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Estado de Minas Responsabilidade

Nós, vítimas de nós mesmos

Ter atitudes irresponsáveis durante a pandemia e esperar queda da incidência e da mortalidade é ilusão e autoengano


28/08/2021 06:00 - atualizado 27/08/2021 21:50

(foto: Fusion Medical Animation/Unsplash)
(foto: Fusion Medical Animation/Unsplash)
Caro leitor, peço desculpas antecipadas pelo exemplo inicial dessa coluna, mas a contundência é necessária quando o tema se relaciona com as consequências da nossa própria estupidez.

Um arroto dentro da máscara e um pum debaixo do cobertor com a cabeça coberta se equivalem. Nós, vítimas de nossa própria putrefação.

Eleger imbecis e esperar deles atitudes geniais, se equivale a esperar que nossos putrefatos gases tenham o aroma de em perfume Chanel número 5.

Da mesma forma, ter atitudes irresponsáveis durante a pandemia e esperar queda da incidência e da mortalidade é ilusão e autoengano.

Ao longo dos últimos dias, a sensação que tenho é que as pessoas estão achando que a pandemia acabou. Apesar da redução do número de casos e óbitos na maioria dos estados do Brasil, a variante Delta do SARS-CoV-2 vai rapidamente dominando o mundo ultramicroscópico.

No intuito de tentar barrar a inevitável nova onda de casos e óbitos, o Ministério da Saúde liberou um reforço da vacinação para grupos mais vulneráveis. Medida coerente e respaldada pela literatura científica atual.

Entretanto, nada se fala de medidas de distanciamento, uso de máscaras e atitudes responsáveis. É como se todos tivessem aceitado a garupa na motocicleta do Messias.

Doce e ingênua ilusão epidemiológica.

Com menos de 30% da população com duas doses de vacina, a variante Delta não baterá delicadamente à nossa porta. Pelo contrário, penetrará casa adentro como se fosse parte da orgia em que se transformou a condução da epidemia no país.

O que observamos em outros países sempre foi a nossa realidade pouco tempo depois. Não temos nada diferente dos demais seres viventes desse planeta, exceto nosso jeito carnavalesco de ser.

Vacinas sem atitudes responsáveis é autoengano. Miragem e expectativa mágica de quem apodrece no poder, que já passou da hora de cair e continua exalando o seu hálito pútrido, recheado de agressões contra as estruturas garantidoras de nossa democracia.

Pelas projeções atuais, para chegarmos perto de nossas vidas "normais", precisaremos de mais de 80% de toda população completamente vacinada e eventualmente, revacinada.

Importante: as máscaras vieram para fazer parte de nosso adorno facial por um longo período.

Vacinas mais eficazes e que contemplem as variantes virais, resultantes de nossas atitudes delirantes e irresponsáveis, serão necessárias.

Tratamentos eficazes e cientificamente validados poderão amenizar e reduzir a angústia de não sabermos o desfecho do nosso encontro com o vírus. Porém, para termos acesso às novas tecnologias, encontramos uma outra poderosa barreira - a Agência Nacional de Saúde (ANS) e o lobby das operadoras de planos de saúde. Algumas operadoras ignoram até mesmo a ANS e seguem regras próprias, como se estivéssemos numa terra sem lei.

Mais uma vez, nós vítimas de nós mesmos.

Sucateamos o SUS e várias outras instituições construídas com o nosso suor durante anos e abrimos mão de um patrimônio nosso, absolutamente fundamental para o enfrentamento dos grandes problemas de saúde que teremos pela frente.

O resultado foi que nos tornamos escravos de grandes corporações de princípios éticos questionáveis e direcionados quase exclusivamente ao lucro, a despeito da vida e dignidade humana.

A engrenagem dos tempos modernos nos obnubilou a alma. O vírus nos roubou o olfato e o paladar. O mundo insípido e inodoro nos remete ao Tártaro e ao Caos, onde o submundo de Hades nos parece um paraíso distante e, ao mesmo tempo, docemente cruel.

Nós, vítimas de nós mesmos e das nossas escolhas.

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