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Estado de Minas QUAL É A MÚSICA?

A bordo da canção 'Vapor barato', honey baby cruza a história do Brasil

Composto por Waly Salomão e Jards Macalé, clássico da MPB é analisado pelo jornalista Schneider Carpeggiani, o convidado de hoje da coluna HIT


01/08/2021 04:00


Schneider Carpeggiani
Jornalista, curador e editor do jornal literário “Suplemento Pernambuco”


A Nova República ainda era novíssima (se contássemos seu início com a promulgação da Constituição de 1988, nem 10 anos...), e já estávamos cansados. A letra da música, que ressuscitava em todos os lugares naquela segunda metade dos anos 1990, remediava a situação a sangrar por todos os poros: “Oh, sim, eu estou tão cansado/ Mas pra não dizer/ Que eu não acredito mais em você”.

Era a “segunda vinda” de “Vapor barato”, composição de Waly Salomão e Jards Macalé. A primeira foi na voz de Gal Costa, no show/álbum “Fa-Tal”, de 1971, no período mais hard da ditadura. Nessa versão, mais de oito minutos. No começo, soa como bossa nova em tom de marcha fúnebre. Alguém é magoado. Alguém vai embora. O destino é “aquele velho navio”.

Parece até o parágrafo inicial de “Moby Dick”, com o personagem declarando que, sem ter mais o que fazer em terra, decidiu ir a caminho das águas. No lugar da baleia, a obsessão é por uma certa “honey baby”. Lá pela metade da música, algo se espatifa. Vamos de João Gilberto a Janis Joplin em segundos, e as palavras honey e baby passam a ser berradas. Honey baby era SOS. (O estrangeirismo baby, macio e de gênero “secreto”, já havia despontado na MPB poucos anos antes em “Baby”, de Caetano Veloso, também na voz de Gal. A primeira baby tratava de uma ideia de progresso. Havia o alerta “você precisa saber de mim” em meio à maior cidade da América do Sul. A honey baby de 1971 habitava uma paisagem já em ruínas.)

Mas estávamos falando da segunda vinda de “Vapor barato”. A última década do milênio começou num Brasil com epidemia de cólera e com o primeiro presidente da Nova República, eleito pelo voto popular, entregando o cargo em meio a escândalos de corrupção. Pouco era possível fazer em termos de cinema naqueles anos, mas um dos raros filmes a despontar trazia “Vapor barato” na trilha. O título remetia a um país que permanecia inóspito: “Terra estrangeira” (1995), de Walter Salles e Daniela Thomas.

Lembro-me pouco do filme. O que ficou foi meu primeiro encontro com “honey baby”. Durante a faculdade de jornalismo, no final dos anos 1990, a música insistia em voltar. Todos nós compartilhávamos fitinhas K7 com o álbum de Gal de 1971, enquanto esperávamos em vão por professores na universidade pública sucateada dos anos FHC. Não disse? Honey baby volta quando tudo é só ruína.

Em 1996, a música ganhou as pistas de dança no segundo álbum do então ascendente grupo
O Rappa, “Rappa mundi”. Uma inusitada escolha de canção de amor para um disco sobre um Brasil que era pura “Miséria S/A”. No ano seguinte, a saga de honey baby era citada no disco de estreia de Zeca Baleiro, “Por onde andará Stephen Fry?”. “Vapor barato” parecia que vinha com o vento, de tão inescapável.

Já atuando como repórter, entrevistei em momentos diferentes Waly Salomão e Jards Macalé. Questionei ambos sobre honey baby. Devia usar a expressão com maiúsculas? Honey Baby existiu? Ou era uma gíria para maconha ou sei lá o quê? As respostas embaralhavam mais do que ajudavam. Assim, decidi, eu mesmo, definir honey baby: para todos nós, aqueles que foram adolescentes nos anos 1970 ou nos anos 1990, e para todos aqueles que seguem cansados, honey baby é como Diadorim. Honey baby é nossa neblina.

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