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Estado de Minas COLUNA HIT

Raquel Rios: 'Somos desafiadores brotos em terreno árido'

No 'Diário da quarentena', psicóloga revela como lidou com a proximidade da COVID-19, a angústia dos pacientes e os porões do medo


31/08/2020 04:00


 
Início de março. Depois de um fim de semana delicioso em Lavras, celebrando novas primaveras de alguns familiares, despertei com a tosse ao lado. Paulo Henrique, meu namorado, também tinha falta de ar, dor no corpo e febre. A ameaça nos parecia algo tão distante e, de repente, tão perto.
 
A suspeita de COVID suspendeu toda a rotina planejada. Nosso mundo, em segundos, virou de pernas pro ar, e eu ali no meio... Meio... paralisada. Fomos orientados a aguardar em casa, com oxímetro e coração na mão. Pensei em todos com quem havíamos tido contato: meus pais, irmãos, sobrinhos, amigos. O terror me invadia ao pensar na possível contaminação de minhas fortes raízes. “E eu? Devo estar assintomática”, pensei. Que nada! O caos mal havia começado e eu já estava sufocada, imersa no mesmo desamparo e vulnerabilidade de todos os outros.
 
Ainda tinha (e felizmente tenho) meus pacientes, que foram mais que pacientes com a mudança brusca de nosso setting. Era possível sentir suas angústias pelas mensagens de WhatsApp: “Raquel, você vai atender on-line?”; “Tô muito mal... Fui demitida ontem, estou com medo de continuarmos e não conseguir te pagar”; “Não sei se consigo fazer a sessão por Skype, você sabe que tenho muita dificuldade com essa coisa virtual”. Sem contar o grito desesperado de uma adolescente no áudio: “Raquel, eu vou surtaaaaaar dentro dessa casa!”.
 
Nós, que tanto gostávamos da circulação e associação livre, fomos lançados e confinados para dentro de nossas cavernas, algumas com muitas paredes e poucas janelas. É preciso respirar-a-dor. E, assim como as plantas buscam luz para se desenvolver, deveríamos encontrar caminhos para manter o contato emocional fundamental à nossa sobrevivência. E junto com celulares, tenho sido levada por eles até varandas, quartos, escritórios, assentos do carro, e, principalmente, aos porões do medo: de adoecer, de falir, de perder, de não saber, de morrer...
 
Ontem, um deles cantou Cazuza na sessão: “Vi a cara da morte e ela estava viva”. Ao que respondi, parafraseando outros versos da canção: “Faríamos das tripas coração, do medo nossa oração... a tiros de vamos pra vida!”.
 
Nada como cantar juntos, ouvir uma voz que não somente o próprio eco, pois, entre tantos lugares, é na solidão que a maioria mais teme fazer morada! Infelizmente, muita gente não tem sido boa companhia para si mesma. Aprisionada há tempos em suas altas exigências, necessidades de controle e idealizações... Conhecido vírus e erva daninha das relações, a onipotência perde sua potência em tempos como estes.
 
Como quem traz boas-novas e as lança como sementes, sonhei com girassol! Lembrei-me de que na ausência do sol, em dias nublados, eles olham uns para os outros para trocar energia. E assim fazemos, ainda que com olhares mediados pelas telas.
 
São eles, os vínculos, sustentados por muitos de seus troncos e redes (agora com ajuda do wi-fi), transitando e transmitindo inúmeros afetos, que têm mantido nossos sinais vitais. E lá “vamos bem”: eu, Paulo Henrique, meus familiares, pacientes e amigos.
 
Somos desafiadores brotos em terreno árido. Como Clarice Lispector, “sinto que viver é inevitável”.

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