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Estado de Minas

Cidade Jardim perde encanto e prestígio de bairro de ricos

Imóveis locais estão se transformando em casas de repouso para idosos e, com isso, mudando a cara da região, que já abrigou referências da sociedade mineira


postado em 29/08/2019 04:00 / atualizado em 28/08/2019 22:27

Cidade Jardim está se tornando o 'bairro da terceira idade' em Belo Horizonte(foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press %u2013 18/9/13)
Cidade Jardim está se tornando o 'bairro da terceira idade' em Belo Horizonte (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press %u2013 18/9/13)

Quando Alair Couto construiu sua bela casa no Bairro Cidade Jardim, estava ratificando a importância da região. Não só pelo tamanho do palacete, mas pelo fato de definir que lá só morava gente rica e de fino trato. Quando Fredy Chateaubriand resolveu sair do hotel e ocupar uma casa com a mulher, Lily, queria que fosse no Cidade Jardim. Procura daqui, procura dali, consegui para o casal a bonita casa do antigo dono da Casa Guanabara, que estava se mudando de BH. O casal ficou lá enquanto ele trabalhava nos Diários Associados. E a casa de Alair e Zilda, após colocar a cidade no mapa social do país, só foi fechada depois que ele morreu e ela resolveu se mudar para um apartamento sem aquela imensidão.

A cidade foi crescendo e o bairro se modificando, porque os donos das casas privilegiadas da época do lançamento foram envelhecendo, morrendo, se mudando para outros locais. E os filhos jovens preferiam outras regiões que entravam na moda, sempre nos arredores do Centro. Juntou-se a essa mudança o fato de o bairro ter recebido uma lei que proibia comércio aberto e construção de prédios de apartamento. Pouco a pouco, um ou outro ponto comercial foi se instalando, como a butique Alphorria, um ou outro consultório, tudo discretamente. Mas os prédios de apartamento continuam proibidos. Então, o que se vê hoje é um mundo de aviso “aluga-se” nos muros das casas, que perduram durante meses e meses. A cada dia, uma casa é esvaziada e a Cidade Jardim perde seu encanto e prestígio de bairro dos ricos.

Com isso, vem se tornando, aos poucos, o “bairro da terceira idade” por causa do grande número de casas de repouso para idosos que são abertas na região, aproveitando o fato do pouco movimento e do tamanho das residências, que já não são mais desejadas por casais jovens. E como os brasileiros vão, aos poucos, aceitando o fato de que a vida moderna aceita o internamento dos velhos da família em casas de repouso, os casarões da Cidade Jardim vão sendo adaptados a essa nova realidade. Obedecendo a certos preceitos, com a necessidade de existir sempre a oportunidade de os internados aproveitarem o movimento da rua (todo os muros têm que ter aberturas) e outros detalhes, como vários apoios para a movimentação com segurança.

Nunca vi uma casa dessas por dentro, mas conheço o que existe nos Estados Unidos, onde, há mais de 40 anos, quando não se falava dessa modificação da tradição familiar no país, fui visitar uma delas. Voltei de queixo caído com o que vi. As casas de repouso americanas, certamente que para milionários, tinham “de um tudo” para quem fosse lá morar. Os quartos eram fantásticos, com banheiros junto, as salas de refeições eram divididas em almoço, café da manhã, jantar, as piscinas eram aquecidas e uma perfeita academia funcionava com tudo. Desde ioga até exercícios físicos de todo tipo. O salão de beleza era completo, com tudo que uma mulher precisa para se cuidar. Além disso, o local possuía pequenas lojas vendendo tudo do bom e do melhor. De grifes estrangeiras até perfumes, produtos de beleza, tudo que uma mulher precisa para se cuidar, se ocupar, não pensar que está afastada do mundo.

É claro que ainda vamos demorar muito a chegar a esse estágio, principalmente porque a maioria dos asilos daqui são adaptados em casas já existentes. Mas do jeito que as coisas vão, e com o aumento da longevidade, mais dia menos dia chegamos ao padrão americano. 


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