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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Um viva àqueles que nos ensinaram a amar o Cruzeiro

Vim ao mundo poucos meses antes do empate entre Cruzeiro e Bayern de Munique pela final do Mundial de 1976. Tornei-me cruzeirense por conta do meu velho pai


18/11/2020 04:00

Aos 35 anos, o atacante Rafael Sóbis retorna à Raposa: jogador pode ser fundamental para sucesso do esquema de Felipão(foto: Igor Sales/Cruzeiro)
Aos 35 anos, o atacante Rafael Sóbis retorna à Raposa: jogador pode ser fundamental para sucesso do esquema de Felipão (foto: Igor Sales/Cruzeiro)


Quem estendeu a mão e te levou ao estádio pela primeira vez para assistir ao jogo do seu time? Existem as mães, pais, avós, amigos, irmãos presentes em todas as partidas e, naturalmente, herdeiros dessa missão. Há os órfãos de fanatismo familiar, para os quais a estreia nas arquibancadas depende de fatores mais complexos.
 
Vim ao mundo poucos meses antes do empate entre Cruzeiro e Bayern de Munique pela final do Mundial de 1976. Tornei-me cruzeirense por conta do meu velho pai, um dos milhares de torcedores presentes à geral do Mineirão naquela noite.
 
Fui crescendo, e ele ganhando outros filhos, a inesperada viuvez e um caminhão de responsabilidades diárias. Acrescidos da distância entre a nossa cidade e a capital, esses desígnios da vida foram lhe transformando num cruzeirense de radinho e TV.
 
Mas veio 2 de fevereiro de 1987. Um domingo ensolarado. Quase 100 mil pessoas rumaram para o Mineirão. Cruzeiro e Atlético de Lourdes se enfrentariam pelas quartas de final do Brasileirão do ano anterior. Entre eles, Zé Paulo, meu velho, que resolvera voltar para junto de seu time amado. Era a minha primeira vez no estádio construído para ser a casa da Academia Celeste.
 
Nunca tinha visto tanta gente junta. Ele segurou minhas mãos e me fez subir as escadarias. A volta do meu pai ao convívio com seu Cruzeiro acontecia no mesmo instante em que eu tinha a visão indescritível do tapete verde com as 11 camisas azuis, de estrelas brancas, guerreando sobre ele.
 
A lembrança da volta de meu pai para seu Cruzeiro, pelo ideal de me fazer ainda mais fanático, veio em meio a uma prosa botequiana sobre o retorno do veterano Rafael Sóbis. De um lado, os descrentes: “voltou por dinheiro”. No centro, os racionais: “morar em BH é fácil, por isso, retorno”. Já os de coração mole, para os quais qualquer elogio à instituição Cruzeiro sopra como poesia: “não tem condições físicas, mas será um maestro nos bastidores dessa épica missão de recuperar um gigante”. Nessa terceira ala de corneteiros estava esse rabiscador de letras.
 
Se pelo vil metal, facilidade ou gratidão, no fundo, a motivação para o volver de Sóbis não importa. Voltar veterano para o Cruzeiro e fazer disso um ideal encontra respaldo em outros personagens da nossa história.
 
Em 1955, já aposentado e ídolo eterno do Palestra/Cruzeiro, Geraldo II, o goleiro-pedreiro, voltou para defender a nossa meta numa partida para a qual não tínhamos arqueiros. Quatro anos depois, foi a vez de Abelardo, “O Flecha”, regressar ao escrete estrelado. Nas décadas seguintes, Rossi, Hilton Oliveira, Palhinha, Douglas, Ademir, Ricardinho, Sorín...
 
Outros, como Zinho e Tinga, mesmo com uma única passagem e sem capacidade física para se tornarem protagonistas em campo, foram fundamentais nos grupos vencedores.
 
A volta do Tio Sóbis vem num momento em que não teremos títulos. Mas as missões não se encerram só nas conquistas. Elas podem nascer e se tornarem exitosas numa mão estendida, no aceitar o desafio de voltar exatamente nessa situação.
 
Ser cruzeirense é sentimento, não é verbo ou adjetivo. O Cruzeiro se sente – e quando isso acontece, sempre voltamos.
 
Desde o início da pandemia, Marcelinho não ia à casa de Dona Luzia, o reduto celeste de nossa turma em Santa Tereza. Mas no dia 30 de outubro, Juliano, Silvério, Maurílio, Stefano e Angel, tomados de saudade, sugeriram a ele o regresso. Era Cruzeiro e Paraná.
 
Em casa, Kika, a companheira de Marcelinho, percebendo a vontade dele, resolveu guardar um triste segredo para contá-lo mais tarde. Não queria preocupá-lo antes da partida. Fez mais. Deu a ele um sorriso, como quem diz, “vai tranquilo, meu amor, volta hoje para o seu Cruzeiro”.
Dias depois, apertando as mãos de Marcelinho, Kika viu seu quadro de leucemia se agravar. Na última sexta-feira, ela virou estrela.
 
Dedico esta crônica a Artur, Tomás e Marcelinho, os três meninos cruzeirenses da Kika.

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