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Estado de Minas TIRO LIVRE

O drama dos camisas 9 de Atlético e Cruzeiro

Não basta ter renome para que o script saia como planejado. Não adianta um passado glorioso. Muito menos a fama de goleador. O que vale é a bola na casinha


postado em 26/07/2019 04:00


>> tirolivre.mg@diariosassociados.com.br
 
Ricardo Oliveira não balança as redes há 13 jogos(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Ricardo Oliveira não balança as redes há 13 jogos (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
 
O roteiro não poderia ser mais parecido. Atacante experiente, centroavante legítimo, dos que a gente não vê muito mais por aí. Que sabe como poucos se posicionar na área adversária. Que ganhou reconhecimento pelo faro de artilheiro, com trajetória de sucesso no Brasil e no exterior. Principal esperança de gols dos torcedores de sua equipe. Pausa dramática. Mas que amarga inferno astral. Uma seca daquelas, em que a bola evita a qualquer custo o fundo da rede. Dos lances mais complexos aos mais simples, em que o jogador está de frente para a meta rival, sem goleiro e precisando apenas de um toquinho na bola para que ela entre. Caprichosamente, contudo, ela sai por cima do travessão, ou pelo lado, ganhando a linha de fundo. Não entra mesmo. Nem por decreto.

O parágrafo acima descreve o camisa 9 cruzeirense Fred, de 35 anos, que está em sua segunda passagem pela Toca da Raposa e acumula 115 partidas e 76 gols pelo clube. Com 40 jogos e 18 gols pela Seleção Brasileira no currículo. Folha de bons serviços prestados nos times que defendeu. Mas que há 12 partidas não sabe o que é balançar a rede.

O começo desta coluna também se aplica ao camisa 9 atleticano, Ricardo Oliveira, de 39, que está em sua segunda temporada na Cidade do Galo e contabiliza 87 partidas e 35 gols pelo clube. Com 16 jogos e cinco gols pela Seleção Brasileira no currículo. Folha de bons serviços prestados nos times que defendeu. Mas que há 13 partidas não sabe o que é balançar a rede.

O drama comum aos dois jogadores dos arquirrivais mineiros mostra bem a volatilidade do futebol. Como não basta ter renome para que o script saia como planejado. Não adianta um passado glorioso. Muito menos a fama de goleador. O que vale é a bola na casinha.

Tanto Fred quanto Ricardo Oliveira vivem o maior pesadelo de um atacante: estar em campo e não conseguir ser decisivo. Ainda: não ser efetivo na função para a qual é contratado. Desempenhar um papel que eles já provaram saber fazer muito bem. Não há como negar que os dois camisas 9 conhecem o caminho do gol, sabem como se desvencilhar da perseguição dos zagueiros, achar uma pequena brecha na área alheia, por vezes em frações de segundos, e têm a técnica para a finalização. Chutes e cabeçadas costumamser mortais. Ou costumavam. Porque  também não há como negar que ambos estão numa fase em que nada disso está sendo visto. Os chutes estão saindo enviesados. Os cabeceios, sem precisão.

Apesar da semelhança entre os enredos, a queda de rendimento deles precisa ser analisada de maneira diferenciada. Há algumas particularidades a tornar o cenário distinto, embora as histórias convirjam para o mesmo fim: a falta de gols.

No caso de Fred, a luta é um pouco mais inglória, pois ao mesmo tempo em que atravessa um momento de baixa, talvez um dos piores de sua carreira, ele vê Pedro Rocha, com todo o vigor de seus 24 anos, aparecer em lances capitais, fazer gols importantes para o Cruzeiro. E aí vem o segundo pior pesadelo de um atacante que, além de tudo, é idolo: ser preterido pelos torcedores. Ver sua presença não ser mais considerada essencial. Seu nome não ser mais gritado nas arquibancadas.

Já Ricardo Oliveira tem o aparente conforto de não contar com um concorrente interno voando baixo, pedindo passagem na linha de frente atleticana. Até por causa das poucas opções (sobretudo de qualidade) no grupo comandado por Rodrigo Santana – não foi por acaso que o clube tentou contratar Luciano, do Fluminense, que acabou acertando com o Grêmio. Os outros atacantes alvinegros igualmente têm vivido de atuações inconstantes. Um gol aqui, outro ali, sem empolgar muito. O prata da casa Alerrandro até ensaiou uma ameaça, chegou a tirar a titularidade de Ricardo Oliveira, contudo, ainda não mostrou poder de fogo em momentos cruciais. E é isso o que diferencia o jogador que compõe grupo daquele que é decisivo para o time.

Em etapas decisivas de torneios continentais, cujo êxito significa prestígio e, especialmente, reforço no caixa, Cruzeiro e Atlético precisam de seus jogadores atuando no mais alto nível. Não adianta colocar em campo apenas pela reputação. É a produtividade que deve determinar a escolha, ainda que Fred e Ricardo Oliveira sejam atletas que não entram apenas na conta técnica ou tática de uma equipe. Por mais que a presença deles no time extrapole tais questões, é fundamental que ela esteja atrelada também à efetividade. E, nesse quesito, os dois estão devendo.



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