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Estado de Minas COLUNA HIT

Afogando em números

No 'Diário da quarentena', o ator, cantor e compositor Thalles Cabral enumera seus próprios sentimentos neste imprevisível ano de 2020


21/08/2020 04:00 - atualizado 20/08/2020 20:17

Diário da quarentena

Os meus números da semana
 
Thalles Cabral
Ator, cantor E compositor

Como o ano de 2020 (imprevisível, inesperado, desobediente, indefinido), este texto também não vai obedecer a nenhuma estrutura-padrão. Eu já não sei quando uma coisa termina e a outra começa.

Tem esse poema do Lawrence Ferlinghetti que não sai da minha cabeça, em que ele repete constantemente “estou esperando pelo renascimento do maravilhoso”. Eu também, Lawrence.

Eu não consigo parar de pensar nessa placa luminosa em tom quente no meio do Largo da Batata, no final de 2018, que dizia: É preciso continuar. Não posso continuar. É preciso continuar. Vou continuar. Regina Parra foi na espinha.

Eu não consigo não me lembrar do Thom Yorke cantando I’m not here/ This isn't happening/ I’m not here/ I’m not here.

Os milhares de mini Thalles dentro da minha cabeça há quatro meses trabalham incansável, incessante e ininterruptamente em uma nova ordem. As coisas mudaram. É preciso mudar algumas coisas de lugar. Algumas salas mentais aumentaram de tamanho, outras foram reduzidas a poucos metros quadrados. Outras estão entulhadas de coisas – que me impedem de abrir a porta –, outras completamente vazias esperando por uma nova mobília e decoração.

Já eliminei o “tudo bem?” como iniciador das conversas, porque logo essas palavras se transformavam em montanhas-russas de um looping só.

Sonhei com a Rita Lee esses dias. Ela me recebia em sua fazenda. Passeávamos juntos pela propriedade, que era gigantesca. Ela me mostrava as plantas, me explicava o quanto de água cada uma precisa. Menos aquela, aquela ali não gosta. Uma girafa passava por nós. Elas trocavam sorrisos. Seguíamos com nossas botas por uma área lamacenta e profunda. Lama e mais lama e mais lama. Era o Brasil da fazenda.

Eu queria escrever coisas mais otimistas, desculpe.

Uma janela nunca foi tão interessante. Eu crio histórias para todos os transeuntes. Daqui da janela, as coisas até meio que fazem sentido lá embaixo. Você entende todo o trânsito e movimento das coisas e até os previsíveis choques e acidentes que não têm escapatória. Por mais janelas.

Thalles, te amamos (?). R$ 20 de crédito de presente para pedir o quê, quando e onde quiser até as 23:59. Ai, ai, me pergunto pra onde vai a publicidade… Até quanto de notícia ruim um ser humano pode aguentar?

Abandonei a divisão tradicional do tempo em dias da semana. Suspendi temporariamente a segunda, terça, quarta, etc. Eu nunca sei que dia é mesmo... A partir de agora, é ontem, hoje e amanhã somente.

Tem esse livro de poesias do Gregório Duvivier, A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, que de vez em quando releio. Sempre tive essa viagem de que a gente vive pro amanhã. Nesses dias em que a ideia de futuro nos é roubada, tomei a liberdade de chamá-lo de A partir de agora eu juro que a vida é.

Tenho pensado muito na minha professora de matemática do colégio, a Claudia. Lembrei-me das aulas de progressão aritmética e geométrica. Dos números que saltam cada vez mais, exponencialmente, nos jornais. Mas também penso na Olga, minha professora de literatura. E aí vejo um rosto em cada um desses números.

Tentei mapear, como um experimento, todos os sentimentos que eu tenho durante sete dias. E quantas vezes eles surgem. Os meus números da semana. Felicidade, 8. Tristeza, 3. Ansiedade, 4. Raiva, 3. Medo, 4. Culpa, 3. Frustração, 2. Até que dei de cara com esse que não sabia o que era. Não sabia nem dar nome pra ele. Sentimento-que-eu-não-sei-o-nome, 12.

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