Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. ASSINE AGORA >>

Publicidade

Estado de Minas

Onde foi parar o Samba?

A minha vida carnavalesca começou nos bailes de clube e desfiles de blocos caricatos. O meu bloco era Os Inocentes, que ensaiava na Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza%u2019


postado em 21/02/2020 04:00 / atualizado em 20/02/2020 23:02


henrique portugal


O carnaval já começou; os  blocos estão na rua. Agora temos regras para uma festa politicamente correta – as fantasias não podem fazer referência a etnias. Belo Horizonte, que era conhecida como o cemitério do carnaval,  agora é a capital desta festa popular, ao lado de São Paulo.
A metamorfose do nosso carnaval aconteceu em uma velocidade impressionante. Quem dera que a nossa economia e nossas confusas leis pudessem passar por mudanças de forma tão rápida.
A minha vida carnavalesca começou nos bailes de clube e desfiles de blocos caricatos. O meu bloco era  Os Inocentes, que ensaiava na Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza. Era uma cultura local que envolvia uma competição saudável entre os blocos que representavam os bairros da cidade. No entanto, esse tempo já passou e não vou ficar fazendo o papel de saudosista.
A minha dúvida é: onde foi parar o samba no carnaval?. Eu escuto de tudo; sertanejo, rock, eletrônico, axé... mas pouco samba. Historicamente, nesta época do ano só escutávamos samba-enredo, as marchinhas e sambas tradicionais.  Era praticamente uma reserva de mercado.
Vou fazer uma comparação maluca, mas que faz sentido: está acontecendo com o samba a mesma situação ocorrida com os taxistas na chegada do Uber. Achavam que reinariam eternamente nesta época do ano, mas foram pegos de surpresa e, sinceramente, acredito que dificilmente terão a mesma relevância de anos atrás, em nosso futuro. Como a cultura está sempre em mutação, a inércia é sinal de morte iminente.
Na minha opinião, o pagode é a derivação do samba, que entendeu a mudança dos tempos e se adaptou buscando um maior apelo popular.  O rock passa pelo mesmo problema de envelhecimento. O discurso de contestar a sociedade, característica de grandes bandas, passou para o hip-hop e o rap. São as mudanças que atualmente  ocorrem de forma rápida e avassaladora, pegando alguns segmentos de calças curtas.
Faça um exercício de memória para lembrar qual samba-enredo se tornou um sucesso nos últimos 10 anos. As regras dos desfiles, cada vez mas fechadas e rigorosas, acabaram matando a criatividade das escolas de samba. As diferenças entre elas são muito pequenas e as músicas se parecem demais.  Para mim, um estilo musical começa a dar sinais de desgaste quando você não consegue diferenciar quem está cantando uma nova canção. O excesso de repetição leva à perda de identidade e do popular.
Enquanto o funk, o hip-hop, o sertanejo e o eletrônico se reinventam, não consigo perceber isto no samba. OK, vocês podem dizer que eu não sei nada de samba e estou dando palpite – mas basta sair nas ruas pra chegar à mesma conclusão.
Não acredito em caminhos como uma prefeita de Olinda, em Pernambuco, que no início dos anos 2000 tentou proibir o axé dizendo que o carnaval estava perdendo sua identidade. O samba tem que ajudar. Cultura que não se atualiza, morre nos livros guardados nas prateleiras. As que ainda existem.

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade