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Estado de Minas HENRIQUE PORTUGAL

A lição que aprendi em Abbey Road

A indústria tecnológica abusa da obsolescência programada, que, somada à nossa ansiedade, praticamente nos obriga a trocar de telefone todo ano 2019


postado em 31/10/2019 04:00 / atualizado em 31/10/2019 17:15

(foto: King enter.com/reprodução)
(foto: King enter.com/reprodução)

O álbum Siderado, do Skank, foi gravado no Rio de Janeiro, em 1998. No mesmo ano, embarcamos para Londres para fazer os acabamentos: mixagem e masterização. De forma simplista, fomos ajustar as canções buscando um alto padrão de qualidade. As etapas foram feitas no lendário estúdio Abbey Road, conhecido por ser o local onde os Beatles registraram todos os seus álbuns.
 
Esse estúdio tem uma história iniciada muito antes de ser o quartel-general do quarteto de Liverpool. Para se ter uma ideia, ele foi construído em 1931 pela gravadora EMI. Centenas de artistas passaram por lá. O álbum The dark side of the moon, o mais conhecido do Pink Floyd, foi registrado no estúdio 3, o mesmo onde mixamos músicas como Resposta e Saideira.
 
Esse ambiente não é apenas um templo da música, mas também de muita sabedoria em termos tecnológicos. É um local onde empresas disponibilizam suas novidades para que possam ser testadas por engenheiros de altíssimo nível.  E foi exatamente essa experiência que me chamou a atenção.
Durante a masterização, etapa em que se determina o volume e se acerta a equalização das músicas, notei que o técnico do estúdio utilizava uma mesa de som muito antiga, da década de 1960, conectada a um novíssimo equipamento digital. Não entendi nada. Fiquei calado por um tempo até interromper o trabalho dele e perguntar o motivo de utilizar equipamentos de épocas tão distintas. A minha grande dúvida era: se existiam equipamentos mais novos, por que permanecer utilizando uma mesa de som que já estava com mais de 30 anos de uso?
 
A resposta que Nick Webb me deu foi a seguinte: “Aqui no estúdio temos acesso a todos os equipamentos que são lançados no mundo. Enquanto não aparecer algo melhor, continuamos com os que temos. Só trocamos por algo novo se for melhor que o anterior”.
 
Esse conceito eu uso na minha vida até hoje. Adoro testar novos equipamentos, sejam eles musicais ou traquitanas tecnológicas, mas sempre me lembro do que aprendi em Abbey Road. A indústria tecnológica abusa da obsolescência programada, que, somada à nossa ansiedade, praticamente nos obriga a trocar de telefone todo ano.
 
O filósofo grego Platão escreveu há mais de dois mil anos a alegoria O mito da caverna: em resumo, ele afirma que precisamos sair da nossa escuridão para encontrar a luz da verdade. Simplificando, o ser humano adora uma novidade... desde que ela não mude muito o que estamos acostumados a fazer.
 
E você, qual lição aprendeu com o uso da tecnologia?


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