O padre Júlio Lancellotti veste estola que ganhou de presente do Pontos de Luta (foto: Pontos de Luta/Divulgação)
Um painel com 5 metros de tecido e mais de 350 corações criado pelo coletivo Pontos de Luta vai chamar a atenção no ato inter-religioso marcado para sábado (10/07), às 10h, na Praça da Estação. O encontro, que vai reunir movimentos e organizações sociais, sindicatos e coletivos, quer mostrar também a indignação com o desempenho do governo brasileiro frente à pandemia, que já provocou a morte de mais de 500 mil pessoas.
"Nosso painel foi expandido com mais 2 metros de tecido para colocar mais corações bordados", conta Lúcia Pinheiro Costa G. Machado, uma das integrantes do coletivo Pontos de Luta, que participa do ato.
Estarão expostos também trabalhos dos coletivos de bordadeiras Linhas do Rio (Rio de Janeiro), Linhas do Horizonte (Belo Horizonte), Linhas de Sampa (São Paulo), Linhas do Mar (Caraguatatuba), Linhas de Santos (Santos), Bordaluta (Brasília), Mulheres da Resistência no Exterior (Nova York), além de colaborações individuais de Olinda, Niterói e Curitiba.
No total, serão 17 painéis, que somam mais de 40 metros de comprimento e integram o Projeto Memória Não Morrerá, criado pelo Coletivo Linhas do Rio para homenagear as vítimas da COVID-19 no Brasil e denunciar o descaso do governo federal frente à pandemia.
"A posição do Pontos de Luta diante da pandemia é de revolta, indignação, dor, solidariedade. Denunciamos, nos bordados, a política sanitária genocida, sem a qual centenas de milhares de vida poderiam ter sido salvas. Denunciamos a política econômica que levou o Brasil de volta ao mapa da fome. Denunciamos a omissão do Congresso, que não põe em votação os pedidos de impeachment do Bolsonaro. Manifestamos nosso apoio à ciência, ao SUS e a cada um dos trabalhadores que lutam dia a dia para salvar vidas", diz Lúcia. Atualmente, 60 bordadeiras e um bordadeiro, entre 16 e 93 anos, fazem parte do Pontos de Luta.
Lúcia Pinheiro explica que as ideias para os trabalhos surgem de acordo com os acontecimentos da conjuntura política. "Cada uma escolhe livremente os seus temas e borda no seu ritmo e estilo. A perfeição alcançada é motivo de elogios, mas não é o objetivo. A ação militante e o prazer do encontro são mais importantes que o avesso do bordado.”
Bordado do coletivo Pontos de Luta com incentivo a doações (foto: Pontos de Luta/Divulgação)
Como o Pontos de Luta se organizou e está enfrentando as consequências dessa crise sanitária?
Estamos dentro de casa, mas não em silêncio. Embora não se encontrando presencialmente, o grupo continuou criando e bordando, cada uma em sua casa, mas se comunicando através do WhatsApp e das redes sociais. Recentemente, por motivo de extrema necessidade política, muitas de nós participamos das últimas manifestações de rua: Fora Bolsonaro, Vacina para Todos, Auxílio Emergencial de R$ 600, Ato Geração 68 e Dia Internacional de Luta Contra Tortura.
Qual a sua expectativa em relação a quando e como sairemos desta pandemia?
Não tenho uma expectativa positiva em curto nem a médio prazo. Precisamos de ações efetivas, como a vacinação em massa da população, o respeito à ciência e o fortalecimento do SUS.
Padre Júlio Lancellotti recebeu uma estola com bordados do coletivo. Como ela foi feita, o que vocês escreveram nela e qual a reação do padre?
O padre Júlio Lancellotti desenvolve importantes ações sociais e humanitárias em São Paulo. E por isso vem sofrendo ameaças constantes devido a preconceitos e intolerância por parte da sociedade quanto à assistência à população em situação de rua. Então decidimos homenageá-lo com uma estola composta por 32 bordados alusivos às suas ações. Ele já a usou em celebrações na sua paróquia, agradeceu e divulgou o presente em seu Instagram. Ao longo das lutas, homenageamos com bordados aquelas entidades e pessoas que admiramos pelas ações que desenvolvem política e socialmente.
Além das críticas sociais feitas em forma de bordado, o coletivo também quer chamar a atenção para a questão ambiental, mostrando as árvores de Belo Horizonte. O que norteia esse projeto? Como fazem as pesquisas para escolha das árvores?
Este projeto chama-se VerdeAr. Estamos bordando as diversas espécies de árvores existentes em Belo Horizonte, em apoio aos movimentos de proteção às árvores. E, assim, observando-as pelas ruas da cidade, passamos a conhecê-las, muitas das quais eram ignoradas e despercebidas por nós.
O que vocês têm de acervo dos trabalhos feitos? Quantos já foram feitos? Pensam um dia em uma exposição?
Temos um grande acervo de bordados em faixas, painéis, panfletos, pequenas tiras, corações e bótons. Devemos ter em torno de mil trabalhos, que podem ser vistos nas nossas redes @pontosdeluta (Instagram, Facebook). Muitos deles são expostos em eventos e manifestações, e outros tantos doados. Ocasionalmente, fazemos exposição dos bordados.
Bordado com árvore sapucaia, espécie presente nas ruas de BH, produzido pelo projeto VerdeAr, do coletivo Pontos de Luta (foto: Pontos de Luta/Divulgação)