A cadeia produtiva do morango e suas entidades representativas denunciam a invasão no mercado brasileiro do fruto vindo do Egito com preço inferior ao de produção, e pedem uma investigação sobre a possível prática de dumping. Produtores do Sul de Minas, a maior região produtora do fruto no Brasil, compareceram a uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), convocada pelo deputado Dr. Maurício (Novo), para expor a situação à Comissão de Agropecuária e Agroindústria da casa.



De acordo com o deputado, o morango egípcio é comercializado em média a R$ 15 em seu mercado interno, mas é exportado para o Brasil por R$ 7,50 em média, o que seria um forte indício de dumping, prática comercial na qual as empresas exportam produtos a preços artificialmente baixos para eliminar a concorrência e dominar mercados. Enquanto isto, o custo médio de produção do morango em Minas Gerais é de R$ 8,50. Esses valores foram colocados na audiência pública do último dia 10.
 

 
Mariana Marotta, analista de agronegócios da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), explica que um acordo bilateral entre o Mercosul e o Egito permitiu que os morangos do país africano entrassem no nosso mercado de forma mais favorável. O acordo foi firmado em 2010, mas sua regulamentação foi feita só em 2017, determinando uma redução gradual da tarifa de importação para uma cesta de produtos mais sensíveis, entre eles os morangos e os morangos congelados.


Segundo Marotta, o “boom” das importações brasileiras de morangos do Egito se deu em 2023, e continuou crescendo. Entre este ano e 2025, a importação brasileira de morango cresceu 868%, partindo de 4,35 mil toneladas para 42,10 mil toneladas. Desse total importado em 2025, cerca de 35 mil toneladas vêm do Egito, o que corresponde a 83%. A China fornece outras 5 mil toneladas.


Em Minas, o aumento da demanda pelo morango importado tem crescido em um ritmo superior ao do Brasil. Comparando o volume importado do fruto em janeiro de 2025 com janeiro de 2026, enquanto o Brasil teve um aumento de 221% (com 1,04 mil toneladas em janeiro de 2025 e 3,34 mil toneladas no mesmo mês de 2026), em Minas o aumento foi de 451% (com 51 toneladas em janeiro de 2025 e 281 toneladas no mesmo mês de 2026).


Uso industrial


Ainda segundo analista de agronegócios, outra característica do morango importado pelo Brasil é que quase sua totalidade, 41 toneladas em 2025 (97% do total), corresponde ao fruto congelado, com uso voltado para a indústria. Para ter ideia do impacto que esse produto teve na cadeia produtiva do morango, ela cita o relato de um morangueiro que em 2024 vendeu 20% de sua produção para a indústria, que pagou entre R$ 4 e R$ 6 pelo quilo do produto congelado. Em 2025, o mesmo produtor não conseguiu vender mais que 10% de sua safra para a indústria, que ainda assim pagou apenas R$ 1,50 pelo quilo do morango congelado.

Marotta alerta que as investigações sobre dumping costumam se arrastar por anos

Faemg/Divulgação


“O produtor está perdendo um mercado importante. Esse produto para congelar tem qualidade, é um produto com características boas, mas é de fato um produto direcionado para a indústria e não para o mercado. Mas, nada impede que ele vá para o mercado. Como não tem tido a comercialização dentro da indústria, os produtores têm tentado mandar esse morango congelado para o preparo de polpa para geleia. Então, eles estão tentando se organizar”, explica a analista da Faemg.


Apesar da urgência dos morangueiros, Marotta lembra que as investigações sobre dumping, responsabilidade do governo federal, costumam se arrastar por anos. Ela cita como exemplo o pedido de investigação de dumping no leite importado da Argentina e Uruguai, que foi protocolado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em 2024 e que até hoje não foi concluído.


Durante a audiência pública na ALMG, o deputado estadual Dr. Maurício afirmou que, se comprovada a prática do dumping, o governo federal poderia proibir ou taxar a importação de morangos do Egito. “Não se trata de protecionismo e nem de restringir a livre iniciativa, mas a busca por transparência, equilíbrio concorrencial e preservação da cadeia produtiva”, analisou.


O engenheiro agrônomo Deny Sanábio, coordenador de Fruticultura da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater MG), acrescentou durante a audiência pública que as exigências trabalhistas e ambientais para a produção de morango no Brasil são mais rigorosas que as de países como o Egito e a China, reforçando a tese de que existe uma concorrência desleal. 

Para Mário Sérgio Carvalho, pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), também é necessário que as autoridades brasileiras competentes implementem uma análise fitossanitária do produto importado para identificar possíveis pragas, doenças, fungos, bactérias ou vírus no morango congelado.

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Destaque nacional


De acordo com Marotta, o dado mais atual sobre a produção brasileira de morango é de 2023, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), quando o Brasil produziu aproximadamente 187 mil toneladas do fruto. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2017 o país produziu 139 mil toneladas de morango, sendo que Minas respondia por 92 mil toneladas, o que corresponde a 66% do total. No estado, a produção de morango se concentra na região Sul, especialmente na microrregião de Pouso Alegre. De acordo com a Faemg, a atividade tem forte impacto social, com 98% dos produtores da agricultura familiar, envolvendo cerca de 11 mil agricultores, gerando renda e empregos no meio rural. 

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