A rotina em casa pode impactar o desenvolvimento de crianças autistas
Mais do que terapias, ambiente familiar tem papel decisivo na evolução e na qualidade de vida dentro do espectro
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O diagnóstico de autismo costuma chegar acompanhado de uma avalanche de dúvidas. O que fazer primeiro? Como estimular a criança? Até que ponto a rotina da casa precisa mudar? Para muitas famílias, esse momento marca o início de uma nova dinâmica e é dentro desse cotidiano que mora uma das principais ferramentas de desenvolvimento.
Em abril, mês de conscientização sobre o autismo, especialistas reforçam que o ambiente familiar influencia diretamente na evolução cognitiva, social e afetiva da criança. Segundo o neurocirurgião André Ceballos, especialista em desenvolvimento infantil, o envolvimento da família não é apenas complementar ao tratamento multidisciplinar, ele é o ponto central no processo.
“O cérebro de uma criança pequena tem uma plasticidade extraordinária. Isso significa que os estímulos do dia a dia têm um peso enorme. Quando a família participa ativamente, ela potencializa o que é trabalhado nas terapias”, explica.
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“O lar é o espaço onde a criança passa a maior parte do tempo. Uma hora de terapia por semana é importante, mas é o que acontece fora dali que sustenta os avanços”, afirma o especialista.
Entre a sobrecarga e o excesso de informação
Apesar da importância desse papel, muitas famílias se sentem perdidas após o diagnóstico. A quantidade de informações disponíveis, muitas vezes contraditórias, e a pressão por “fazer o melhor” podem gerar ansiedade e sensação de insuficiência.
Por isso, o alinhamento com profissionais como fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e neuropediatras é fundamental. Participar das orientações e adaptar as estratégias à realidade da casa costuma ser mais eficaz do que tentar seguir protocolos rígidos.Outro ponto que ainda recebe pouca atenção é o bem-estar de quem cuida.
“A sobrecarga emocional é real. Pais exaustos ou culpados têm mais dificuldade de sustentar a rotina que a criança precisa. Cuidar de si também faz parte do tratamento”, destaca Ceballos.
Não é sobre mudar a criança, mas o ambiente
A ideia de que a criança precisa ser “corrigida” tem sido cada vez mais substituída por uma abordagem baseada na compreensão e na adaptação do ambiente. Respeitar o tempo da criança, observar suas formas de comunicação, mesmo que não verbais, e valorizar pequenas conquistas são atitudes que fortalecem vínculos e favorecem o desenvolvimento.
“Mais do que qualquer técnica, o que mais impacta é a qualidade da relação. E isso começa dentro de casa, nas interações mais simples do dia a dia”, ensina o médico.
Perfil
André Ceballos é médico neurocirurgião e atua como diretor técnico do Hospital São Francisco, referência no diagnóstico e tratamento de crianças com transtornos do desenvolvimento. O médico tem como missão identificar precocemente condições que possam comprometer o pleno desenvolvimento das crianças, oferecendo intervenções terapêuticas baseadas nas melhores evidências científicas.
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Ceballos vai além do atendimento clínico e da gestão hospitalar, ele também trabalha com informação e educação para a saúde pública, se dedicando a projetos de divulgação e conscientização sobre os marcos do desenvolvimento infantil. O objetivo do trabalho é influenciar políticas públicas que beneficiem especialmente as populações mais vulneráveis. Saiba mais em: https://marcosdodesenvolvimento.org/