O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, que envolve a eliminação de tarifas de importação e exportação para ambos os blocos, foi paralisado pelo Parlamento europeu. Ainda assim, a partir da assinatura do tratado, os diferentes setores do agronegócio se debruçaram sobre o texto para ver como podem se enquadrar, além dos termos e o calendário de implantação das cotas tarifárias.
O carro-chefe das exportações mineiras para a Europa é o café. No entanto, o café verde (arábica e canéfora), que representou 90,7% das exportações brasileiras do produto em 2025, já não é taxado para a Europa. Em seguida, vem o café solúvel, com 9,2% do volume exportado pelo Brasil no último ano, enquanto o café torrado e moído enviado para fora não passa de 0,1%.
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“A taxação ocorre em produtos sensíveis para o mercado europeu. Eles colocam taxas e cotas nas cadeias de produtos que afetam o seu comércio, seja pela produção ou processamento e alguma etapa. No caso do café, como eles não têm a matéria-prima, o interesse é beber o produto. Lá eles têm grandes indústrias que processam esse café. Então, o ganho para a gente seria nos produtos mais industrializados, o que viria a longo prazo. A questão da industrialização afeta todos os produtos que iremos enviar”, analisou Manoela Teixeira de Oliveira, assessora técnica da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa).
Assim, o que Minas Gerais, o maior produtor e exportador de café do mundo, tem a fazer para ampliar os negócios com a União Europeia seria investir em produtos industrializados, com maior valor agregado, como o café solúvel e o torrado. Manoela explica que, para enviar produtos com um grau maior de tecnologia, o Brasil precisa promover uma renovação do seu parque industrial, já que a União Europeia é um mercado muito exigente. “Esse investimento vai gerar mais emprego e renda para nós”, observou.
Outros produtos de destaque na exportação
A assessora técnica da Seapa ressalta que o café responde por 90% das exportações de Minas Gerais para a União Europeia, mas o restante da pauta, apesar de ter um volume menor, é diversificada. Os produtos florestais também se destacam, especialmente a celulose, o papel e a madeira industrializada. Para ela, Minas Gerais deve ampliar sua participação nesse setor, já que o estado tem a maior área plantada de florestas do Brasil, mas uma melhor organização de políticas públicas poderia contribuir muito.
“Este já é um setor com maior grau de industrialização e tecnologia. É uma cadeia mais organizada. Mas, é fundamental estar a par dos padrões técnicos, normativos e das certificações, sobretudo relativos ao meio ambiente. Via de regra, o setor já apresenta um bom andamento, o que trava mais são as tarifas, que podem ‘cair’ se o acordo entre o Mercosul e a União Europeia for desbloqueado”, disse Manoela.
Minas Gerais ainda pode ampliar a exportação de carnes (bovina, suína e de frango) para a União Europeia. Trata-se do terceiro produto da pauta exportadora do estado para o bloco europeu. Manoela garante que somos bastante competitivos neste setor, mas o acordo combina a redução de tarifas com cotas limitadas de exportação. “O importante é a gente acessar o mercado. A partir daí temos mais contato com aqueles consumidores e vamos ampliando o acesso. A Europa é uma vitrine que nos credencia para novos mercados”, analisou a assessora técnica da Seapa.
Compradores europeus têm alto grau de exigência sobre a qualidade do produto
Ainda são destaque na pauta exportadora mineira para o bloco europeu a soja e seus derivados, com embarques concentrados em farelo e óleo, assim como as rações e produtos para nutrição animal, direcionadas para animais domésticos e não para os de grande porte.
Manoela ainda evidencia a nossa cadeia do mel, que vem crescendo muito, tanto para o mel natural como para o própolis: “Ainda temos uma participação pequena, mas o interessante dessa cadeia é que ela já se organizou quanto à padronização e rastreabilidade dos produtos, uma exigência da União Europeia, o que pode até acelerar os negócios”. Produtos típicos mineiros como o Queijo Minas Artesanal (QMA), a cachaça de alambique, o vinho e o azeite, com maior valor agregado, também poderão ser exportados.
Reação mineira à paralisação
De acordo com Antônio de Salvo, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), a paralisação do acordo Mercosul-União Europeia cria incertezas e paralisa, a implementação de um dos acordos comerciais mais importantes para o agro brasileiro: “A paralisação do acordo impede o avanço na diversificação de mercados e na agregação de valor às exportações. Além disso, o país perde competitividade frente a concorrentes que já possuem acordos preferenciais com a União Europeia”.
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Do ponto de vista tarifário, a não implementação do acordo posterga ganhos imediatos de competitividade. O texto prevê a eliminação de tarifas pela União Europeia para 93% de sua pauta, com prazos de até 10 anos. Já no primeiro ano de vigência, 39% dos produtos agropecuários brasileiros exportados ao bloco teriam tarifa zero, sobretudo em segmentos nos quais o Brasil já é altamente competitivo.
