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''Saí do hospital sem forças. A doença é devastadora'', desabafa psicóloga

Viúva e mãe de três filhos, Rosa Maciel conta o que aprendeu com a COVID-19, que a levou para a UTI junto da irmã. Ela perdeu o cunhado e 10 amigos


20/03/2021 04:00


Rosa Maciel
Psicóloga

Em 2020, encarei todo o isolamento prescrito pela OMS, vivendo afastada de tudo e de todos. Foram três meses assim. À medida que a pandemia recuava, iniciei timidamente os atendimentos clínicos e passei a ficar mais perto dos meus pais, evitando contato com meus filhos, pois eles tinham contato com mais pessoas. Eles precisavam mais de mim.

Em agosto daquele mesmo ano, participei de uma reunião com quatro pessoas, mantendo distanciamento e usando máscara. Uma delas tinha COVID-19, praticamente assintomática. Dois dias depois, fui avisada, embora já estivesse na fazenda com meus pais, com mais de 80 anos. Resultado: seis pessoas se contaminaram depois daquele encontro. Por milagre, meus pais estavam a salvo.

Tudo parecia caminhar para um desfecho positivo para todos. Quatro já estavam bem. Eu, que não perdi paladar nem olfato, não tive febre nem falta de ar, perdi a vontade de viver. Depressão! Meus familiares mais próximos chegaram a essa conclusão. Não tinha força para nada, já tinha recebido alta da Secretaria de Saúde, mas segui para o médico da família.

Ele me recebeu no consultório, fez um exame de pouco mais de cinco minutos. Solicitou a UTI móvel, que chegou muito rápido, pediu a minha irmã para avisar os familiares. Em pouco tempo, eu estava lutando para viver sem nem saber o que tinha. Era sexta-feira, 29 de agosto. No sábado pela manhã, a tomografia apontava o pior prognóstico possível: 80% dos pulmões comprometidos.

A COVID-19 silenciosamente me derrubou. A famosa e triste recaída. Foram dias de desespero para a família, especialmente para meus filhos, que já tinham perdido o pai.

Eu só havia entrado num hospital para ter filhos ou para pequenos procedimentos. De repente, meu mundo era ali, cercada de tubos, aparelhos, reclusa na UTI fechada, ouvindo barulhos estranhos que me faziam acreditar que havia algo estragado. O estrago era meu mesma. Sorte que nem imaginava isso. Tudo apitava, chegavam médicos e enfermeiros, faziam suas manobras e eu não tinha ideia do que estava acontecendo.

Os dias foram passando. Descobri que estava viva, aliás, vivíssima! Tinha uma das minhas irmãs ao meu lado na UTI. Éramos vizinhas.

Saí do hospital sem forças. Dormia praticamente o dia todo. Precisei de meses para me recuperar. Essa doença é devastadora.

Hoje, sete meses depois de sobreviver a um pesadelo, descubro o privilégio de celebrar a minha vida mesmo chorando a perda, por causa da COVID-19, de um cunhado amado e de pelo menos 10 pessoas muito próximas a mim.

De tudo o que vivi, uma lição é certa: não desperdice nenhuma oportunidade de fazer o seu dia e o de quem você convive o melhor possível. Sorria, agradeça, declare seu amor, peça desculpa, chute o balde, esqueça a dieta, ligue, mande flores, escreva um bilhete, ande na chuva, conte estrelas, cante alto, reclame e brigue pelo que vale, porque a vida é só o momento que se vive. Depois não existe!

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