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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

A camisa do Atlético é um pai que te abraça

"Que Ronaldinho Gaúcho pague, pois, por seu crime. E quando sair, que venha pra casa, a Cidade do Galo"


postado em 21/03/2020 04:00

Ronaldinho e seu irmão Assis estão presos no Paraguai há 15 dias(foto: Norberto Duarte/AFP - 7/3/20)
Ronaldinho e seu irmão Assis estão presos no Paraguai há 15 dias (foto: Norberto Duarte/AFP - 7/3/20)


Aquele helicóptero sobrevoando a Cidade do Galo, Ronaldinho lá embaixo, caminhando sobre o nosso escudo, vestindo a nossa beca — eis uma imagem que estará para sempre em nossa história. “O Kalil enlouqueceu”, disse Juca Kfouri. De fato. Àquela altura, depois de sua passagem pelo Flamengo, R10 tinha se configurado num pária. Uma pesquisa indicava sua rejeição por todas as principais torcidas. Só um louco para contratá-lo. O Kalil, graças a Deus.

Eu tinha um bode infinito de Ronaldinho Gaúcho. Algo que se explica por uma particularidade minha com o futebol: salvo raras exceções, só me servem os grandes craques do Atlético. Zico não jogou nada. Falcão não era isso tudo. Sócrates, bem, eu gostava de seu posicionamento político. Maradona foi melhor do que Pelé, sem dúvida, embora menor do que Reinaldo.

Havia um adendo: eu tinha coberto a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. A Seleção Brasileira, repleta de grandes estrelas, portou-se como o malabarista de sinal: fez lá suas embaixadinhas, mas saiu de cena quando o farol abriu e o jogo era pra valer. Esse ridículo estendia-se às arquibancadas. Havia uma soberba de Cruzeiro entre os meus compatriotas, todos brancos e playboys, além daquela música ridícula, “sou brasileiro com muito orgulho com muito amor”. Passei a torcer contra – e o Ronaldinho era o meu inimigo número 1.

Quando ele chegou ao Atlético, havia ainda o agravante de ter jogado no Flamengo. Uma pessoa com a camisa do Flamengo, e esta era a imagem mais recente de R10, está para mim como a réstia de alho para o Conde Drácula.

Eu quero distância. Há, entretanto, um outro ponto inegável: qualquer canalha que vista a camisa do Galo fica automaticamente perdoado, ainda que você relute por alguns poucos minutos. Quando vi Ronaldinho lá embaixo, fui tomado pela revolta. Ele caminhou meio metro e eu já o amava perdidamente.

Não tinha como dar errado: a camisa do Atlético é um pai que te abraça.

A vida, como diz o outro, é feita de escolhas e renúncias. Não sei a que R10 renunciou quando escolheu o Atlético. Fato é que não poderia ter havido um casamento mais feliz. No Galo, ele foi o Ronaldinho do Grêmio e do Barcelona.  Foi o torcedor que jamais tinha sido em outro clube. Chorou no golaço contra o Figueirense, no dia da morte de seu padrasto. Chorou quando a Galoucura levantou a bandeira de dona Miguelina, sua mãe, que à época lutava contra um câncer. “Eles me abraçaram”, disse em entrevista ao Globo Esporte, os olhos marejados e uma voz de menino. “Agora eu vou com eles até o final.”

Que escolha terá feito Ronaldinho para estar hoje numa penitenciária no Paraguai? Seu irmão Assis, preso junto com ele, é um contêiner sem alça – mas não constava que fosse um criminoso, apenas alguém de caráter duvidoso.

Endividado e respondendo a processos na Justiça, Ronaldinho declarou apoio à eleição de Bolsonaro quando já se desenhava sua vitória. Chegou a posar vestindo uma camisa da Seleção com o número 17. Certamente imaginava conseguir alguma guarida no picadeiro do Bozo, e ela veio na forma do “cargo” de “embaixador do turismo brasileiro”, outorgado pela Embratur. Um embaixador sem passaporte, já que este lhe fora retirado para evitar que fugisse do país. Só no Brasil mesmo.
Em 2020, o Paraguai é um país sério e o Brasil é isso aí que a gente vê. Uma investigação levada a cabo por meses pelas autoridades paraguaias botou na tranca R10 e Assis. O “proceder” das cadeias ensina que não se deve perguntar o crime que um detento cometeu, desde que ele esteja pagando adequadamente por seu erro. Que Ronaldinho pague, pois, por seu crime. E quando sair, que venha pra casa, a Cidade do Galo. A camisa do Atlético, como eu disse, é um pai que te abraça.
Parabéns, velho.



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