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Estado de Minas DIáRIO DA QUARENTENA

Na bagagem, um pacote de pão de forma e cinco ovos cozidos

Júlio Souki Amaral conta a história do amigo japonês, hospedado em BH, que foi obrigado a fazer escalas na Etiópia, Coreia do Sul e Alemanha antes de chegar em casa


postado em 10/05/2020 04:00

Peleja globalizada

Júlio Souki Amaral
Consultor internacional

Assim que a COVID-19 chegou à Itália, começamos a acompanhar o crescimento vertiginoso da contaminação na região da Lombardia e as possíveis reações do governo britânico. As férias escolares de Páscoa já estavam marcadas para começar em 2 de abril, data em que viríamos passar três semanas no Brasil.

Na semana de 8 de março, as ruas de Londres já estavam bastante vazias, o metrô a cada dia menos utilizado, as companhias aéreas dando sinais do corte de voos e rotas. As escolas, um grande termômetro (pois o governo se recusava a paralisá-las, pensando no impacto sobre os pais que trabalham fora), já estavam discutindo com as autoridades se fechariam ou não.

Na manhã de 18 de março, recebemos o comunicado de que as aulas seriam suspensas por prazo indefinido. Minha esposa e eu começamos a conversar sobre os eventos daquela semana e sobre o que fazer. Concluímos que o melhor seria ficarmos isolados dentro de casa no Brasil, em vez de Londres. Deveríamos, então, vir para cá o mais rápido possível, antes que os voos fossem suspensos.

Com muito custo e três rodadas de 50 minutos ao telefone com atendentes das companhias aéreas, conseguimos os últimos lugares no voo da noite daquele mesmo dia. Buscamos os meninos na escola – eles nem sonhavam que estávamos indo para o Brasil naquela mesma noite. E viemos “na coragem”, ou seja, sem o inseparável tablet do nosso filho de 6 anos, quebrado na correria da arrumação das malas. Chegamos no dia 19 de março. No dia seguinte, o comércio de Belo Horizonte fechou.

Mas a peleja com as companhias aéreas não parou por aí. Minha mãe, ceramista, estava hospedando um colega japonês em seu ateliê, no Vale da Serra da Moeda. O voo dele estava marcado para meados de abril, mas devido ao risco de ser contaminado no Brasil (longe de casa), ele precisou antecipar a volta. Como mal fala inglês, obviamente fiquei com a incumbência de exportar o amigo.

Depois de algumas horas de espera no call center de atendimento, descobri que o voo dele já havia sido cancelado. Os disponíveis, agora um por semana, teriam escalas na Etiópia e na Coreia do Sul! Na Etiópia, ele teria de cumprir a quarentena obrigatória de 14 dias. Para completar, não existe conexão direta com o voo que sai de Confins.

Resignado, o nosso amigo preparou sua mala de mão: um pacote de pão de forma e cinco ovos cozidos – para ele, refeição suficiente para dormir duas noites na sala de embarque, evitando a quarentena.

Ele saiu de Belo Horizonte às 6h de sábado. No meio do caminho, a companhia aérea ainda teve que enviá-lo para Frankfurt, na Alemanha. Sei que chegou em casa em 9 de abril. Ufa!

Estamos muito felizes de poder estar aqui no Brasil nesta época conturbada. O mundo vai mudar? Piorar? Se adequar? E as relações humanas? Não sabemos. Por enquanto, nos cabe ficar em casa e nos planejar para podermos passar por essa fase da melhor forma possível.

Seria útil aproveitarmos o tempo que parou para pensar naquilo que mais está nos incomodando nesta época. É o ambiente físico da casa ou do apartamento? É hora de mudar de apartamento para uma casa ou vice-versa? É hora de morar mais perto da família? E as prioridades? E a adaptação à nova realidade social das pandemias? À medida em que as circunstâncias mudarem contra a nossa vontade, vamos nos mover ou vamos ser movidos?












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