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Estado de Minas COLUNA

O Amapá apagou: falta luz, falta horizonte

Somos todos cúmplices da falta de luz no Amapá, pelos números vexatórios da epidemia fora de controle, pelas covas rasas e escolas sem livros


Sem energia, moradores tiveram que enfrentar filas até para conseguir água(foto: Prefeitura de Macapá/divulgação)
Sem energia, moradores tiveram que enfrentar filas até para conseguir água (foto: Prefeitura de Macapá/divulgação)

O Brasil não conhece o Brasil...

Sim o Amapá é longe. Quase tão longe quanto o Afeganistão.
Se falta luz no Amapá, ou cortam a cabeça de alguém no Iraque, tanto faz...amanhã vou comprar pão, nada aconteceu. Vida que segue...

O mundo é assim, longe dos olhos, não é comigo.
Cômodo né?! Assim, tocamos o dia a dia, das manhãs ao por do sol. Travesseiro sem espinhos.

Nada a declarar...gente morre mesmo...
Mas, o mundo dá voltas. Ficou pequeno. O Azerbaijão é logo ali na esquina da Ásia.

Vírus de lá, vírus de cá,
Gens resistentes de lá, de cá, de lá de cá...
Pingue- pongue da desgraça que nos iguala.

Não há dor no mundo que não afete o nosso café da manhã e o simples ato de comprar pão.

Árvores cortadas lá afetam o futuro aqui e vice-versa. Faltará ar nos pulmões do mundo, independentemente de onde vem a fumaça ou a serra elétrica. Quem desmata, mata. Quem queima, incendeia o próprio destino.

As folhas são os alvéolos do mundo. Enfisema de todos, morte à vista por asfixia da consciência.

Quando falta luz no Amapá, falta também aos nossos olhos. Falta-nos percepção do descaso para com as nossas fronteiras. Somos grandes e pequenos em nossa visão de futuro enquanto país.

Faltar luz no Amapá por dias seguidos é voltarmos no tempo e não percebermos os limites do nosso território. Exclusão dos que estão dentro. Desprezível beirada de pizza. Terra de ninguém ocupada por gente que não enxergamos em nosso quarteirão. 

Quem apagou a luz do Amapá também sonega a merenda escolar e esconde dinheiro na cueca.

Falta luz, falta horizonte.

Falta luz, sobram covas. Debaixo da terra ficam os sonhos de quem um dia teve a coragem de ser fronteiriço. 

Enquanto isto, os números sombrios da COVID-19 explodem pelo país afora. Ondas epidêmicas intermináveis vêm de todos os lados. Tempos e ventos incertos...

Negativistas são assim, sonegam luz e horizontes. Confundem a percepção da população para manter espaço político e perpetuar poder. Podres poderes ...

Nossa responsabilidade vai bem além da padaria da esquina. Somos todos cúmplices da falta de luz no Amapá, pelos números vexatórios da epidemia fora de controle, pelas covas rasas e escolas sem livros.

Se elegemos irresponsáveis, somos os responsáveis, até mesmo pela bomba que explode e mata em qualquer parte do mundo. A dor do mundo, mora dentro dos nossos sapatos. Se apagamos a luz, temos a obrigação de ascendê-la.


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