntava por que eu tinha feito aquilo, visto que meu cabelo era tão bonito. Eu sorria amarelo enquanto explicava que, além de adorar mudar o modelo de minhas madeixas, sempre quis enchê-lo de trancinhas.
 
Fui reprovada por 90% daqueles que me viram. Não recebi críticas do tipo por que você quer se apropriar de uma cultura que não é a sua?. A revolta das pessoas era em relação ao fato de que uma branca não deve querer parecer com uma afrodescendente, porque esteticamente a primeira é mais bonita que a segunda.
 
Ao fim de duas semanas, pouco depois de me deitar e tentar mais uma vez dormir como gente, percebi que a dor na cabeça, o calor infernal e a vontade de mandar todo mundo catar coquinho me fizeram ir para o meu banheiro e pacientemente retirar cada uma das inúmeras tranças que custei tanto a ganhar e tive tanta dificuldade de carregar.
 
Hoje, o que mais me impede de repetir a dose é a dor e o calor. Mesmo assim, acredito que, numa de minhas idas à África no inverno, voltarei com uma nova leva de tranças, desta vez feitas por amigas que tenho no Malawi, que me ensinam sempre que é possível enfrentar olhares julgadores com o orgulho de ser quem se é.

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