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Aos 101 anos, a escritora Lívia Paulini mantém suas tradições de Natal

Além de visitar amigos próximos, hoje ela faz questão de acompanhar missa natalina e cumprimentar só amigos


postado em 25/12/2019 04:00

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
A escritora Lívia Paulini seguirá suas obrigações religiosas e sociais, como assistir à missa natalina e visitar amigos para desejar um feliz Natal. “O nascimento do menino Deus para mim significa o rejuvenescimento, a renovação da vida e o começo de uma nova etapa para o ser humano: a esperança”, diz ela, que, no meio do ano, completou 101 anos. Pedagoga e psicóloga com formação pela Escola Superior de Gyor, na Hungria, ela fala a língua nativa, inglês e alemão. Membro fundadora da Academia Feminina Mineira de Letras, em 1983, ela e o marido, Ernest Paulini, chegaram ao Brasil durante a Segunda Guerra Mundial a convite do presidente Getúlio Vargas. Cidadã honorária de Belo Horizonte, Lívia é mulher ativa. Ela conta que seu dia começa sempre pela leitura de jornais e com noticiário da televisão. “Depois, enfrento as minhas atividades literárias e os meus livros que estão no prelo”, diz ela, autora de 28 livros, além de coletâneas e participações de antologias.

COM A PALAVRA
Lívia Paulini, escritora

Qual a avaliação que a senhora faz da Academia Feminina Mineira de Letras 36 anos depois da fundação?
A Academia Feminina Mineira de Letras, após 36 anos de sua fundação, cresceu em nível internacional por sua ética seguida em suas publicações individuais e coletivas apreciadas em todas as direções do arco-íris. A minha atuação me traz orgulho pela entidade que ajudei a fundar, pois as atitudes que se basearam sobre a ética e a moral foram decisivas na construção de uma paz global em todos os universos – esse é o meu objetivo. Portanto, o nosso recente sucesso mais do que justifica para mim como membro da entidade.

Como é a rotina e qual o grande desafio da Academia, já que vivemos em um mundo em que as pessoas preferem o celular a um bom livro?
As reuniões são realizadas uma ou duas vezes por mês, dependendo da decisão da presidente, eleita por 2 anos. Sempre começa com a reunião da diretoria meia hora antes da reunião formal, com a leitura das atas das reuniões anteriores e as suas respectivas decisões. Em seguida,  abre-se a sessão para todos os convidados, tendo como pauta principal o convidado palestrante com tema de interesse acadêmico. Os oradores respondem a possíveis observações por parte dos ouvintes e recebem um diploma de participação. A sessão termina com uma confraternização. Quanto ao que se refere em termos nossos leitores interessados em favorecer publicações escritas, depende sempre do nível cultural daqueles que nos procuram acolher com nossas publicações.

Por que criou uma academia feminina? Acredita que hoje ela pode ser um espaço para homens e mulheres?
A necessidade de fundar uma academia de letras só para mulheres talentosas de cultura literária avaliada foi um passo importante na espiritualidade mineira por duas razões: a primeira, a posição da mulher naquela época era reduzida, como se sabe, aos três “cês” – casa, cozinha, criança; a segunda, a maioria dos membros, com diploma de curso superior, desenvolveu estudos sobre a escrita feminina intimamente ligada ao jeito de ser do gênero, em que mito, memória, realidade, ficção e os sentimentos femininos surgem na construção da história, divergindo da maneira como o gênero oposto se dispõe a pensar e a agir sobre o mesmo assunto.

Como a senhora enxerga a vida e a sua trajetória da Europa até os dias de hoje no Brasil?
O meu olhar de 101 anos, vividos parte na Europa e com a bênção de Deus no Brasil, se fixa no poder ajudar as pessoas com quem convivo esta reconstrução mental e passar as minhas experiências aos cidadãos deste país que adotei como segunda pátria, em universo de realidade e ficção e, por que não dizer, com certa clarevidência para o futuro. Quanto ao futuro e contando com a maioria de boa vontade do povo brasileiro como parceiro, acreditando que “Deus é brasileiro” – a minha segunda pátria –, tudo terminará em santa paz.

O que representa chegar aos 101 anos?
Cheguei aos 101 anos completados com a imensa boa vontade de Deus reconhecendo várias vezes os gestos milagrosos que me livraram dos ataques aéreos e da morte certa em Dresden, onde 350 mil pessoas foram sacrificadas vivas no inferno descrito no meu livro Ancoradouro. E em outras ocasiões, igualmente fatais, Deus estendeu a sua mão. Considero agora uma tarefa para o resto da minha vida fazer o bem a todos ao meu alcance, familiares, vizinhos, confreiras da Afemil, no Rotary Club Santo Agostinho, na Igreja Católica, a todos que contam com meu apoio.

O mundo vive mais uma fase difícil em relação aos refugiados. Como a senhora, que já viveu essa luta, vê a situação como os países tratam os refugiados atualmente?
Os povos deslocados e os que os recebem não são iguais caracteristicamente. Alguns são marcados por perseguições políticas, outros pela sua religiosidade. Há muito anacronismo, e alguns são relutantes em aceitar povos estrangeiros. Para nossa felicidade, o presidente Getúlio Vargas, nos idos 1950, na nossa chegada, disse algo que talvez ilumine essa dificuldade que existe em aceitar imigrantes: “Estamos dando um passo à frente em harmonizar o ideal do que vivemos até agora com as novas experiências que nos esperam no futuro”.

A senhora sentiu na pele os efeitos da guerra. Teme por um novo conflito mundial ou acredita que isso não vai ocorrer?
Os efeitos da Segunda Guerra Mundial não terminaram. As eleições de novos líderes mundiais mostram a ruptura do antigo esforço para alcançar a paz mundial. Quanto mais a ideologia interessa aos governos, tanto mais difícil manter equilíbrio e neutralidade nas ações. Às vezes, a reação do homem é um mistério. Não há mais potências financeiras ou industriais, mas, sim, aquelas que têm as potências nucleares. A rejeição dos valores espirituais faz tornar frágeis as probabilidades da sobrevivência do homem na Terra. Não podemos deixar de nos preocupar pelo ser vivo. Os conflitos mundiais existem e podem ter várias possibilidades para seu desfecho. Mas acredito que aparecerão forças de união de povos de boa vontade que vão salvar a vida da humanidade. Minha fé é inabalável em Deus.

A senhora teme a morte?
A morte é bem conhecida para mim. Por várias vezes me abraçou, aproveitando a oportunidade, sussurrando aos meus ouvidos, ameaçando, negociando a minha liberdade, mesmo quando meu marido, em Dresden, me comunicou que iríamos nos lançar de uma janela em fogo para o chão em fogo – não havia escolha – e por um milagre havia uma cratera de água potável na nossa frente, que a bomba havia aberto… Nunca me impressionou. Mais do que as dificuldades que deveríamos enfrentar com meu marido, como salvar a família, os compatriotas, as vidas que estavam sob nossas responsabilidades, amizades, as filosofias que adquirimos pelas longas estradas da vida percorridas. Só usei palavras repetidas nas horas difíceis: “Meu Deus, não me abandone por favor!”. E Deus nunca me abandonou!

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