Um seminário que será realizado em Sete Lagoas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), quer estimular a produção do milho crioulo na agricultura familiar, assim como toda a cadeia de processamento e distribuição dos produtos derivados do grão. Longe do milho commodity, manipulado geneticamente para ter alta produtividade e resistência às pragas, o milho crioulo são variedades antigas cujas sementes são passadas de geração para geração e que se destacam pelo sabor acentuado e maior valor nutricional.
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O engenheiro agrônomo Lucas Castro Alves de Sousa é um dos responsáveis pelo evento, levando todo o aprendizado acumulado no Projeto Crioulo, desenvolvido desde 2021, para a mesa de discussão. “Antigamente, cada família tinha sua semente de milho, e isso foi se perdendo. O nosso trabalho foi ir atrás dessas sementes para transformar em produtos, para isso voltar para a mesa das pessoas”, relembra.
Lucas conta que seu primeiro contato com essa cultura foi através de um milho crioulo vermelho, recebido de um vizinho, que por sua vez ganhou as sementes de um amigo. A primeira produção - na Fazenda Vista Alegre, em Capim Branco, na RMBH, onde ele e a família produzem hortaliças orgânicas - foi transformada em fubá.
Junto com uma parceira comercial, que conectava chefs de cozinha a produtos da agricultura familiar, amostras do produto foram enviadas a profissionais como o chef Rodrigo Oliveira, do restaurante Mocotó, Helena Rizzo, do Maní, e Janaina Rueda, do A Casa do Porco. “Quase todos gostaram do produto e quiseram fazer encomenda, mas não tínhamos ainda. Então, fizemos uma segunda produção planejada para atender a esse nicho de restaurantes de alta gastronomia”, explicou. Depois começou a ter uma demanda deste fubá e canjiquinha por algumas lojas, também em São Paulo, como a Casa Santa Luzia e o Instituto Chão.
Diversificação do milho
Com isso, o engenheiro agrônomo começou uma busca por outras variedades de milho crioulo. “Nós experimentamos na fazenda e, se tiver uma boa produtividade, nós transformamos em produto”, explicou. Foi assim com uma variedade amarela que vinha sendo guardada pelo caseiro de uma propriedade vizinha. “O dono desta fazenda plantava milho transgênico, mas esse funcionário guardava essa variedade crioula há muito tempo. Ele falava que esse milho era o que sua família gostava para fazer pamonha e bolo”, relatou.
Dentro dessa diversificação, no ano passado Lucas começou a produzir uma variedade de milho branco (BR 451) que não é crioula, mas foi desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na década de 1990 voltada para a agricultura familiar. Como essa variedade tem o ciclo de produção mais curto, é possível fazer duas safras, o que é adequado para o Nordeste do Brasil, que tem a estação de chuva mais curta.
O milho crioulo é composto por variedades antigas, cujas sementes são passadas de geração para geração
Outra variedade da Embrapa que acaba de ser reproduzida na Fazenda Vista Alegre é a BR 473, um milho amarelo que contém 50% mais lisina e triptofano, dois aminoácidos essenciais para a saúde. Por este maior potencial nutritivo, esta variedade também foi pensada para a Região Nordeste. De acordo com o engenheiro agrônomo, existe um interesse da Embrapa em voltar a produzir essas sementes por meio de produtores licenciados.
Multiplicando
Para Lucas, a ideia é continuar disseminando este trabalho, e não virar uma fábrica de fubá. Um exemplo disso é a parceria firmada com a Cooperativa Agropecuária Mista Regional de Irecê (Copirecê), no sertão baiano. A demanda para produzir flocão com o milho vermelho - uma parceria com o chef Rodrigo Oliveira - o levou à cooperativa, que já produzia um produto de qualidade. O resultado foi tão bom, que as sementes do milho crioulo foram enviadas para que os produtores da cooperativa possam produzir em escala industrial.
A partir desse case da Copirecê, Lucas inscreveu um projeto em um edital público da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos, empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) focado em soluções para agricultura familiar. “Para o que fazíamos ‘torrando’ dinheiro, agora conseguimos uma verba que possibilitou montar uma estrutura de produção na fazenda: sementes, maquinário, contratação de mão de obra, além de um técnico na Bahia acompanhando os agricultores de lá”, explicou.
Com a produção em grande escala, o desafio atual é construir mercado, fazer as pessoas entenderem o que é esse produto, valorizarem e desejarem consumir. Uma inspiração para Lucas é o que aconteceu com o café, que deixou de ser pensado apenas como commodity. “A ideia é mostrar que os milhos não são todos iguais”, disse o engenheiro agrônomo.
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Como exemplo de que é possível conseguir espaço nos supermercados, ele cita a parceria entre o Verdemar e a Emater-MG (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais), que dedica uma prateleira para cafés produzidos por agricultores familiares ao lado de empresas gigantes. Outra ideia que está sendo pensada em parceria com a Embrapa e o IMA (Instituto Mineiro de Agropecuária) é a criação de um selo de milho especial, para que o produtor possa valorizar seu produto.
